Há pelo menos seis anos, a aposentada Marita Vieira, 58 anos, mantém contas ativas em sites de comércio eletrônico. É por lá que ela faz o aluguel do imóvel do qual é proprietária. Dentre diversas experiências positivas, na última terça-feira, ela foi vítima de um golpe. Ao contratar um plano que daria mais visibilidade ao seu anúncio através da OLX, ela recebeu uma mensagem, supostamente da empresa, solicitando que ela enviasse um código de seis dígitos encaminhado para ela através de SMS. Foi aí que o golpe começou.

O código eram vários números enviados pelo WhatsApp. Uma vez digitado, outro aparelho passou a ter acesso à conta dela. Marita perdeu o acesso ao app imediatamente. No lugar dela, um estranho passou a ter acesso às conversas, contatos e todas as informações. O estrago foi ainda maior: o estelionatário que se passou por ela pediu dinheiro a amigos e parentes. Uma amiga transferiu R$   1.590 para um terceiro. 

Marita e a amiga não foram as únicas a sofrer com o golpe. A mesma fraude tem ocorrido também em anúncios de outras empresas como WebMotors, ZapImóveis e Mercado Livre. Com o engenheiro ambiental Lucas Costa, 36, ocorreu da mesma forma. Em maio, ele anunciou um carro na OLX e recebeu a mesma mensagem. O celular dele foi sequestrado por sete dias. Um amigo transferiu R$ 850 ao estelionatário.

Além de receber as mesmas mensagens, ambos os casos terminaram com depósitos em contas de pessoas do estado de São Paulo, que rapidamente retiram a quantia.

Investigações
Na Bahia, diversas delegacias registraram ocorrências de vítimas. De acordo com o delegado Delmar Bittencourt, do Departamento de Crimes Contra o Patrimônio (DCCP), episódios foram mais frequentes nos últimos dois meses – maio e junho. Agora, o número está diminuindo.

Até agora, ninguém foi preso na Bahia. A Polícia Civil não identificou quadrilhas com base no estado, já que as contas dos estelionatários que aplicam golpes aqui são de São Paulo e do Maranhão.

“Os crimes são cometidos geralmente a distância e, na maioria das vezes, quem está praticando o crime não está na Bahia. Nós sempre encaminhamos os boletins de ocorrência para os estados de origem e as polícias Civil do país já possuem algumas quadrilhas que estão sendo monitoradas e sendo investigadas”, diz o delegado.

A aposentada Marita Vieira, 58 anos, foi vítima do golpe ao fazer um anúncio no site OLX
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Marita Vieira e Lucas Costa registraram queixa da fraude imediatamente na polícia – na 14ª Delegacia (Barra) e na 26ª (Abrantes), respectivamente. Os casos estão sendo investigados. De acordo com o delegado Delmar Bittencourt, as delegacias da capital e do interior estão sendo orientadas a como agir. 

Em nota, a OLX informou que “a atividade da empresa consiste na disponibilização de espaço para que as pessoas possam anunciar e encontrar produtos e serviços de forma rápida e simples” e que, nesse caso, os Termos e Condições e Uso não foram respeitados.

“Toda negociação é realizada fora do ambiente do site, e a empresa não faz a intermediação ou participa de qualquer forma das transações que são feitas diretamente entre os usuários”, diz a nota. A OLX acrescentou que envia mensagens esclarecendo que a solicitação de códigos de confirmação não é uma prática da empresa.

Modus operandi
Há um alerta para o modus operandi dos estelionatários. O pedido do dinheiro foi convincente. No caso de Marita Vieira, a amiga recebeu uma mensagem afirmando que ela precisava pagar o Pilates e o cartão não estava passando. A informação de que a aposentada praticava a atividade foi conseguida através de um grupo que Marita fazia parte.

O mesmo aconteceu com Lucas. Ele faz parte de grupos de off road – prática esportiva com carros. O amigo de Lucas que fez a transferência recebeu uma mensagem avisando que ele estava na oficina e o cartão não tinha passado. 

“O autor do crime vai solicitar dinheiro de conhecidos. É bom orientar que as pessoas tenham um cuidado maior antes de transferir. Se a pessoa cria dificuldade, eles não vão insistir”, orienta o delegado.

‘Já caiu, mano?’
Na semana passada, Lucas recebeu uma ligação de uma pessoa se passando pela OLX informando que iria mandar uma mensagem com uma senha de seis dígitos para validar o anúncio. Ele logo percebeu o golpe e questionou o criminoso. “Você já caiu? Então valeu, mano”, disse a pessoa do outro lado da linha.

