Os grandes críticos de arte Mário Pedrosa e Mirko Lauer diziam que o artesanato era a arte do povo. Para ambos, a denominação “artesanato” se deve a preconceitos dos que insistem em ser intelectuais com a força do achismo, ou dos desinformados teimosos. Hoje parece engraçado todo mundo é artista visual crítico de arte e curador.

Do ponto de vista estético, nem Pedrosa, nem Mirko faziam distinção entre arte e artesanato. A questão do artesanato é a proposital reprodução do “molde” para que o produto seja mais acessível ao público.

O material usado pelos artesões é o mesmo de um artista visual.

Muitos artistas e artesões transformam elementos encontrados na natureza em objetos artísticos. O barro vira cerâmica, madeiras e pedras se transformam em esculturas, pedaços de papel se transformam em cestas, vasos. O artesanato produz objetos artísticos e utilitários. Mesmo no utilitário há incursões artísticas inusitadas. Hoje em dia, em todos os estados brasileiros, encontramos uma produção diversificada, realizada com matérias-primas regionais e com técnicas muito especiais que variam de acordo com a cultura, o modo de vida deste povo e o material de maior abundancia na região. O artesanato vem desde o princípio da humanidade e sabe-se que nada é mais regional que o artesanato.

Identificador de origens, fruto expressivo de culturas e tradições, seja na repetição de formas ou peça única. Não existe um critério matemático/científico para se julgar obras de arte e artesanato. Existem sinais e sintomas, que nos ajudam a, no mínimo, identificar valores. O principal é a originalidade, a essência, a marca autoral, tanto o artesanato como a arte erudita têm estes princípios. Existem obras ditas artesanais muito mais criativas que a de artistas já “consagrados”. Os artistas materializam sonhos os artesões também. O engenho na captura das surpresas, dos mistérios. Não existem produtos definitivos, tudo pode ser revisto, modificado, revisitado, buscando novas postulações. Os criadores cuidam de somações de vivências, colcha de retalhos da memória, integração entre linguagens visuais. O que dá importância é o trabalho concluído e seu poder causador, o que foi expresso, as articulações do olhar e o estoque de ideações.

A repetição causa perda do valor de mercado. Só você no mundo terá essa obra, mais ninguém. Privilegio de poucos.

Na realidade no aspecto estético arte e artesanato são iguais. A repetição no artesanato, também pode justificar a repetição da gravura, da escultura.

O que de fato existe é um terrível preconceito em relação às artes populares, que o tempo vai resolver. 

Fonte: Correio