“É uma festa e é também vulnerável”. Foi assim que o próprio Jorge Amado (1912- 2001) resumiu a Bahia quando ainda era vivo. E foi essa frase que abriu ontem o 26º Prêmio Braskem de Teatro, que homenageou o escritor.

A vida e a obra do itabunense deram o tom à cerimônia, que contou com apresentação dos atores Amaurih Oliveira, Frank Menezes e Zeca de Abreu, além da atriz e cantora Larissa Luz.

(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Mas apesar de ter esse tom de nostalgia, o espetáculo Jorge Amado na Batida da Cena refletiu sobre temas contemporâneos, como negritude, miscigenação e intolerância religiosa, assuntos que também foram abordados pelo autor baiano em seus livros. 

Gabriela, Dona Flor, Vadinho e Quincas Berro D’Água foram alguns dos personagens de Jorge que apareceram representados na cerimônia. “Foi como uma atualização com arquétipos das obras dele”, disse o diretor Luiz Marfuz.

‘Na vida e na literatura, Jorge Amado não largou o teatro’, resumiu a cantora e atriz Larissa Luz
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

À frente da cerimônia pela sétima vez, Marfuz ressaltou que a celebração também faz referência “à sobrevivência dos artistas baianos”. Resistência que foi ressaltada por quase todos artistas das mais diferentes gerações do teatro baiano que compareceram ao evento. “Meu personagem, Souza (de Em Família), diz e eu assino embaixo: ‘Diga a Jorge que continuamos na batalha’”, disse o ator e diretor teatral Harildo Deda.

O ator baiano Leno Sacramento, do Bando de Teatro Olodum, baleado pela polícia a exatamente um ano, interpretou uma parte do seu espetáculo Encruzilhada, que fala sobre racismo estrutural. Leno entregou o prêmio de melhor texto.

(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

A artista Bárbara Lais Machado, que venceu na categoria revelação, foi – talvez – a personalidade mais aplaudida da noite. Em seu discurso, ela ressaltou a importância da cultura e da educação e citou a Universidade Federal da Bahia (Ufba). “Agradeço à Ufba, especialmente à Escola de Teatro. A gente não pode considerar conhecimento e criticidade balbúrdia”, disse. 

Bárbara Lais
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Para Evelin Buchegger, que venceu na categoria Melhor Atriz, mesmo com a falta de patrocínio, o teatro baiano é fonte de inspiração e questionamentos  “e continuará mesmo que no seu entorno se mova mil moinhos de vento”. “A gente não desiste. Até porque o nosso maior patrocinador é o público”, lembrou.

E, por falar em público, a atriz Fernanda Beltrão, do o Núcleo Teatro Viável, ressaltou, durante o evento, a importância da plateia infantil. “Não podemos deixar de agradecer às crianças que nos apreciaram e inspiraram. A gente sempre fala sobre formação de plateia e isso tem que começar logo na infância”, disse ela, que integra o elenco de O Mundo das Minhas Palavras, peça vencedora na categoria Espetáculo Infantojuvenil.

O Mundo das Minhas Palavras foi a peça eleita na categoria Espetáculo Infantojuvenil
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Premiado nas categorias Direção e Atriz, Teatro La Independencia foi um dos destaques da noite. Curiosamente, lembra o diretor Luis Alonso, o musical é uma metáfora sobre momentos em que as saídas parecem poucas. “Quero agradecer à Bahia pelo acolhimento”, afirmou o cubano.

Não faltaram críticas à onda conservadora que caiu em cima da produção artística do país, assunto abordado nas falas dos  homenageados, Zezé Motta e Hilton Cobra, dois atores que já interpretaram personagens de Jorge no teatro. E também por Marcio Meirelles, diretor de Por que Hécuba?, eleito Melhor Espetáculo Adulto.

Por que Hécuba? venceu na categoria Espetáculo Adulto
(Foto: Divulgação)

“A gente só consegue fazer teatro com acolhimento, cooperação. Qualquer peça que estreie é um milagre nesse momento. Eu me sinto representando todos vocês aqui presentes. Continuamos juntos, falando e perguntando”, declarou Meirelles. 

Filha do escritor, Paloma Amado disse, emocionada, que sentiu como se os pais estivessem do seu lado. “Esse foi um dia perfeito. E não poderia imaginar nunca a presença viva do meu pai e de minha mãe aqui. É um dia de esperança. Querem que a gente lute. Um país que tem  teatro, literatura e arte vai sobreviver sempre”.

De abril a dezembro do ano passado, a comissão julgadora do prêmio avaliou 61 peças teatrais. Os vencedores das categorias Espetáculo Adulto e Espetáculo Infantojuvenil receberão um prêmio no valor bruto de R$ 30 mil cada, enquanto os demais vencedores vão ser contemplados com um prêmio no valor bruto de R$ 5 mil cada.

  • Vencedores do 26º Prêmio Braskem

Espetáculo Adulto: Por que Hécuba?
Espetáculo Infantojuvenil: O Mundo Das Minhas Palavras
Espetáculo do Interior da Bahia: O Teatro é de Cordel (Jequié)
Direção: Luis Alonso (Teatro La Independência)
Ator: João Guisande (Esse Amor e Retratos Imorais)
Atriz: Evelin Buchegger (Teatro La Independência)
Texto: Gil Vicente Tavares, (As Tentações de Padre Cícero)
Revelação: Bárbara Lais (pela atuação em Jackie – A do Mal ou Nem Tudo é O Que Parece)
Categoria Especial: Luciano Bahia (pelo Conjunto das Direções Musicais de 2018)

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Fonte: Correio