A prioridade no primeiro ano de recuperação ambiental do desastre de Mariana era resgatar os rios Gualaxo do Norte e do Carmo, tomados pela lama que sufocou esses importantes afluentes do rio Doce. Para combater a erosão e evitar que o rejeito acumulado na parte externa caísse nas calhas, foram plantados, de forma emergencial, 800 hectares de espécies nativas de rápido crescimento, num trabalho sem precedentes no país.

Não existe um protocolo estabelecido para grandes desastres no Brasil. Por isso, tivemos que desenvolver um rapidamente. De forma estratégica, nos reunimos com governos e pesquisadores de restauração florestal. Não podíamos errar. Por isso, precisávamos cobrir o solo por causa da época da chuva para que não deixasse que a lama voltasse para o rio de novo”, explica o especialista de programas socioambientais da Fundação Renova, Leonardo Silva.

Paralelamente, era preciso refazer o contorno das margens dos rios em uma área de aproximadamente 1.500 hectares. A devastação já se transformou em um cenário de esperança. “Retiramos a lama das calhas, fizemos a reconformação das margens e o plantio de vegetação. São espécies de crescimento rápido e de curta duração, adaptadas para o verão e para o inverno. E realizamos também a contenção de erosão, com sistema de drenagem, colocação de rochas, um procedimento de bioengenharia, com materiais biodegradáveis, como fibra de côco”, detalha Giorgio Peixoto, coordenador de operações agroflorestais da Renova.

Vista aérea de reconformação de margens de tributário desaguando no rio Gualaxo

Foto: Nitro Imagens/Divulgação

Planícies restabelecidas

Nas chamadas planícies de inundação – vizinhança da margem até o ponto mais distante alcançado pelo rio nas cheias – foram refeitos os caminhos da drenagem e a vegetação vem sendo restabelecida. O carreamento de sedimento para o leito do rio chegou a ter eficácia de 90%. Esse trabalho se deu até o fim de 2017. “Hoje estamos fazendo a manutenção desses pontos e, agora, estamos na etapa de plantio de mudas nativas em áreas de preservação permanente (APPs)”, adianta Peixoto.

A expectativa é chegar ao final de 2020 com 600 hectares de mata ciliar com espécies de Mata Atlântica já recuperada. Esse trabalho envolve uma extensão de 113 km de margens de rios. Além das margens, houve a naturalização das áreas atingidas pela lama que excedeu as calhas dos córregos e foi parar nas planícies.

“Quem acompanhou o processo viu a imagem inicial que era aquela área devastada pelos rejeitos. Depois, a imagem era um local já em recuperação, mas ainda uma visão de obras, antropizada. Hoje existem trechos que têm uma paisagem completamente natural”, analisa o diretor de Programas da Fundação Renova, André de Freitas.


Mudas nativas para plantio, fruto da parceria com o Instituto Terra
Foto: Nitro Imagens/Divulgação

Afluentes restaurados

A velocidade da lama que saiu da barragem de Fundão fez com que o volume de rejeitos não só descesse junto à calha dos rios Gualaxo e do Carmo, mas invadisse pequenos afluentes seguindo o fluxo contrário do curso d’água. Ao todo, 113 afluentes praticamente desapareceram debaixo de uma camada de até 4 m de barro.

O trabalho começou com o geoprocessamento para identificar o curso original desses córregos e refazer o trajeto o mais próximo possível do que era antes. Após a recomposição da calha desses afluentes, foi feita a recuperação da mata ciliar.

Para além da devastação da paisagem local, esses pequenos córregos praticamente desapareceram, o que representaria uma redução do volume de água limpa que chega à bacia do rio Doce. Agora, menos de quatro anos depois do desastre, todos os ribeirões estão recuperados. Esse renascimento veio acompanhado de uma reprodução de ambientes naturais propícios à reprodução de peixes que já começa a dar resultados positivos.

Fonte: Agencia Brasil