Livros, simulados, apostilas, grupo de estudos. Pratica a redação, faz contas matemáticas, vê se o inglês está afiado. A lista de atribuições não para, mas em que momento o aluno que está prestes a fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) relaxa e cuida da saúde mental? O assunto é sério, mais importante do que muita gente imagina e envolve não apenas os estudantes, mas toda a família.

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Para a educadora Andrea Ramal, como o Enem mexe com a cabeça de pais e alunos, ter a família como um suporte emocional é fundamental. “Os pais precisam mostrar que confiam no filho, que sabem do esforço dele e que ele merece alcançar seu objetivo. A família deve estar próxima, mas sem interferir nas escolhas profissionais. O que os pais podem fazer é ajudar o filho que está na dúvida de qual profissão seguir”, explica. 

Ela indica ainda que os responsáveis devem ter muito cuidado com a comparação do jovem com irmãos, primos ou amigos, para não gerar frustração e maior carga de estresse no estudante.

A psicóloga Verena Martins explica que o comportamento dos pais pode, inclusive, gerar problemas físicos no aluno. “Já existe esse estresse de conseguir superar concorrência, a insegurança de não saber se o melhor dele será suficiente para um curso. Quando há pressão da família, esse estresse aumenta muito. Muitos deles já sentem necessidade de corresponder às expectativas dos pais e, quando essa cobrança vem de forma explícita, pode gerar até sintomas físicos, como crise de ansiedade, gastrite”. 

A dica, segundo a psicóloga, é apostar no diálogo e compreender que a vida do estudante não deve se resumir apenas aos livros. De acordo com Verena, manter atividades em paralelo ao estudo, como esportes, e buscar um suporte psicológico podem ajudar. 

“Os pais devem entender que o fato do aluno não ficar 24 horas estudando não significa falta de comprometimento. O ideal é que os pais escutem esse jovem, identifiquem o que desencadeou o estresse. Ouvir antes de cobrar ajuda bastante. O responsável deve ter esse papel de apoio, de colaborador”, opina.

Foi justamente o que o estudante Matheus Meira, 18 anos, fez. Ele, que acabou de concluir o Ensino Médio e vai fazer Enem pela primeira vez este ano, decidiu fazer terapia. Um dos motivos foi aprender a lidar com a mudança brusca da realidade da escola e do cursinho.

“Partiu de mim buscar esse apoio. Na escola você convive com amigos, mas no cursinho existe um clima natural de competição. Não sofro pressão dos meus pais, mas do ambiente, e a terapia me ajudou a lidar com esse sentimento. Eu estava passando por muito aperto psicológico, emocional, muito estresse por causa disso tudo”, conta ele, que pensa em cursar Medicina, mas também pensa em Odontologia.

As dúvidas, naturais da idade, não tiram mais o sono do estudante. A terapia, que ele classifica como “um divisor de águas na sua vida”, ainda deu um empurrãozinho para ele voltar a praticar atividade física. Por dica da psicóloga, começou a praticar boxe.

“Me ajuda muito a desestressar, distrair. Eu estava há um tempo sem conseguir estudar, não conseguia fazer redação e me ajuda em tudo. A terapia me ajuda nos estudos e na vida, porque muitos problemas do meu desenvolvimento tinham ligação com questões pessoais”, completou Matheus, que desmistifica o processo. “Não é só ficar sentado falando, falando. Minha terapeuta faz várias atividades, é dinâmico”.

Só que nem todo mundo é como Matheus. Alguns estudantes ficam inseguros, se desesperam e pedem socorro aos seus educadores. O pedagogo Eduardo Valladares, por exemplo, conta que muitos alunos se autodiagnosticam com depressão neste período, o que é arriscado.

“Muitos conversam sobre problemas com pai e mãe, falam de ansiedade que não sabem controlar e alguns até falam que estão com depressão, mas geralmente é um jeito de dizer que está triste e sem dar conta de tantos compromissos, exigências. Eles acabam vendo na gente uma espécie de apoio e em alguns casos indicamos profissionais, porque não somos terapeutas, não temos gabarito para avaliar a saúde mental daquele aluno”, explica.

Em um primeiro momento, Eduardo diz que conversa com o aluno e diz que talvez ele esteja fazendo a famosa tempestade em copo d’água. Segundo ele, adolescente é bastante imediatista e tende a fazer comparações, o que aumenta o ambiente de competitividade e faz com que, muitas vezes, ele tenha uma baixa na autoestima.

Matheus encontrou na terapia e no boxe uma saída para aliviar o estresse antes do Enem
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Remédio? Calma lá…
Depressão é coisa séria e precisa de ajuda médica. Mas é importante lembrar que a doença é diferente de episódios de tristeza ou estresse emocional. A angústia e o alto nível de estresse entre estudantes prestes a iniciar uma nova etapa de vida são absolutamente normais. A psiquiatra Milena Pondé explica e alerta sobre os riscos da busca por medicamentos para lidar com esse período.

“A medicação psiquiátrica deve ser usada para tratar doenças de base endógena, de constituição genética. O estresse causado nessa fase da vida é ambiental e deve-se tratar o ambiente, não jogar remédios no jovem, que terá uma série de efeitos colaterais. Isso só faz abafar o problema, não resolve. Esse estresse se deve a uma sobrecarga de demanda que esses jovens sofrem. Isso já é a primeira doença, que é social. Eles sofrem cobrança excessiva, conteúdo excessivo, exigências absurdas. É uma demanda superior à necessidade e que a maioria das pessoas não suporta”.

