As áreas de mata e pastagem tomadas pela lama de rejeitos da barragem de Fundão, que se rompeu em novembro de 2015, talvez nunca mais sejam as mesmas. Mas elas podem ficar próximas de como era antes e até melhores do que locais que sofreram anos e anos de devastação pela ação do homem.

“A recuperação é possível e podemos, inclusive, acelerá-la. Sempre acreditei nisso. Não sei se vamos conseguir restabelecer as condições iniciais, só que as muitas áreas que foram afetadas diretamente pela lama não estavam nas melhores de suas condições devido a mais de 300 anos de superexploração da bacia do rio Doce”, explica Maria Catarina Kasuya, doutora em Agricultura e especialista em Microbiologia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

A cientista liderou estudos sobre a diversidade microbiana, incluindo fungos presentes nas plantas que cresceram no rejeito após o plantio emergencial, logo após o desastre (leia mais aqui). Embasada nos trabalhos da professora, a Fundação Renova, entidade criada para reparar os danos do desastre de Mariana, pode direcionar a produção de mudas para restauração florestal das áreas impactadas pela lama.

Professora Catarina e Leonardo Silva visitam viveiro da Universidade Federal de Viçosa
Foto: Paulo Prates/Universidade Federal de Viçosa

As pesquisas deram subsídios para o isolamento e multiplicação de microrganismos, como bactérias fixadores de nitrogênio e fungos arbusculares, que favorecem o crescimento das plantas, bem como a produção de substrato com microrganismos benéficos em escala suficiente para a produção de 100 mil mudas florestais nativas da Mata Atlântica, que possibilitará o reflorestamento das áreas afetadas.

“Na realidade, em tudo há microrganismos, mas a gente não enxerga porque são criaturas minúsculas. Entretanto são seres fantásticos e com diferentes técnicas é possível detectar a presença desses microrganismos, fazendo-os crescer em laboratório, ou mesmo estudá-los utilizando as técnicas moleculares”, acrescenta a professora da UFV.

Foi então desenvolvida a tecnologia de um substrato inoculado com microrganismos benéficos para a produção de mudas. As sementes são germinadas e crescidas nesse composto orgânico, que por ser rico em microrganismos, o desenvolvimento vegetal é melhor e mais rápido. Isso vale para um ambiente de rejeito de mineração ou em outro qualquer, ao longo da bacia do rio Doce.

A parceria com a professora foi fundamental para o processo. “Após o primeiro ano de monitoramento, conseguimos identificar microrganismos nesse solo, observamos que existia vida e aumento de nutrientes ao longo do tempo. Estávamos no caminho certo. Foi o primeiro passo para desenvolvimento de tecnologia de escala em massa na produção de espécies florestais nativas, adequadas às especificidades desse ambiente”, conta o especialista de programas socioambientais da Renova, Leonardo Silva.

O passo seguinte é difundir a técnica ao longo da bacia do Rio Doce, para que ela não fique restrita ao primeiro trecho do desastre tomado pela lama. “Estamos na etapa de distribuir esse substrato inoculado para os ribeirinhos. Temos que fazer um treinamento com eles e, ao mesmo tempo, acompanhar o desenvolvimento das mudas no viveiro e no campo”, detalha Maria Catarina.

Como o crescimento vegetal é mais rápido, o uso desse substrato também gera economia para os viveiristas e menos impactos socioambientais. “Os resultados iniciais mostraram que essa metodologia pode reduzir significativamente o tempo necessário para a produção da muda no viveiro e garantir a crescimento de espécie com difícil propagação vegetativa em substrato comercial. Outro ganho é em redução de custos já que, até então, os viveiristas compravam substrato em outro estado”, comenta Leonardo Silva.


Serão produzidas 100 mil mudas florestais nativas da Mata Atlântica para reflorestamento das áreas afetadas
Foto: Paulo Prates/Universidade Federal de Viçosa

Eficácia

Serão produzidas 100 mil mudas florestais nativas da Mata Atlântica para reflorestamento das áreas afetadas

O plantio de espécies nativas nas margens do rio Gualaxo do Norte, afluente do Doce atingido pelos rejeitos, foi iniciado em janeiro de 2018. Hoje, são cerca de 180 hectares reflorestados em áreas de preservação permanente. Além da revegetação em si e da melhora paisagística e estrutural, o trabalho evita erosões nas margens do rio e o carreamento de sedimentos para os cursos d’água.

“A recuperação e a reabilitação inicial partem de projetos mais amplos e não tem, necessariamente, como foco restaurar o ecossistema que tinha antes. Com as ações de reflorestamento queremos criar condições para que a natureza gere novamente um ecossistema próximo da realidade regional, incluindo as possibilidades de uso sustentável pelos agricultores em uma visão de médio prazo”, explica Leonardo Silva.

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Fonte: Agencia Brasil