Para além do prejuízo financeiro, as vítimas falam em impacto emocional. A aposentada conta que chorou e que sentiu como se ela mesma estivesse sendo sequestrada. Ela precisou de remédios para dormir após o golpe. 

Quando me ligaram e falaram que isso estava acontecendo, eu comecei a chorar e fiquei desesperada. Fiquei muito triste e ainda estou muito abalada. E o ruim é o julgamento. Me perguntam: ‘Nossa como você caiu nisso?’. Mas foi tudo muito bem arquitetado”, lamenta.

O golpe alcançou até mesmo o ex-presidente da OAB-BA e vice-presidente da OAB, Luiz Viana, no ano passado. No caso dele, todo o chip foi sequestrado. A defesa de Luiz Viana, que acionou a Justiça, acredita que tenham magnetizado o chip dele e baixado os dados pessoais.

“Após o sequestro da conta, os estelionatários, com acesso aos contatos e grupos, pediam depósito em conta. Na época, alguns diretores e presidentes de subseções e presidentes de outros estados sofreram o sequestro. Saímos retirando ele dos grupos e colocando avisos. Mas fizeram estrago”, afirmou a advogada de Luiz Viana, Tamíride Monteiro Leite.

Operadora de telefonia e administrador do WhatsApp podem ser acionados
O presidente da Comissão de Proteção ao Direito do Consumidor da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Bahia (OAB-BA), Matheus Nogueira, orienta que os lesados buscem a reparação de danos na Justiça contra a operadora do telefone e a administradora do WhatsApp – no caso o Facebook.

Nogueira explica que tanto a operadora como o administrador do WhatsApp respondem objetivamente na ação, ou seja, independente de culpa, tem o dever de reparar o consumidor.

“A pessoa tem que procurar a operadora para que o serviço seja restabelecido, além do próprio WhatsApp, porque o que acontece é a captura do serviço de mensagem por conta do código que ela recebe”, explica.

O advogado destaca ainda que as pessoas que tiverem algum tipo de prejuízo por trabalhar com a ferramenta podem pedir indenização também por isso.

“A pessoa utiliza do serviço de mensagem para o trabalho e não consegue trabalhar por conta disso. As empresas devem indenizar essa perda”, diz.

Em maio deste ano, o Facebook e a Vivo foram condenados a indenizar o vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Luiz Viana, em R$ 4 mil por danos morais por um golpe.

“Apesar da sentença procedente, os juizados ainda continuam a ‘passar a mão na cabeça’ de grandes empresas e não encorajam a uma indenização alta com fins efetivamente pedagógicos. Não se tem o tamanho da devassidão que foi feito com os dados pessoais, prejuízos de forma onerosa para quem caiu no golpe, falta de assistência do aplicativo WhatsApp”, afirmou a advogada Tamíride Monteiro Leite.

O WhatsApp foi procurado, mas não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

Confira dicas da Safernet para fazer comprar e vender online com segurança:

1. Pesquise
Conheça com quem está negociando. Faça uma busca nas redes e nos sites de compras de comentários sobre o produto e a empresa.

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Evite entrar nas lojas através de propagandas por e-mail ou links indiretos. Ficou animado com a promoção? Digite o nome da loja no navegador e procure o produto para conferir se realmente existe a oferta.

3. Tenha privacidade
Evite comprar de computadores ou dispositivos compartilhados com estranhos (ex: Lan House, Computador coletivo da empresa ou escola).

4. Segurança
Ao entrar no site da loja, confira se a página é criptografada – identificada pela presença do ‘S’ no ‘HTTP’, o https://.- Se estiver usando sua rede Wi-Fi, confira se é criptografada com WPA2. Evite comprar ou acessar o banco por redes públicas e abertas de Wi-Fi, pode ser muito fácil roubar seus dados.

5. Seja discreto
Nos cadastros, compartilhe o mínimo necessário os dados. Revele apenas os campos obrigatórios e use senhas seguras.

6. Guarde o comprovante
Salve sempre os comprovantes da compra com o Protocolo da transação e detalhamento do preço e produto.

7. Use sites seguros
Para acessar as contas de bancos, use o endereço específico para instituições cadastradas no Banco Central: www.nomedobanco.com.br  Apenas Bancos oficiais podem usar este endereço e isso evita falsos sites.

8. Apague a memória
Evite deixar seus dados bancários salvos nos navegadores ou no próprio site de compra.

9. Seus direitos
Como em qualquer outra transação fora da Internet, os Direitos dos Consumidores valem na rede sempre para empresa com escritório no Brasil.

10. Fora do país
Para comprar em sites internacionais, confira antes a reputação deles e a experiência de outros brasileiros nas compras. 

*Colaborou Gil Santos

Fonte: Correio