Ficar de boa na lagoa, em Baixio, é algo que acontece literalmente. As lagoas Azul, Verde e da Panela botaram no mapa esse distrito de Esplanada que fica a 164 km de Salvador via Linha Verde, que está um tapete. A construção de um hotel Fasano, a entrega, ainda este ano, de um condomínio de luxo e o anúncio de investimentos de mais de R$ 400 milhões apontam que o local tem tudo para se consolidar próximo destino badalado do Litoral Norte.

Enquanto a ‘praiadofortização’ não chega, com franquias de moda balneário e lojas de iogurte frozen, ainda dá para encontrar verdadeiros tesouros nativos. É o caso do luau na beira do rio, da moqueca servida na varanda da casa de dona Bia, do banho na represa, das artes em piaçava de seu Cadinho e até da benção de dona Roxa, que tem mais de 50 anos de rezadeira.

A Lagoa Verde foi a mais legal que conheci em Baixio: águas clarinhas e mornas (Foto: Victor Villarpando)

As lagoas

Dá para conhecer três lagoas na área particular da Baixio Turismo (75 3413-3106): a Verde, a da Panela e a Azul. A primeira foi a que mais me impressionou: águas realmente transparentes e quentinhas. Quem entra consegue ver os próprios pés e quem senta no raso tem os pés mordiscados pelos peixinhos, no melhor estilo quiosque de shopping. A da Panela é visitada junto com a Verde. Mas a cor me impressionou bem menos. Talvez por isso, a proposta lá seja outra: tem caiaque, pedalinho e stand up paddle. Só é possível acessá-las comprando o passeio na Pousada Aldeola, na orla do povoado. O rolé de 3 horas custa R$ 110 por pessoa no carro (4×4) deles e conta também com uma parada num mirante no meio das dunas, com vista sensacional.

A Lagoa Azul, que hoje tem essa cor, também é agradável (Foto: Victor Villarpando)

A azul, que atualmente tem águas amareladas, também é interessante. Ela deixou de ter a cor pela qual ficou famosa há alguns anos por conta da seca, que também reduziu bastante o volume de água, de acordo com o guia que nos levou até lá. Parece uma piscinona de cerveja. A vantagem é que não precisa de carro para chegar: a caminhada de 1,7 km é quase plana. A ida, também vendida na Pousada, custa R$ 40 por pessoa. Se você tiver sorte, ainda belisca umas mangabas pelo caminho. A lagoa oferece gratuitamente pranchas de stand up paddle e caiaques.

Vista do mirante que fica perto das lagoas Verde e da Panela (Foto: Victor Villarpando)

A praia

Não é especialmente bonita nem das mais tranquilas. Se você curtir, pode beliscar na barraca Praia do Baixio (75 99876-4687), onde a cerveja vai de R$ 6 (Nova Schin) a R$ 13 (Heineken), enquanto um camarão ao alho e óleo com farofa e salada sai a R$ 35 e um caranguejo sai a R$ 5.

A Barra do Rio Inhambupe é point de banhistas em Baixio (Foto: Victor Villarpando)

O point de banho mais bombado, no entanto é no encontro do rio Inhambupe com o mar. Na área tem barracas, como a Barra do Sol, que vende cerveja gelada por R$ 7 (Nova Schin), R$ 8 (Skol, Itaipava e Devassa) e R$ 15 (Heineken). Um caldo vai de R$ 8 a R$ 10, uma porção de pititinga é R$ 30 e os peixes inteiros variam entre R$ 25 e R$ 50, a depender do peso. No Verão tem luau; se estiver lá, procure saber. A entrada para a Barra fica na BA 400, perto do condomínio Ponta de Inhambupe. Tem uma placa escrito Linha Verde a 7,6 km.

A praia de Baixio (Foto: Victor Villarpando)

Barragem

Uma cachoeirinha e uma piscininha natural formadas por duas pequenas barragens são as atrações principais do Recanto das Águas, pequeno sítio à beira da estrada no povoado de Corte Grande (cerca de 1 km depois de passar direto pela subida que leva de volta a Salvador). O lugar é pura tranquilidade. Dá para ouvir passarinhos cantando. A água é refrescante na medida: fria, mas não tanto como as da Chapada Diamantina. Para quem vai com crianças, um alento: a profundidade máxima é de 1,20m.

