A onda de lama que percorreu 670 km de cursos d’água, da barragem de Fundão, em Mariana, na região Central do Estado, à foz do rio Doce, no litoral capixaba, impressionou. A pergunta que se fazia à época é a mesma que se faz agora: teremos o nosso rio de volta? Os mais de 3 milhões de dados coletados nos dois anos do maior programa de monitoramento do país mostram que as condições da bacia são hoje as mesmas de antes do rompimento.

Após a tragédia, a água do rio Doce começou a ser detalhadamente analisada em 92 pontos espalhados pelo trecho impactado (veja no mapa abaixo).

Criado em julho de 2017 pela Fundação Renova, entidade responsável pela reparação e compensação dos danos do desastre ambiental, o Programa de Monitoramento Quali-Quantitativo Sistemático (PMQQS) mapeia parâmetros físicos, químicos e biológicos e gera informações em tempo real para serem enviadas aos órgãos ambientais.

“Os parâmetros foram definidos com base na resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente. Em campo é colhida uma amostra da água. Avaliamos também a parte biológica, como fitoplânctons e outros organismos que são mais sensíveis e respondem caso ocorra algum tipo de alteração. Temos várias evidências de que o rio hoje está se recuperando”, garante a especialista de programa socioambiental da Renova, Brígida Maioli.

Como antes do desastre, a qualidade das águas que passam por Minas Gerais era analisada pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), que iniciou o monitoramento em 1997, os dados servem para serem comparados com os de agora. Os trabalhos são supervisionados pela Câmara Técnica de Segurança Hídrica e Qualidade da Água (CT-SHQA), órgão ligado ao Comitê Interfederativo, que é responsável por fiscalizar a execução dos programas geridos pela Fundação Renova.

Coleta de amostras no rio Gualaxo para análise. Foto: Nitro Imagens/Divulgação

“O programa da Renova é um dos mais completos do Brasil, conta com um vasto número de parâmetros físicos, químicos, de vazão, descarga sólida, descarga líquida, biomonitoramento, entre outros. Temos pontos coincidentes com os do Igam. Já tínhamos 12 pontos na calha antes e uma série histórica que se agrega ao banco de dados que está sendo gerado agora. É um monitoramento que passa por uma revisão bianual, alinhada com as 11 câmaras técnicas”, destaca a coordenadora da CT-SHQA, Regina Pimenta.

As informações de arquivos foram fundamentais para as conclusões de hoje. “A gente tem observado que alguns parâmetros, principalmente no período de chuva, ainda são maiores do que se observava antes, como a turbidez, o ferro dissolvido, o que está relacionado com o rompimento. Mas a maior parte deles já se encontra como eram antes. A gente teve uma redução ao longo do tempo bem considerável”, ressalta Brígida Maioli.

O programa de monitoramento também é realizado no litoral capixaba, onde a onda de rejeitos chegou, após a foz do rio Doce. Segundo dados do PMQQS, a alteração também é pequena. “A variação ao longo do tempo não tem mostrado diferença. Teve o efeito pontual quando a lama chegou”, explica Brígida.


Equipe monitora água na bacia do Rio Doce. Foto: Nitro Imagens/Divulgação

Própria para consumo

Os mesmos dados que permitem afirmar que a água do rio Doce está em condições semelhantes às de antes do rompimento asseguram que ela pode ser consumida após passar por tratamento convencional nos sistemas de abastecimento dos municípios.

A qualidade da água é analisada antes e depois de passar pelas Estações de Tratamento de Água (ETAs). A verificação, de responsabilidade das concessionárias locais, acontece em 30 municípios antes de a água ser distribuída para a população. O monitoramento também se dá em poços, nascentes e cisternas. As informações são compartilhadas com as secretarias de saúde municipais e estaduais de Minas e do Espírito Santo.

Fonte: Agencia Brasil