Segundo Milena, os principais sinais do alto índice de estresse são insônia, irritabilidade, perda de energia, sentimento de desesperança, de inadequação, de culpa por não cumprir obrigações, piora da concentração, entre outros. Caso o estudante perceba esses sintomas, o ideal é procurar ajuda de um terapeuta. “Não se procura psiquiatra de cara. Somos a última alternativa”, avisa ela, que recebe muitos jovens em seu consultório em busca de medicamentos para ter um melhor desempenho nos estudos.

A médica explica que existem três pontos fundamentais para cuidar da saúde mental nesse período: alimentação, sono e atividade física. Ela indica que os jovens adotem uma alimentação adequada, com o máximo de alimentos naturais e o mínimo de processados.

“Esses alimentos como açúcar, refrigerante, sucos de caixinha, salgadinhos e batata frita, por exemplo, produzem mais estresse oxidativo no cérebro. É como se ele ficasse enferrujado”, explica.

Já movimentar o corpo pode ter efeitos importantíssimos naqueles que estão prostrados ou desanimados com esse ritmo intenso. Milena explica que praticar exercício físico pelo menos três vezes por semana, por mais de 20 minutos, tem efeito semelhante a antidepressivos. “Não trata quadros graves de depressão, claro, mas ajuda muito nessa questão do desânimo, do alto estresse, por causa da produção de endorfina, que gera aumento de energia”.

Outro ponto fundamental, aponta, é uma boa noite de sono. Para isso, é importante impor limite aos horários de estudos, evitar o uso de eletrônicos antes de adormecer e evitar alimentos como café e refrigerantes. “Preservação do sono é importantíssima. Quem dorme mal ou consome cafeína para não dormir gera um déficit nos neutrotransmissores, o que atrapalha humor, aprendizagem”.

Este ano, o Enem será realizado em dois domingos: dia 3 de novembro (Linguagens e Códigos, Redação e Ciências Humanas) e no dia 10 de novembro (Ciências da Natureza e Matemática).

Sintomas de alto nível de estresse:

  • Insônia

  • Irritabilidade

  • Perda de energia

  • Sentimento de desesperança

  • Sentimento de inadequação

  • Culpa por não cumprir obrigações

  • Piora de concentração

5 dicas para os pais

  • Controle a ansiedade. Muitos pais ficam ansiosos antes do Enem e isso acaba aumentando o nervosismo dos estudantes;

  • Em vez de colocar pressão e cobrança, apoie os jovens, mostrando que confia em seu potencial. Isso elevará a autoestima dos alunos e, assim, as chances de bons resultados são maiores;

  • Conscientize seus filhos sobre a importância do Enem para o futuro. Como ainda há tempo para se preparar, os pais precisam reforçar que vale a pena focar no estudo; 

  • A família precisa se comprometer com a organização dos estudos dos jovens. Por exemplo: se é dia de treinar redação, não tem como fazer um grande almoço de família, barulhento e dispersivo;

  • Lembre-se que seu filho precisa de alguns momentos de lazer.

5 dicas para os alunos

  • Controle sua ansiedade;

  • Organize o seu dia. Cumpra horários de estudos, mas também os de lazer;

  • Procure uma forma de aliviar seu estresse, seja com esportes, cinema, praia ou até mesmo conversando em sessões de terapia;

  • Não invada a madrugada estudando. Uma boa noite de sono é fundamental para a rotina de estudos;

  • Não se desespere caso ainda não tenha escolhido a profissão que quer seguir. A vida não acaba aos 18 e você pode mudar de ideia depois.

Onde conseguir atendimento gratuito?
Para adolescentes até 17 anos há dois Centros de Atendimento Psicossocial Infância e Adolescência (Caps IA) em Salvador. Existe uma unidade no IAPI e outra em Jaguaribe. O atendimento é por ordem de chegada e é necessário levar carteira do Sistema Único de Saúde (SUS), além do documento de identificação do jovem e responsável.

No caso dos estudantes com mais de 18 anos, basta procurar uma unidade do Caps (lista de endereços). Há também atendimento gratuito em algumas universidades da cidade.

  • Caps IA (IAPI)
    Endereço: Rua Conde de Porto Alegre, 11.
    Telefone: (71) 3611-9011

  • Caps IA (Jaguaribe)
    Endereço: Rua das Mangaloeiras, 128.
    Telefone: (71) 3611-7913

  • UNIFACS (PA1 – Federação)
    Endereço: PA1 – Unifacs: Avenida Cardeal da Silva, 132.
    Telefone: (71) 3271-8119

  • Universidade Federal da Bahia (Ufba)
    Endereço: Rua Professor Aristides Novis, 197, Federação (São Lázaro).
    Telefone: (71) 3235-4589

  • FTC (Paralela)
    Endereços: Av. Luís Viana Filho, 8812, Paralela
    Telefone: (71) 3281-8073

  • FTC (Comércio)
    Sede da Clínica de Psicologia da FTC, na Praça da Inglaterra, nº 6, Edf. Big, 4º andar, Comércio.
    Telefone: (71) 3241-6892

Fonte: Correio