Torcedor torce. Tem que apoiar o tempo inteiro. Vaiar nem em casos extremos.

Não pode criticar o técnico, mesmo em escalações incompreensíveis. Não pode estranhar desculpas sem sentido em coletivas chapa branca. Não pode cornetar o zagueiro que erra. Não pode questionar o elenco gordinho. Muito menos pedir raça a quem vaga em campo sem vontade.

Não pode duvidar de contratações esdrúxulas, arquitetadas para satisfazer o enriquecimento de empresários, dirigentes e corruptos em geral. Não pode interrogar o presidente de momento para não desestabilizar o ambiente.

Seja sócio. Só pode se dizer torcedor mesmo que paga a mensalidade em dia, de preferência no cartão – boleto é pros fracos. Escolha o plano mais caro. Vá a todos os jogos, mesmo aquele da terça às 19h15 bem no dia do aniversário da tia. Desmarque, pois quaisquer outros planos. Primeiro sempre deve vir quem lhe coloca por último.

Ingressos serão majorados até alcançar o impagável. Mais o trânsito, o estacionamento, o churrasquinho de origem duvidosa, a piriguete. Dê seu dinheiro sem exigir nada em troca. Amor é isso.

Sabe como é, torcedor tem que entender o momento, a situação financeira, a morte da bezerra. Compre a camisa nova. O segundo padrão também. Tem o terceiro, não esqueça. A linha de passeio, a retrô, quinquilharias legais e outras nem tanto. Pague caro, sem desconto, com escudos que descolam e barras que descosturam. Aposte na Timemania. Não reclame, afinal, não é consumo, é doação. Cliente tem direito, torcedor tem obrigação.

Abomine o manto adversário. Recluse-os ao curral do desprezo. Proíba-se em qualquer terreno. Leve qualquer embate para o campo do clubismo. Crie inimigos imaginários, ajuda bastante a fortalecer o vitimismo, especialmente quando estiver acuado e sua incompetência estiver exposta.

Torcedor de verdade torce pra time da sua cidade. Torcedor retado torce pra time do seu estado. Torcedor de coração torce pra time da sua região. Torcedor raiz torce pra time de seu país. Torcedor vagabundo torce pra qualquer time do mundo.

Cale-se, cegue-se, ensurdeça-se. O torcedor ideal é o robô lobotomizado que despeja recursos e esbraveja ódio contra tudo que não é espelho, pois Narciso o acha feio, assim cantou Caetano.

Apague-se da memória as resenhas e pirraças acompanhadas por acarajé e bebida, a torcida mista em que todos chegavam e saíam sem aperreios, o tio Bahia que levava você ao Barradão porque seu pai não podia.

Finjamos que não existiu o período em que torcer era puro e sem barreiras. Que a paixão, a alegria, o drible, a vitória, o encantamento eram a tônica direcionadora de afiliações.

Preste, pois, atenção ao extenso e crescente livro de regras do torcedor moderno, não mais do que marionete de péssimas intenções. Cuide-se para não ser execrado, transformado no vilão da vez, pela horda saída de um livro de Saramago, pronta para levar ao extremo seu amor até a morte pelo clube. Esta última pode ser literal.

Gabriel Galo é escritor.

Fonte: Correio