A senhora diz que seu sonho sempre foi trabalhar na Nasa. Conte um pouco sobre a sua trajetória até conseguir realizar esse sonho.

Fiz minha graduação e mestrado em física na UFRJ. Depois iniciei meu doutorado na Universidade de Chicago, instituição com grande liderança na área de astronomia e astrofísica.

A lista de ex-alunos desse programa inclui Edward Hubble, o descobridor da expansão do universo, e Carl Sagan, astrônomo americano escritor de vários livros. Para manter o rigor acadêmico, o departamento de astronomia aceita, em média, apenas cinco alunos do mundo inteiro por ano.

A competição era extrema, o estresse é nível máximo todo tempo. Os anos do doutorado foram muito difíceis, e posso escrever páginas sobre minha experiência.

Mas prefiro encerrar dizendo que, no quinto ano, eu ganhei os dois prêmios mais importantes da Universidade de Chicago na área de exatas – o Nathan Sugarman Award for Excellence in Graduate Student Research e a Schramm Fellowship. Não era comum um único aluno ganhar os dois prêmios.

Atualmente a senhora colabora com o projeto do telescópio espacial WFirst. Qual é exatamente o seu papel nesse projeto?

Depois do doutorado eu iniciei meu primeiro pós-doutorado na Universidade da Pensilvânia. Na mesma época a Nasa fez uma chamada para cientistas de todos os EUA formarem grupos com o objetivo de simular as capacidades do WFirst.

Eu ingressei num grupo liderado pelo Prêmio Nobel de Física de 2011, o professor Adam Riess, e fomos aceitos. Nesse grupo eu entrei como coinvestigadora do Wfirst. São quase 200 cientistas.

Em 2018 eu encerrei meu pós-doutorado júnior na Universidade da Pensilvânia e ingressei na Universidade do Arizona como pós-doutora sênior. 

Nos EUA o grupo está também muito envolvido no projeto. Então, hoje – de diferentes formas – eu estou em dois grupos do programa. 

Esse telescópio será revolucionário. É um dos dois sucessores do telescópio espacial Hubble (o outro sucessor é o JWST).

O WFirst será um telescópio mais dedicado à minha área: a cosmologia, que estuda o universo em larga escala e faz perguntas como “‘o que é energia e matéria escura” e “como o universo se comporta”.

Acredito que algumas dessas perguntas poderão ser respondidas com o Wfirst.

Como surgiu o seu interesse em cosmologia? 

Eu sempre gostei de ciência. Aos 7 anos, eu viajava para o sítio do meu padrasto. Lá, eu via o céu e ouvia histórias sobre o sistema solar e os planetas contadas pelos meus avós.

Minha mãe também me deu muito apoio e foi determinante na minha carreira e na minha transição. Eu também colecionava reportagens de astronomia.

O sonho de ser astrofísica e de ser mulher sempre fez parte da minha identidade. Hoje sou uma pessoa realizada, pois acho que estou conseguindo realizar ambos os desejos, mas, naquela época, eles pareciam inconciliáveis.

Eu não sei exatamente quando esses sonhos surgiram, mas aos 6 anos eu já tinha certeza do que eu queria ser e fazer.

Ser apresentada como a única brasileira transexual em um projeto da Nasa a incomoda? 

Eu não tenho como afirmar que sou a única transexual em qualquer projeto da Nasa – existem centenas de projetos. Minha afirmação sempre foi que, na lista original de 2016 dos coinvestigadores do WFirst, não vi brasileiros.

Se tiver, ótimo, só aumenta o orgulho. Se não tiver, vamos aumentar, então, nossa internacionalização.

Ser mulher transexual na academia é uma responsabilidade e um peso imenso. Eu sinto que meu possível fracasso é o fracasso de todas as minhas irmãs de vida (outras mulheres trans) e que muitos apontarão o dedo caso eu decida fazer outra coisa na vida.

É como se a minha culpa fosse coletiva. Eu conheço apenas duas outras brasileiras físicas que também são mulheres transexuais. É muito pouco.

A academia tem que estar mais aberta à diversidade, e eu acho até inacreditável ter que enfatizar que mesmo a presença de mulheres ainda é minoritária.

Em alguns institutos de física brasileiros, a relação de gêneros é de em torno 8 para 1, às vezes 9 para 1.

Ser cientista transgênero sempre foi “natural” na sua trajetória profissional? 

Eu iniciei a transição apenas ao final do doutorado. A academia é, ainda, um lugar conservador, que exige dedicação absoluta e remunera bem pouco.

Essa combinação explosiva torna uma transição de gênero quase impossível. Nos EUA, senti uma abertura maior.

Além disso, as universidades oferecem excelentes planos de saúde, sem custo adicional, para cobrir despesas médicas.

Existe também uma separação maior entre o âmbito profissional e o privado que auxilia muito. Dito isso, tenho que admitir que observei avanços notáveis na forma como sou tratada no Brasil.

O ambiente hoje na ciência ainda é predominantemente masculino? 

No Brasil, a física teórica é assustadoramente feita na sua grande maioria por homens cisgêneros.

Nos EUA o problema de gênero também existe, mas há incentivos para melhorar essa questão. Institutos de física nos EUA levam em conta a disparidade de gênero de sua composição na hora de selecionar novos profissionais.

Na sua vivência, quais as principais diferenças entre ser pesquisadora nos EUA e no Brasil? 

A primeira diferença fundamental é a questão do financiamento. Os EUA investem aproximadamente US$ 150 bilhões em pesquisa científica civil por ano.

O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI) no Brasil tem uma verba de custeio de um pouco mais de US$ 1 bilhão e, todo ano, essa verba sofre contingenciamento. Como competir?

Nos EUA, tenho acesso a um supercomputador da Nasa que custou dezenas de milhões de dólares para ser construído. Além disso, tenho acesso a supercomputadores locais, máquinas que me fornecem um poder de processamento que é quase impossível de obter no Brasil.

Os EUA também gastam centenas de milhões de dólares em construção e manutenção de telescópios por ano. No Brasil, fomos expulsos da ESO – agência europeia – porque não pagamos um terço de US$ 1 bilhão ao longo de dez anos.

Depois vem a parte burocrática, incluindo a questão de importação. É bastante insano esse sistema, mas ao mesmo tempo sabemos o que tem que ser feito para melhorá-lo.

Por último, existe a questão da internacionalização: precisamos encontrar mecanismos para que nossas universidades públicas possam receber alunos e professores de todos os lugares do mundo em grande quantidade. O fluxo de mentes é essencial.

Recentemente a senhora recebeu o prêmio Leona Woods. O que significou e como isso pode contribuir para a inclusão de diversidades na ciência?

O prêmio Leona Woods é concedido a cientistas jovens com até sete anos de carreira após o doutorado. Para mim, foi mais uma prova de que ser LGBT+ (principalmente a letra T) e realizar seus sonhos não são caminhos impossíveis.

Fiquei muito emocionada e vi toda a minha trajetória passar pelos meus olhos. Porém, o meu exemplo não nos pode deixar relaxar na luta por direitos iguais, principalmente para as pessoas LGBT+ que se assumem ainda cedo na vida e na carreira.

Eu sonho que a próxima geração não precise esperar até o fim do doutorado para sair do armário e fazer astrofísica.

Fonte: Agencia Brasil