O Recanto das águas: represa com pequena cachoeira (Foto: Victor Villarpando)

A entrada custa R$ 10 por carro. Nos fins de semana e feriados uma pessoa fica no portão controlando o acesso. Para visitar durante a semana, é preciso ligar para Paulo Henrique (75 99986-8198) ou bater na casinha azul que fica depois do portão, devidamente sinalizado por placas em que se lê Barragem.

O Recanto das águas é lugar para relaxar (Foto: Victor Villarpando)

A família que há gerações é dona da propriedade margeada pelo rio vende porções de moqueca (R$ 12 o prato-feito) e petiscos como passarinha ou pastel. Mas tem também galinha caipira com arroz e pirão (R$ 120, serve até 6 pessoas). Tudo feito no fogão à lenha. Como são evangélicos, não vendem bebidas alcóolicas. Mas nos fins de semana deixam vendedores de cerveja entrar.

Peixe fresco na varanda

A moqueca de Dona Bia é de lamber os beiços (Foto: Victor Villarpando)

Bia Conceição, 49, era dona de casa e cuidava da Peixaria do Heri, seu marido, quando ele saia para pescar. Há cerca de um ano, descobriu um novo trabalho, o de cozinheira. E de mão cheia. A mariscada, superbem temperada, mistura o que o marido tiver trazido do mar: siri, caranguejo, chumbinho, ostra, polvo, camarão, lagosta, peixe… O pirão, saboroso, é molinho sem ser molengo. Até a salada ela consegue botar especial, com biribiri entre as fatias de tomate e cebola.

“Um cliente veio comprar peixe e perguntou se eu não topava preparar uma moqueca para ele e os colegas de trabalho numa sexta-feira. Agora eles voltam toda semana. Fiz até uma placa do restaurante”, conta Bia.

A casa de Dona Bia: almoço com sabor e simplicidade (Foto: Victor Villarpando)

O melhor de tudo é saborear essas maravilhas na varanda da casa dela, numa mesona de madeira rústica, sentindo o vento. E se ela for com sua cara, oferece até uma rede pra pendurar lá.

Sai a R$ 30 por pessoa, já com a Coca-cola ou com um suquinho da fruta da época. Agora trate de ligar antes pra reservar sua mesa e dizer o que vai querer comer: ela só atende assim. Quem quiser levar para casa frutos do mar congelados, também encontra lá: o quilo do sururu é R$ 25, o do aratu é R$ 40 e o do camarão varia entre R$ 35 e R$ 100. Só em dinheiro. Tel.: 75 99907-1400. Fica na BA 400; no sentido Baixio-Salvador, fica à esquerda. É uma casa amarela perto da Cooperativa de coco.

Olha que fofa a varanda de Dona Bia: o lugar é bem ventilado (Foto: Victor Villarpando)

Rezadeira

Ninguém conhece Amanda Barbosa Neres. Mas pergunte por Dona Roxa, 79, que não tem quem não saiba. Há mais de 50 anos ela acolhe pessoas que chegam com queixas diversas: “Vem gente caída, doente, de olhado, de quebranto, de inveja, de usura, de nervoso, de estressado (sic)”, conta ela. Dona Roxa, que nasceu num dia 2 de fevereiro, diz que não tem ideia de como surgiu o apelido, mas lembra bem de como começou a vida de rezadeira. “Tive sonhos em três noites seguidas. Em cada sonho, veio uma pessoa falar comigo. Uma de azul, uma de rosa e outra de branco. Me ensinaram a fazer reza”, relembra.

Dona Roxa é rezadeira há mais de 50 anos (Foto: Victor Villarpando)

Na casa em que mora desde os 9 anos, ela recebe quem aparece, não tem tempo ruim. E não chegam pessoas só de Esplanada não. “Vêm de São Paulo, Rio, Aracaju, Brasília… Deus ajuda e elas melhoram com a fé”, afirma. As ervas, Dona Roxa pede para uma das netas pegar no jardim, na hora. De folhas na mão, ela começa a trabalhar. Em cima de uma cadeira de rodas há quatro anos por causa da amputação da perna direita, ela me benzeu da cabeça aos pés – e eu tenho 1,80m. “(ser cadeirante) não me atrapalha em nada! Até casar, se eu achasse um marido, eu queria, meu filho”, diz ela, rindo um bocado.

Depois da benção, Dona Roxa pode ainda receitar um banho de ervas, mas isso varia de acordo com a situação da pessoa. “Não roubo nada, não peço nada, (a pessoa) me dá se quiser”. Quem quiser garantir que não vai dar viagem de balde, pode ligar pra perguntar se ela está em casa. Mas ligue, viu? Porque zap ela não enxerga: 75 99822-5693.

Para chegar lá: saindo de Baixio, ao invés de virar à esquerda para ir a Salvador, siga e passe debaixo do viaduto. Cerca de 1km depois, vai ver uma placa azul escrito Povoado Corte Grande. Suba a ladeirinha de terra logo antes da placa. A casinha verde cana à esquerda é a dela.

Móveis

Mandala feita por Seu Cardinho (Foto: Victor Villarpando)

Se você curte decoração rústica, passe na casa de Seu Cardinho, 72, assim que chegar. Isso porque ele só trabalha sob encomenda e demora cerca de três dias para fazer uma peça pequena/média. Fica na Rua da Úna, sem número. Mas pode perguntar, que todo mundo conhece um dos mais antigos moradores da área. Tem faqueiro (R$ 100 um grande, mas ele faz menores), cúpula de abajour, cesta, mandala (R$ 50 com quase um metro de raio), estante… Paga-se metade na encomenda e a outra metade na entrega. Só em dinheiro.

Seu Cardinho se empolga quando pega a viola (Foto: Victor Villarpando)

“Comecei fazendo ‘covo’ de pegar camarão aos 7 anos de idade. Fazia para mim e para os outros pescadores. Fui pescador por 40 anos. E os móveis, comecei a fazer tem uns 30 anos”, conta seu Cardinho. Ele diz que pega a matéria-prima, galhos de piaçaba, na mata, de maneira sustentável. “Não derrubo a árvore. Só tiro umas partes e deixo ela em pé. E só em noite que é escura, na lua nova”, afirma. Se você der sorte, chega lá quando ele estiver tocando bandolim.

Como chegar

De Salvador para Baixio são cerca de 150 km pela Estrada do Coco – Linha Verde, BA-99 (direção Aracaju). A entrada para o povoado fica no km 121.

De carro

É mais ou menos meia hora depois da Costa do Sauipe. Da redação do CORREIO, que fica na Rede Bahia, na Federação, até lá foram cerca de 2h30 de carro. O pedágio custa R$ 6,60 em dias úteis e R$ 10 em fins de semana e feriados.

De ônibus

A viação Lins tem ônibus para lá. Cada trecho custa R$ 36. Horários da rodoviária de Salvador para Baixio: 5h30, 6h, 8h30, 14h, 16h, 17h. Horários da praça de Baixio para a rodoviária de Salvador: 6h, 9h, 11h30, 14h, 15h30 e 18h.

Onde ficar

A Pousada Aldeola é simples, mas bem confortável. Fica na beira da praia e conta com café da manhã. De abril a junho e de agosto a dezembro, a diária varia entre R$ 196 e R$ 431 de domingo e sexta feira. No sábado, aumenta 25%. Se você tiver sorte, ainda leva para casa alguns vegetais orgânicos da horta que abastece o hotel. O restaurante é ótimo: a moqueca de camarão com banana da terra, mais três acompanhamentos (escolhi pirão, farofa e feijão fradinho), custa R$ 99. Que sabor e que pirão! No menu dizia que dava para duas pessoas, mas de tão bem servido três comeriam de boa. Delícia!

A Pousada Aldeola tem uma moqueca de camarão que é sensacional e superbem servida (Foto: Victor Villarpando)

A Pousada Angá – uma das poucas (talvez a única) da vila a ter piscina de azulejos e não de fibra – tem diária de R$ 199,50, com café da manhã. No Airbnb, uma casa para até seis hóspedes, na rua principal do povoado, com 3 suítes, 4 camas e um lavabo tem diária entre R$ 330 e R$ 530.

Acomodações da Aldeola: sem luxos, com confortável e ótima localização (Foto: Victor Villarpando)

*Agradecimentos: à engenheira agrônoma Daiara Paranhos e à Pousada Aldeola.

Fonte: Correio