Uma palavra intuitiva e, ao mesmo tempo, quase desconhecida para muitos, teve destaque durante os debates sediados na Semana do Clima: a “descarbonização”. O evento da Organização das Nações Unidas (ONU), que está sendo realizado em Salvador, debateu o tema durante diversos painéis. A descarbonização é o processo de zerar a emissão do gás carbônico até 2050, um dos gases que causam o efeito estufa. 

O painel “Descarbonização e estratégias de longo tempo”, realizado nesta quinta-feira (22) na Semana do Clima, mostrou como os países da Colômbia, Argentina e Costa Rica estão desenvolvendo ações para alcançar o marco zero na emissão carbônica. A Costa Rica foi elencada como um exemplo para os demais países da América Latina. O país possui um Plano Nacional de Descarbonização com 10 setores definidos como focos principais que foi detalhado durante o evento.

“Nós definimos ações de curto e longo prazo divididos em 10 setores principais. São eles: mobilidade sustentável e transporte público, transporte público com emissões zero, transporte de carga eficiente, energia elétrica renovável à custo competitivo, prédios sustentáveis e de baixas emissões, setor industrial com baixa emissão, gestão integral de resíduos, sistemas agroalimentares com baixo carbono, modelo de pecuária eco-competitivo e gestão de território baseados na natureza”, explicou Norma Campos, Vice-diretora de Mudança Climática da Costa Rica.

Dentre as metas definidas para o transporte público, por exemplo, está ter 30% da frota de transporte público elétrico e 100% do trem também elétrico até 2035. Para 2050 está ter um sistema de transporte público integrado, substituindo os carros particulares, além de ter 85% da frota de transporte público com zero emissões.

Com as mudanças em todos os setores, a expectativa do país é de reduzir custos de saúde, do tempo no trânsito, de acidentes de trânsito, além de uma reativação econômica do país por conta da redução de importação de petróleo. “Para alcançar as metas nós temos que cumprir os objetivos e focar em fazer uma transição justa e igualitária”, destacou.

“O plano leva custos gerenciáveis para usuários, empresas e governo, além de oferecer flexibilidade e mover para zero emissões de carbono evitando o bloqueio de carbono”, destacou Norma.

Colômbia
O Coordenador da Estratégia Colombiana de Desenvolvimento de Baixo Carbono no Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Ivàn Darío Valencia, destacou que no país a estratégia é fazer ações integrais e integradas, com uma plataforma de consulta de estratégia para documentar o que as pessoas da sociedade estão pensando sobre o assunto. 

“A nossa maior preocupação atual, além do plantio do café – que somos os maiores exportadores do mundo – que já é uma questão ameaçada pela mudança climática, é como iremos multiplicar a nossa matriz energética para conseguir transformar o transporte com base em energia fóssil para energético. Nós teríamos que multiplicá-la em muitas vezes e isso deve ser pensado para ser feito de modo sustentável”, destacou.

Alemanha
A Alemanha foi um país convidado a participar da Semana Latino Americana e Caribenha por conta da forma com que a transformação para um sistema de zero carbono foi implantado no país. Quem esteve no evento para explicá-lo foi Benno Hain, Chefe de Unidade em Estratégias e Cenários Energéticos para a Agência Ambiental Alemã. Hain destacou que houve um processo participativo com o objetivo de engajar a população.

“Nós criamos um processo e elaboramos um relatório com os grupos que representantes de diversos setores. O que tivemos de resultado, levamos ao governo, que começou a pensar em estratégias. Também fizemos uma coalizão entre os partidos políticos que decidiram implantar um plano ambicioso. Foi muito importante para a Alemanha chegar a um resultado comum entre os partidos”, destacou.

O país, então, elaborou metas quantificadas até o ano de 2030. O maior problema do país, de acordo com Hain, seria o setor de transporte porque, segundo ele, os alemães são “apaixonados por carros”.

Empresas brasileiras
A representante do Brasil foi, na verdade, integrante da parte empresarial. Ana Carolina Szklo, Diretora de Desenvolvimento Técnico no Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), apresentou ações promovidas pelo Conselho para ser seguida pelas empresas.

O Conselho é formado por mais de 60 empresas que, juntas, correspondem a quase 45% do PIB nacional. Ana Carolina destacou que o primeiro desafio foi construir um modelo mental para entender a importância da sustentabilidade das empresas.

“Nós fizemos um programa que propunha sugestões gerais como, por exemplo, traduzir medidas efetivas. Nós então começamos a olhar para o que já tinha em outros países e cidades e definimos quais desafios e oportunidades essa transição trazia para o Conselho. Fizemos um plano de ação de curto e longo prazo com visão e planejamento estratégicos”, explicou.

Universidades
A boliviana Emma Torres, da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável, destacou a importância da presença de universidades nas soluções para sustentabilidade. “Nós temos que mobilizar a academia para conseguir cumprir os objetivos definidos no Acordo de Paris. A academia pode trazer soluções a serem implantadas pelos governos. Nós precisamos da academia e dos cientistas”, disse.

A fala foi endossada pela Chefe da Divisão de Mudanças Climáticas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Amal-Lee, que defendeu a criação de um plano modelo internacional para a redução do carbono para ser seguido por outros países.

Fonte: Correio