Registro documental e poético de uma Bahia que não existe mais, a fotografia do baiano Voltaire Fraga (1912-2006) poderá ser observada de perto na mostra Voltaire Fraga, Hoje (entre o ontem e o amanhã), que será inaugurada amanhã, às 20h, na Roberto Alban Galeria, em Ondina.

Com seu olhar instigante, situado entre o artístico e o etnográfico, Voltaire percorreu os muitos cantos da cidade de Salvador, entre os anos de 30 e 60, flagrando o cotidiano do seu povo, suas tradições e festejos, sua espontaneidade nas ruas, sua herança religiosa e cultural.

As 36 fotografias que compõem a mostra perpassam e dão provas dessa assinatura do fotógrafo, que em vida não teve o devido reconhecimento. “Um dos motivos dessa exposição é o de almejar ser uma exposição significativa para um público que desconhece, seja porque foi de outra geração ou porque teve pouco contato. A ignorância em relação à produção dele é comum a todos nós, fruto também da falta de políticas públicas e culturais que reforcem o lugar da fotografia. Assim como ele, há vários outros fotógrafos que mereceriam ser postos em evidência”, destaca o curador Dilson Midlej, doutor em Artes Visuais e professor da Escola de Belas Artes da Ufba.

O reconhecimento da obra de Voltaire Fraga foi bastante tardio. Há dez anos – três anos depois da sua morte -, o fotógrafo foi homenageado na quinta edição do A Gosto da Fotografia, que lhe prestou uma homenagem expondo dezenas de fotos. Antes, ele só havia tido uma única exposição individual na Bahia, com curadoria de Celia Aguiar, em 1999. A projeção nacional veio em 2008, quando ganhou uma exposição na Pinacoteca de São Paulo, intitulada Voltaire Fraga – Abundante Cidade, Dessemelhante Bahia, com curadoria de Diógenes Moura.

Por isso, essa é uma rara oportunidade para mergulhar no universo do fotógrafo, um dos mais importantes quando o assunto é documentar com tom poético a Velha Bahia.“O que o distingue é justamente o olhar poético denotado em suas narrativas visuais, o universo temático e as preferências estilísticas que tomam forma por meio dos recursos possibilitados pela fotografia (enquadramento, claro-escuro, texturas, filtros, desfocagem da imagem, etc.)”, enfatiza Midlej. 

Para chegar às 36 fotos que vão compor a atual mostra, foram levados em conta alguns critérios, agrupados em quatro eixos temáticos: 1. a água e regiões bucólicas da cidade (a Ribeira, o Dique do Tororó, a Praia do Porto da Barra, a Praia do Farol da Barra, os saveiros na Rampa do Mercado etc) 2. A iconografia da cidade: vista da Cidade Baixa com o Elevador Lacerda, Praça Castro Alves, Praça Municipal, Mercado Modelo etc) 3. as festas populares e as baianas e 4. os trabalhadores (feirantes, ambulantes). “São nestes dois últimos núcleos que se evidenciam mais notadamente as preocupações de transmissão de valores humanistas dignificantes, impregnados nos papéis sociais dos sujeitos de suas fotografias”, observa o curador.

Assim, a mostra não se apresenta como uma retomada cronológica. “É um acervo fabuloso de imagens, que estavam aí antes de nascermos, mas visto com esse olhar de hoje para pensar o futuro”, complementa. Em preto e branco, as imagens expressam sobretudo o amor pela Bahia das pessoas simples, dos prédios marcantes (muitos já inexistentes) e do encantamento das ruas. Os protagonistas são os transeuntes, feirantes, todos retratados dignamente, em franco contraste com a pobreza e miséria social em que muitos deles vivem. 

Voltaire pagava suas contas com pautas jornalísticas e trabalhos comerciais, de fotografia social, mas eram os projetos pessoais que versavam sobre esses assuntos os que mais lhe encantavam. Ele não economizava no filme quando o assunto era a cidade e o modo de vida das pessoas. Também gostava de ampliar e revelar seus registros. Por não gostar do resultados das revelações, criou um laboratório em sua própria casa, localizada em uma transversal da rua Carlos Gomes. 

Infelizmente, muitas das imagens se perderam durante um temporal que inundou a casa de Voltaire Fraga e destruiu quase 10 mil negativos. Hoje, o acervo de mais de 2 mil negativos pertence à Alba Mara Peixoto, filha do fotógrafo, e  aHaroldo de Oliveira Peixoto. Foi do material mantido por eles que as 36 fotos da exposição foram selecionadas.

(Foto: Voltaire Fraga/ Reprodução)

SERVIÇO
Mostra: Voltaire Fraga, Hoje (entre o ontem e o amanhã)
Local: Roberto Alban Galeria
Abertura: 29/08/2019, às 20 horas
Visitação:30/08/2019 a 09/09/2019 (segunda a sexta, 10h às 19h; sáb, 10h às 13h)

Fonte: Correio