Um conflito nas negociações entre duas empresas gigantes está ameaçando tirar o Homem-Aranha do universo cinematográfico da Marvel (MCU, em inglês, como é conhecido). Isso significa que o personagem não participaria mais de filmes com os outros heróis e não estaria no mesmo universo de histórias que eles. Disney e Sony não chegaram a um acordo sobre a produção e divisão dos lucros dos filmes do Cabeça de Teia e se criou um impasse que tem mexido com as emoções dos fãs de quadrinhos e filmes de heróis. 

Para entender como a situação chegou a esse ponto, é preciso voltar no tempo. Nos anos 2000, antes de “Homem de Ferro”, a Marvel não tinha um braço forte no cinema e não produzia diretamente os filmes baseados em seus personagens. Os principais heróis da Casa de Ideias foram então licenciados para outros estúdios. Os X-Men, por exemplo, ficaram com a 20th Century Fox. O Homem-Aranha foi parar com a Sony e nesse contexto surgiu a primeira trilogia do herói, à época vivido por Tobey Maguire e sem nenhuma relação com outros filmes da Marvel.

Mas no meio dos anos 2000 foi fundado o Marvel Studios, que seria dedicado a produzir para a empresa seus próprios filmes. Com seus personagens mais famosos já licenciados, a Marvel então se lançou em uma empreitada que, sabemos hoje, acabou sendo uma das mais exitosas da história do cinema: passou a investir em outros dos seus heróis, com filmes conectados dentro de um mesmo universo. Claro, Homem de Ferro, o primeiro escolhido, não era exatamente desconhecido, mas nem de longe era o fenômeno de popularidade que é hoje e não era tão famoso como o Homem-Aranha ou os mutantes. Sob comando do presidente Kevin Feige, o Marvel Studios construiu uma franquia de filmes que dominou os cinemas, aproveitando personagens da “segunda divisão” dos quadrinhos.

Os filmes baseados em heróis da Marvel que não faziam parte do estúdio da empresa continuaram a existir, sem ligação com o MCU. A 20th Century Fox continuou fazendo filmes do X-Men, mas o Logan de Hugh Jackman não vai aparecer lutando ao lado de Thor ou Capitão América. 

E tem o Homem-Aranha. Por décadas, ele foi o herói mais popular da Marvel. Depois da primeira trilogia, com Maguire, a Sony fez um primeiro remake, “O Espetacular Homem-Aranha”, com dois filmes, que traziam Andrew Garfield como o protagonista. A recepção foi tépida.

E aí aconteceu um acordo incomum envolvendo a Sony e a Marvel Studios. As empresas concordaram em dividir o personagem, que passaria por um novo reboot. Ele seguiria nos filmes da Sony, mas poderia aparecer nas produções da Marvel. Segundo o Collider, o acordo era de que os filmes seriam financiados e distribuídos pela Sony, que pagaria inteiramente a produção, e a Marvel seria uma produtora que ajudaria nos caminhos criativos. Com isso, Feige e a Marvel Studios ajudaram na escolha do diretor, do elenco e de outros aspectos do filme, para integrá-lo ao MCU. O escolhido para viver o Aranha nessa nova empreitada foi Tom Holland. Pelo acordo, a Marvel Studios poderia usar o ator em cinco filmes, incluindo “Volta para casa” e suas sequências. O personagem fez sua estreia no MCU aparecendo em “Capitão América: Guerra Civil”.

Mas tinha um “detalhe” que desagradava a Marvel – já dá para imaginar, né? O estúdio da gigante dos quadrinhos, agora pertencente à Disney, faturava somente 5% da bilheteria dos filmes solo do Aranha, além dos que viesse de merchandising. De acordo com o The Hollywood Reporter, a intenção da Disney era aumentar sua fatia para no mínimo 30%. 

Pouco, muito? Desde o anúncio da saída do Aranha do MCU os fãs não param de brigar online sobre quem tem razão. Alguns criticam a sanha hegemônica da Disney. Outros pressionam a Sony para que entre em um acordo que permita que o Aranha continue fazendo parte do universo dos outros heróis. No dia do anúncio do fim do acordo entre as empresas, o tema dominou os tópicos mais comentados do Twitter. No Facebook, teve até evento criado para um protesto em frente à sede da Sony, no próximo dia 31.

“Homem-Aranha: De volta ao lar” conseguiu 880,1 milhões de dólares de bilheteria, trazendo o Homem de Ferro e uma maior relação com os outros filmes. Já “Homem-Aranha: Longe de Casa” se tornou o maior sucesso de bilheteria da Sony, com  1,1 bilhão de dólares de arrecadação. Ainda assim, hoje, o Aranha é comercialmente menor diante do sucesso dos filmes da Marvel Studios e a Disney calculou que valeria a pena a pressão, mesmo com chance de perder o personagem. Até o ator Jeremy Renner, o Gavião Arqueiro, foi às redes sociais para dar pitaco. “Ei, Sony, nós queremos o Homem-Aranha de volta, por favor, obrigado”, postou no Instagram. 

A Sony, aparentemente, é quem tem mais a perder. A empresa divulgou nota lamentando o caso e informando que ainda espera que haja uma mudança no cenário. “Muitas das notícias de hoje sobre o Homem-Aranha descaracterizaram discussões recentes sobre o envolvimento de Kevin Feige na franquia. Estamos desapontados, mas respeitamos a decisão da Disney de não tê-lo como produtor principal de nosso próximo filme do Homem-Aranha”, diz o texto.E continua: “Esperamos que isso mude no futuro, mas entendemos que as muitas novas responsabilidades que a Disney lhe atribuiu – incluindo todas as propriedades recém-adicionadas da Marvel – não permitem que ele trabalhe em produtos que eles não possuem. Kevin é fantástico e somos gratos por sua ajuda e orientação e apreciamos o caminho que ele ajudou a criar, o que continuaremos”.

O estúdio pode até perder seu protagonista, já que Tom Holland já viveu o Aranha nos cinco filmes do contrato. Ele agora tem opção para assinar por mais um filme, mas depende exclusivamente dele. É esperar para ver o que vai acontecer.

Fonte: Correio