“O ‘universo’ é meio pretensioso, coisa de editor, mas de qualquer forma resume. A trajetória de um artista é sempre um universo, seja composta por 10, 20 ou 30 obras”. É assim que o artista plástico e gestor cultural Emanoel Araújo, de 78 anos, começa a falar sobre o livro O Universo de Emanoel Araújo, que ele lança nesta quinta-feira (13), às 19h, na Paulo Darzé Galeria (Corredor da Vitória). 

Em suas mais de 320 páginas, a publicação reúne textos e imagens sobre a vida e a obra do artista baiano, que saiu de Santo Amaro da Purificação na década de 60, com destino à Bahia (como ele se refere a Salvador). Foi aqui que ele descobriu que “era impossível resistir a ser artista”. “Ao mesmo tempo, a Bahia castra o artista ou tende a anular o tipo  de voo mais universal que o torna ser do mundo e não apenas de um só local”, diz ele, que acabou escolhendo São Paulo (“a mais brasileira das cidades”) para fixar residência e dar prosseguimento à sua verve artística, sem qualquer tipo de pressão. 

Edição limitada de 3 mil exemplares (Foto: Reprodução)

Sua produção explicita a raiz africana, o interesse nato pela cultura popular baiana e também pelas tradições modernistas brasileiras e europeias. Construção livre, que fica evidente nos mais de 180 trabalhos resgatados em O Universo de Emanoel Araújo, os quais englobam diferentes fases e meios de criação.

“São 78 anos dessa labuta. É o que sei fazer. A vida vai traçando ela própria seu caminho e você vai acompanhando. E eu acho que sempre andei do lado certo, porque eu sempre tive essa intenção de ser artista. A arte para mim é fundamental, tudo que eu fiz foi em prol disso”, sintetiza.

(Foto: Andréa Farias/ Arquivo CORREIO)

No livro, estão as primeiras xilogravuras e cartazes, e também as esculturas em aço, madeira, concreto, fibra de vidro, máscaras, painéis em mármore, concreto e granito, gravuras, totens e relevos.

Uma das seções mais especiais para ele é a que reúne cartazes desenhados em diferentes datas, além de capas de livros, projetos gráficos editoriais e musicais de diversos artistas e temas. “Quando olhei para isso, tomei um susto. Nunca tinha reunido esse material dessa forma. São mais de 400 obras”, comenta o artista plástico, que consolidou-se não só por ser um talentoso artífice, mas também por sua essencial atuação como gestor cultural, promotor de ações de salvaguarda e catalogação de obras de artistas afro-brasileiros, bem como pelas dezenas de publicações críticas que organizou e promoveu.

(Foto: Reprodução)

Foi diretor do Museu de Arte da Bahia e diretor da Pinacoteca de São Paulo (1992-2002), além de secretário municipal da cultura do estado de São Paulo. Também criou, dirige e faz a curadoria do Museu Afro Brasil, que este ano completa 15 anos, todos eles sob sua gestão. No final do livro, Emanoel assina alguns textos nos quais reflete sobre a fundação do museu e também homenageia amigos, como o também artistas plásticos Mestre Didi  e Yêdamaria.

Há textos assinados ainda por  Claudio Leal, Hugo Loetscher, Waldeloir Rego e Odorico Tavares – deste último, o escrito é de 1964, publicado originalmente na coluna Rosa dos Ventos, no Diário de Notícias. “Nessa época, havia uma crítica de arte consistente, os jovens artistas se lançavam nos salões, tinha coisas desse tipo, que você participava e se fazia visto”, recorda Emanoel. 

Quem for ao lançamento em Salvador, vai poder encontrar o artista e também conferir uma mostra com nove obras dele, de diferentes épocas.

Veja trechos da conversa do CORREIO com Emanoel Araújo:

“Quando eu recebi o convite para lecioanar em NY, na década de 80, um amigo me disse que eu tinha muita coragem. Tem que ter coragem! Eu acho que desde o dia que saí de Santo Amaro da Purificação, eu me imbuí de uma certa coragem, e de um longo processo de superação. Sim, porque primeiro tem uma timidez, depois tem que romper com laços, depois tem que pular pedras no caminho. Enfim, eu acho que a vida é isso aí”. 

“Essas coisas vão acontecendo na sua vida, e é tão engraçado porque é um roteiro que não está escrito mas poderia acontecer, poderá acontecer ou aconteceu, e eu fui navegando junto. Eu sou um navegador. Sei lá por que essas coisas acontecem. Não sei se é uma questão de sorte, mas é uma questão que se abre. Você olha para o universo, ele olha para você e te oferece. Basta aceitar”

“Passa rápido. Tudo isso [as pessoas, os laços] foi se esvaindo. Carybé era um grande sujeito, um sujeito extraordinário. Então, quando você olha a obra de Carybé ou essa cadeira de Mario Cravo, onde estou sentado, são coisas que estão aí, são uma marca indelével, que ficou no mundo. Só desaparecerá se acontecer uma hecatombe. Eu acho que meu trabalho é um pouco isso, toda vez que alguém vê meu trabalho deve lembrar do menino franzino que andava por aí fazendo exposição”.

“Dá uma certa nostalgia e bate esse sentimento de estar só. Quando cheguei em Salvador em 60, e fui pra Escola de Belas Artes, a gente não tinha um olhar em profundidade sobre o que seria a vida. A vida vai traçando ela própria seu caminho, e você vai acompanhando. Eu acho que sempre andei do lado certo porque eu sempre tive essa intenção de ser artista. A arte para mim é fundamental, tudo que eu fiz foi em prol disso. Gravura, cenografia, figurino, tudo estava muito ligado a essa ideia de ser um profissional, da arte eu ia tirar o meu trabalho e o meu sustento. Quando eu olho para trás, eu vejo todas as pessoas que me ajudaram nisso. Essas pessoas todas. Eu, num certo sentido, sinto que sou um devedor. Isso é até estranho, nunca conversei isso com o meu psquiatra. Vou até conversar… Eu acho que sou um devedor, porque essa dívida vem da realização. Tudo que me ocorreu como processo que veio a se realizar é uma dívida. De todas essas pessoas amigas eu fiz livros, fiz exposições. Minha obrigatoriedade das curadorias é uma forma de devolver essa gratidão que eu tenho à vida, às pessoas, e também às instituições: a Pinacoteca, o Museu de Arte da Bahia, o Museu de Feira de Santana e agora o Museu Afro Brasil. É uma forma de dar presente, de estar presente e de contribuir para tornar visível tudo isso, essa memória.”

Serviço: Quinta-feira (13), às 19h. Paulo Darzé Galeria (Corredor da Vitória). Entrada gratuita.

Fonte: Correio