Para os meninos de rua ela era a salvação para aplacar a fome. Para os doentes era a certeza do cuidado sem preconceito. Para os poderosos era a chance de fazer algo de bom através de seus pedidos de doações. Nascida em Salvador, a menina Maria Rita Lopes Pontes tornou-se Irmã Dulce e sempre foi santa para quem esteve ao seu lado. 

Quando morreu, em 13 de março de 1992, eu ainda estava na minha primeira infância. Mas basta seu nome ser proferido por quem teve a oportunidade de conviver com ela que os olhos lacrimejam numa terna alegria, misturada com relatos dos momentos de ensinamentos e compaixão.

Dulce intimidou poderosos para conseguir seguir no seu propósito de amar e servir. A oficialização de Dulce como santa da Igreja Católica – 27 anos após sua morte – faz justiça à vida da religiosa que foi dedicada a amar o próximo tal qual como está dito no primeiro mandamento da igreja de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. 

Ela foi amor por onde passou mesmo quando era maltratada quando ia atrás de donativos. Certa vez, Irmã Dulce pediu dinheiro a um comerciante que cuspiu em uma de suas mãos, se negando a fazer doações. Ela estendeu a outra mão dizendo que o cuspe era para ela e que, na outra mão, ele poderia colocar a contribuição para os doentes. 

Sua persistência em ajudar e fazer o bem suplantava os limites impostos pela sociedade dos anos 1930, quando se tornou noviça e começou seu trabalho social em Salvador. 

Nesse período,  encontrou com um menino, um jornaleiro, que começou a fazer a mudança de sua vida. O menino ardia em febre, perambulava com uma esteira embaixo do braço tentando algum local para dormir no bairro de Itapagipe. Na Rua Lelis Piedade, o pequeno jornaleiro encontrou sua salvadora.

Movida pela compaixão diante do sofrimento, Irmã Dulce tomou o menino pela mão e saiu pela Ilha dos Ratos em busca de um abrigo para o pequeno jornaleiro. Ao avistar uma casa, pediu ajuda a um banhista ordenando que ele arrombasse a porta, mesmo sendo avisada que o imóvel – apesar de fechado – tinha proprietário. Invadiu, acomodou o menino, deu alimento a ele e retornou ao seu trabalho no posto médico.

No dia seguinte, quando voltou para ver o menino, a casa não estava habitada apenas por ele. A fama do local já havia se espalhado. Uma velhinha, que sofria com o câncer, foi a segunda acomodada por Irmã Dulce. No total, ela invadiu cinco casas na Ilha dos Ratos para abrigar seus doentes. 

Após o pedido do dono dos imóveis, deixou as casas e levou seus enfermos para os arcos do viaduto que levavam à Igreja do Bonfim. Relatos de moradores da época indicam que Irmã Dulce comprou briga com muitos comerciantes e gente poderosa por conta dessa atitude.

Passou a ser perseguida e decidiu invadir o galinheiro que ficava nos fundos do convento, no Largo de Roma, para abrigar os doentes. Retirou as galinhas e dividiu o espaço para abrigar os seus pacientes. O “hospital-galinheiro” tornou-se o embrião do que hoje são as Obras Sociais Irmã Dulce, o maior espaço de atendimento público de saúde no Brasil. 

O galinheiro foi o pilar da santidade de Dulce que, agora, ganhará mais amplitude de devoção pelo mundo. O exemplo e as virtudes do Anjo Bom da Bahia  irão ecoar pelas igrejas para além do Brasil fazendo valer outro lema de Dulce. Ela sempre estará presente. 

*Jorge Gauthier é jornalista e autor do livro Irmã Dulce: os milagres pela fé 

Fonte: Correio