A lama que desceu da barragem de Fundão, em Mariana, na região Central do Estado, causou grandes estragos à natureza. Como forma de compensar os prejuízos causados, a Fundação Renova, criada justamente para reparar os danos do desastre, se comprometeu em recuperar 5 mil nascentes e 40 mil hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e de recarga hídrica – o equivalente a 40 mil campos de futebol –, em dez anos.

As ações aliam recuperação florestal, preservação ambiental e incentivo à produção rural sustentável. Garantido pela assinatura de um Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta (TTAC) entre as mineradoras Samarco, Vale, BHP e governos e órgãos públicos, o programa de restauração florestal é considerado um dos maiores já realizados numa bacia hidrográfica no mundo e terá investimentos na casa de R$ 1,1 bilhão.

Antes de tudo, foram mapeadas as áreas prioritárias para a recuperação, definidas em solução proposta em parceria com as universidades federais de Minas Gerais (UFMG) e de Viçosa (UFV). Era preciso reunir dados ambientais, sociais e econômicos que pudessem revelar índices de maior vulnerabilidade em cada área. Paralelamente, foi necessário considerar as diferentes modalidades de restauração conforme a vocação do uso da terra, como a possibilidade do plantio de espécies nativas, implantação de sistemas agroflorestais ou mesmo a revegetação natural.

“É uma metodologia inovadora, uma vez que considera não apenas a degradação de uma área, mas também sua vocação para o reflorestamento. Foi possível delimitar as áreas da bacia em que há interseção entre características de pronunciada vulnerabilidade social, degradação ambiental e maior chance de sucesso”, destaca o professor Raoni Rajão, coordenador do projeto na UFMG.

Originalmente coberta por 98% de Mata Atlântica, a bacia do Rio Doce estava com 77,5% de sua área degradada, segundo um levantamento de setembro de 2015 da Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, ligada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. “A bacia tem extensas áreas de pastagens degradadas, principalmente na porção Norte e fora da calha do rio Doce”, completa o professor da UFV, José Ambrósio Neto.

Assim, entendeu-se que a restauração florestal seria feita com o plantio direto em 10 mil hectares com 20 milhões de mudas e, nos outros 30 mil hectares, a regeneração se daria por condução natural. A recuperação das nascentes conta com o plantio de 1 milhão de mudas, com a colaboração de 450 produtores rurais. A proposta é promover a utilização de tecnologias e estratégias sustentáveis para potencializar a atividade agrícola, reduzindo os impactos sobre os recursos naturais.

Uma das mais de mil nascentes protegidas e em processo de recuperação na bacia do Rio Doce Foto: Gustavo Baxter/Nitro Imagens

“O histórico de degradação da bacia do Rio Doce é assustador. Ela já vinha pedindo socorro, e o desastre só piorou o que estava ruim. Conseguir trabalhar um programa desse nas cabeceiras do rio, assegurando a agricultura e o abastecimento das cidades, é uma nova chance para a recuperação”, ressalta o especialista de programas socioambientais da Fundação Renova, Felipe Tieppo.

A restauração florestal e de nascentes envolve mapeamento, engajamento, diagnóstico e elaboração de projetos, plantio, manutenção e monitoramento de aproximadamente 8 mil hectares de propriedades rurais em toda a bacia. “Esses números ainda estão sendo calculados. O programa ainda é muito pequeno, a bacia é muito grande. Mas o poder de impacto social do projeto é muito maior. Se você trabalhar a pessoa, as culturas locais, os produtores podem trabalhar em prol da recuperação das águas”, destaca Tieppo.

Recompensas

Em julho de 2018 a Renova lançou o edital do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), uma recompensa financeira aos agricultores que se comprometerem a recuperar nascentes, mananciais e fontes de água em suas propriedades. De adesão voluntária 270 proprietários se inscreveram e receberão R$ 252 por ano por hectare protegido.

Neste mês, também foi aberto o Edital de Adesão ao Programa de Restauração Florestal, que envolve produtores na recuperação de APPs e nascentes. As inscrições vão até dezembro deste ano. O objetivo é recuperar 500 nascentes nas bacias dos rios Pontões, Suaçuí e Piranga, entre 2019 e 2020, e mil hectares de terras degradadas em APPs ou áreas de recarga hídrica identificadas como prioritárias.

Instituto Terra capacita jovens e desenvolve projetos para recuperação de nascentes e de áreas da Mata Atlântica. Foto: Nitro Imagens

Viveiros

Para dar conta da restauração, viveiros localizados em diferentes regiões são responsáveis pela produção de mudas. Eles são selecionados levando em conta aspectos de viabilidade logística, capacidade produtiva e responsabilidade social.

Também há parcerias, como a do Instituto Terra. Localizado em Aimorés, ele já produziu mais de 4 milhões de mudas de espécies nativas de Mata Atlântica para a recuperação de 7 mil hectares de áreas degradadas. Desde o início da parceria, mais de mil nascentes foram protegidas com o envolvimento de produtores rurais.

Fonte: Agencia Brasil