Até 1998, quem ia de avião para Hong Kong tinha que passar pelo lendário Aeroporto de Kai Tak, que já chegou a ser considerado o mais perigoso do mundo por conta de algumas peculiaridades. Dentre elas, o chamado vento de través que atuava sob o terminal, sempre gerando pousos e decolagens com altas doses de adrenalina. Mas, principalmente, pelo fato de que para aterrissar em sua pista, os aviões passavam próximos aos prédios do território autônomo chinês.

Foi justamente por Kai Tak que Rita Lan Kwai Hing embarcou para o Brasil, aos 10 anos. Alguns anos após chegar em Minas Gerais, ela conheceu Amintas Goulart e os dois se casaram. Paula Lan Goulart, 28, é fruto deste amor intercontinental e hoje é a responsável pelas obras de reposicionamento das cabeceiras da pista principal de outro aeroporto, o de Salvador.

Antes de chegar em solo baiano, no entanto, a trajetória da engenheira mineira não foi fácil. Tal qual o exemplo da mãe, para se encontrar com o seu destino, Paula teve de cruzar uma fronteira tão grande e profunda quanto o oceano que separava Rita de Amintas: o machismo.

“Na minha sala da faculdade, 95% dos estudantes eram homens. O campo de trabalho também era bastante machista. Quando comecei a estagiar, sempre ouvia piadinhas e cantadas. Diziam que eu só estava ali por estar dormindo com o patrão, ou porque era bonitinha, ou por cotas para mulheres. Era horrível, pois me reconheciam apenas por um estereótipo preconceituoso e não pelo meu trabalho”, lembra.

Apesar das dificuldades, Paula jamais abaixou a cabeça. Se quando era estagiária precisou conversar com seus superiores para evitar as “brincadeirinhas”, hoje ela é a própria chefe. Comandando as obras de requalificação da pista do Aeroporto Internacional de Salvador, ela está à frente de uma equipe de cerca de 300 pessoas, sendo 95% homens – a mesma proporção na sua sala quando estudava. 

“Não podemos nos intimidar e, sim, demarcar o nosso lugar. Aqui, por exemplo, nunca duvidaram da minha capacidade ou fizeram piadinhas. Eu também amadureci bastante e hoje sou bem braba”, brinca. 

Apesar de trabalhar na parte de gestão e planejamento, a engenheira não tem medo de colocar a mão na massa. “Sempre que precisa, opero as máquinas, faço as obras. Tem frescura não”.

Paula mostra asfalto com seu nome gravado (Foto: Thiago Del Rey/Divulgação)

Paixão por asfalto 

Para muitos, engenharia civil é sinônimo de grandes obras e prédios altos, mas este gigantismo nunca atraiu Paula. Tal qual os aviões em Kai Tak, ela driblou os arranha-céus e se encontrou nas pistas e, como boa mineira, as transformou em seu ouro preto.

“Não consigo entender o amor das pessoas por grandes estruturas. Eu prefiro o asfalto. Na minha mesa tenho vários exemplares. Inclusive um muito especial, que ganhei de presente com meu nome entalhado nele”.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Glasgow, na Escócia, diz que o escocês possui quase 400 palavras para descrever os mais diferentes tipos de neve. A mineira possui uma relação similar com o asfalto. “Consigo ver perfeitamente a diferença entre os tipos. Se tem um tipo de material diferente ou uma pedra fora do lugar”, conta.

Apesar da paixão incomum, Paula não está “na pista”. Casada com o também engenheiro Henrique, ela tem o desafio de unir o casório com uma rotina de trabalho desgastante. Para não atrapalhar o fluxo de aviões, as obras de requalificação da pista precisam ser realizadas de madrugada.

“Mas quando se ama, não há dificuldade que não possa ser superada. Na verdade, quem sofre mais é o meu cachorro. O bichinho não sabe que horas a mamãe dele estará em casa, quando o levarei para passear”, brinca.

Engenheira comanda equipe responsável pela obra da pista principal do aeroporto de Salvador (Foto: Thiago Del Rey/Divulgação)

“É difícil trabalhar de madrugada, mas ao mesmo tempo muito gratificante. Neste horário é bom que não tem ninguém ligando, atrapalhando, e posso me concentrar no trabalho. Ao mesmo tempo, quando uma máquina ou peça precisa de algum material, não tem jeito de conseguir. Entretanto, a melhor coisa é poder ver o sol nascer da pista. É muito lindo”, completa.

Outra situação com a qual a mineira precisou se acostumar, essa sem a menor dificuldade, foi a mudança para Salvador. Morando aqui desde 2018, ela já se considera uma ‘baianeira’. “Sou hoje a mineira mais baiana que alguém pode conhecer. Amo o clima daqui, as pessoas, as comidas. Ganhei até uns quilinhos”, diverte-se.

*Com orientação da Chefe de Reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio