Vinte e seis textos, 180 dias e muitos cliques, compartilhamentos e curtidas após o lançamento, a coluna Baianidades, do CORREIO, ganhou uma nova forma de narrativa neste domingo (18). Da mesma forma baiana de ser, a coluna agora ganhará a oratória com uma versão ao vivo, o Baianidades Entrevista, que será realizada mensalmente, com uma série de entrevistas e mesas-redondas para discutir temas relacionados à Bahia no bar e restaurante Velho Espanha, nos Barris.

O primeiro entrevistado foi um velho conhecido da coluna e dos ouvidos dos baianos: Kêu Salvador, que se define como “o dono dos áudios mais famosos da Bahia”. Cleiton Oliveira Salvador, 31 anos, morador do bairro da Caixa D’Água, tarólogo e agora influenciador digital, foi personagem de um dos textos da coluna divulgado no mês de abril deste ano explicando o porquê dele ter se tornado “a pessoa mais procurada de Salvador”.

Foi através de áudios bem humorados, desaforados e “sincerões” que o soteropolitano ganhou fama na internet. Ele conta que os áudios começaram quando ele se envolveu em uma briga “sem querer” e mandou um áudio bem sincero em um grupo do aplicativo de mensagens WhatsApp contando o que tinha acontecido (veja mais na entrevista abaixo).

Versão ao vivo e a cores da coluna Baianidades foi lançada neste domingo (18) no bar Velho Espanha (Foto: Mauro Akin Assor / CORREIO)

“Menina, o áudio viralizou. Eu contei de uma forma engraçada e as pessoas começaram a rir. Eu mandei o áudio de tarde e quando foi de noite tinha muita gente falando comigo perguntando se a voz era minha, se o caso tinha acontecido mesmo e as pessoas começaram a enviar a minha foto”, contou.

Vendo a potencialidade que a sua fala tinha, com um toque especial da baianidade, Kêu enviou um segundo áudio cobrando uma amiga caloteira. Ele conta que aproveitou a situação para enviar o áudio para a mulher e também para toda a lista dos amigos. Depois daí, as próprias pessoas começaram a cobrar que o tarólogo começasse a fazer vídeos em vez de áudios – e aí surgiu a versão dos áudios para as redes sociais através de vídeos.

Na primeira edição, o tarólogo Kêu começou tímido, bem diferente do jeito que aparece nos áudios, mas logo se soltou e mostrou para o que veio: “eu gosto mesmo é de falar de homem, meu bem”, brincou. 

Tarólogo foi primeiro convidado do Baianidades Entrevista (Foto: Mauro Akin Assor / CORREIO)

Toda a história do sucesso de Kêu e dos bastidores por trás dos áudios foram debatidos durante o primeiro Baianidades Entrevista, promovido pelos jornalistas André Uzêda e João Gabriel Galdea, autores da coluna.

“São 26 semanas desde o lançamento da coluna, em fevereiro. Hoje, portanto, completam seis meses do lançamento do projeto, aqui no Velho Espanha, e como deu certo, com os textos sempre repercutindo bem e pintando entre os mais lidos, decidimos dar esse passo adiante e lançar essa versão ao vivo, que tem como objetivo nos aproximar do público leitor e, principalmente, aproximar esse público das personagens que temos apresentado ou homenageado”, explicou João Gabriel Galdea.

André Uzêda explica que a ideia do Baianidades Entrevista surgiu dos proprietários do Espanha, que pensaram no formato e convidaram os jornalistas para fazer a coluna ao vivo no bar.

“Eles convidaram a gente para trazer um pouco do que a gente faz nos textos, que é falar da Bahia de um jeito bem humorado e com histórias, para um formato de entrevista no bar, ao vivo e a gente gostou muito dessa ideia e fechou”, contou André.

O jornalista acredita que o sucesso da coluna vêm por conta da forma com que os textos são escritos, fugindo do estereótipo da baianidade soteropolitana e do Recôncavo. “Nós trazemos curiosidades fugindo dessa imagem comum. Falamos também do interior, de Salvador com olhar crítico mas também de quem é apaixonado pela cidade”, disse.

O empresário Arthur Daltro, um dos proprietários do Velho Espanha, contou que a proximidade com os jornalistas começou com André Uzêda, que morava nos Barris e fez um texto sobre o ressurgimento do Bar Espanha, que tem 100 anos.

“Tem uma aproximação muito grande entre a coluna, entre a ideia de Baianidades e o Espanha, que é um bar bairrista, que fala do Centro de Salvador, que afirma o Centro desde o nome dos pratos e as inscrições nas paredes, para reafirmar essa ideia de baianidades e receber a coluna, ampliando os textos com essa ideia da malemolência, do jeito baiano. E amplia porque são diferentes narrativas que a oratória proporciona e trazer essa ideia de um convidado também só agrega”, disse. 

O Baianidades Entrevista ocorrerá mensalmente de forma gratuita no Bar Velho Espanha e ainda não tem seu segundo convidado definido. Os jornalistas, no entanto, garantem que sempre serão pessoas relacionadas à Bahia. A proposta é discutir a baianidade em seus aspectos social, cultural e histórico, além de questões que envolvem linguagem e comportamento.

Confira entrevista com Kêu Salvador:

O que há de mais genuinamente baiano nos áudios de Kêu?
O áudio em si é genuinamente baiano, né? A minha expressão, o meu jeito de falar, carregado de baianês, as gírias, a utilização de palavras que têm a ver com o culto do candomblé – e quando eu comecei a usar eu nem sabia que tinha a ver com candomblé, né? Inicialmente eram dialetos do público LGBT -, mas o áudio em si é genuinamente baiano porque tem bom humor, criatividade, é despojado, é sarcástico, vem com o humor ácido. Fala a verdade de uma maneira que as pessoas queriam falar mas elas não têm coragem. Então o áudio em si é genuinamente baiano, tá gato?

Seria possível Kêu sem Salvador? Seria possível uma personagem como você se fosse em São Paulo?
Menino, que pergunta interessante você me fez agora. Eu não faço ideia. Seria possível se São Paulo ou Rio. Engraçado que há uma coincidência aí porque eu nasci em Salvador e o meu sobrenome também é Salvador, está registrado. E quem quiser ver, achar que é mentira minha, eu empresto o meu RG, mas seria possível. Mas hoje eu agradeço a Deus, à espiritualidade, que ordenou que eu nascesse em Salvador, Bahia, e que eu viesse desse jeito carregado de baianês para fazer esse povo rir, descontrair. Sobretudo nesse momento político, econômico, social que a gente está. Um verdadeiro caos, uma maluquice e a gente vê uma oportunidade de dar risada.

Qual a repercussão que a coluna Baianidades teve em sua vida?
Foi muito positivo o meu perfil ter saído na coluna Baianidades do Correio. Até então eu tinha só sete, oito mil seguidores e no outro dia eu amanheci com dez mil e pouco, quase 11 mil. Então a coluna me deu essa visibilidade maior, sobretudo aqui na Bahia, porque a maior parte dos meus seguidores está aqui. Além de amadurecer o meu perfil, porque o Instagram só libera algumas funcionalidades a partir de dez mil seguidores. Então a coluna Baianidades do Correio me deu essa oportunidade de amadurecer um pouco mais esse perfil do Instagram. Inclusive pessoas que não me conheciam, nunca tinham recebido áudios meus, foram me conhecer, visitaram o meu perfil no Instagram depois que saiu na coluna. Então foi muito positivo o que aconteceu e é por isso que eu quero mais. Já fica a dica, viu Correio? Tô aqui, pode me chamar que eu vou bem bonita.

O que o tarô diz sobre o futuro da coluna?
Ah, vamos falar esotericamente agora porque você me perguntou e eu fiz uma leitura simples com o baralho cigano. Nós temos aqui a carta da mulher, da chave e da criança falando de um futuro positivo, especialmente por conta da figura feminina. Então você fique atento porque vai ter uma mulher muito expressiva. Pode ser alguém que faz parte do jornal, da coluna, ou alguma convidada que vem que vai trazer uma visibilidade muito maior, mas eu penso porque está aqui nas cartas, que vai ter uma figura feminina que vai trazer o novo. Novos projetos, coisas que vão crescer. A coluna em si é um grão que tem um potencial de virar uma árvore muito abundante. Eu desejo toda boa sorte do mundo, nós temos aqui cartas bastante positivas. É um jogo bom também porque a ideia é a estrutura da coluna é muito boa e eu só posso desejar boa sorte. 

É possível reproduzir fielmente o que você faz?
É impossível de ser imitado o baianês. Não existe nenhuma outra região, não existe ninguém que consiga imitar o baiano genuinamente, verdadeiramente, com a essência do baiano, sem ser baiano. Algumas pessoas tentam, fazem aquele sotaque mais arrastado, aquela coisa caetanesca, mas o fato é que Bahia é Bahia. Soteropolitano é único. O sotaque é único, a forma de falar é única. O “oxe”, “tá maluco, véi?”, isso é único. Não tem como. Então já fica aqui o aviso, rebanho de bequeiro maluco, se vocês querem colocar personagens baianos nas novelas e nos filmes, a dica é essa: chame um baiano mesmo, viu? Não fique botando gente do Sudeste, do Centro-Oeste para ficar falando “ah, meu rei” porque aqui em Salvador ninguém fala “meu rei”, rebanho de malucos.

Fonte: Correio