A lama de rejeitos da barragem de Fundão, em Mariana, na região Central do Estado, devastou áreas de preservação e terras produtivas. Para reparar os danos e deixar um legado para o meio ambiente, a Fundação Renova, criada para compensar os impactos do desastre, e entidades como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e a Universidade Federal de Viçosa (UFV) propuseram ações integradas de reparação de propriedades rurais.

“O nosso maior desafio, que é um desafio mundial, é aliar a produção com a conservação. Com o desastre, o rejeito passou em áreas de preservação permanente, áreas produtivas e de infraestrutura rural. Então quando temos esse olhar sistêmico da propriedade rural, é preciso pensar na atividade produtiva mas também trabalhar a adequação ambiental. É um trabalho muito mais amplo do que a reparação direta do dano de onde o rejeito passou”, explica Lucas Scarascia, líder de programas socioambientais da Renova.

Os planos de recuperação são traçados de acordo com as características de cada lugar. “Fizemos a caracterização produtiva, levantando 21 indicadores com base nos atingidos. Usamos o CAR (Cadastro Ambiental Rural) como referência, avaliamos as propriedades, a questão econômica, a recuperação de pastagens, mudança de áreas que não são apropriadas, propusemos corredores ecológicos. Negociamos com eles, validamos o plano e entregamos para a execução”, destaca João Carlos Guimarães, coordenador técnico estadual de irrigação e recurso hídrico da Emater.

Manejo racional de pastagens é uma das soluções adotadas para recuperação de propriedades rurais Foto: Gustavo Baxter/Nitro Imagens

O Zoneamento Ambiental Produtivo (ZAP), uma ferramenta que subsidia políticas públicas, ajudou na análise das propriedades rurais do rio Gualaxo do Norte e na microbacia do rio do Carmo. Indicadores de Sustentabilidade em Agroecossistemas (ISAs), examinados a cada dois anos e que avaliam mais de 4.000 itens, verificaram situações como a fertilidade do solo, o gerenciamento de resíduos, a diversificação da paisagem e a vegetação nativa.

Segundo o mapeamento do Instituto BioAtlântica Doce, de 2013, 59% da área da bacia são compostas por pastagem, 5% de áreas agrícolas e, 4%, por áreas reflorestadas. A vegetação nativa ainda recobre 27% do território. As características de solos e relevo criam uma fragilidade susceptível a erosões, de acordo com estudo da Agência Nacional de Água (ANA), publicado em 2010.

Mapa da recuperação

Atualmente, 235 propriedades rurais, entre Fundão, em Mariana, e a Usina de Candonga, em Santa Cruz do Escalvado, na Zona da Mata, recebem ações para melhoria das atividades agropecuárias e recuperação ambiental.

Tudo é traçado por meio do Plano de Adequação Socioeconômica e Ambiental (Pasea), que regulariza a terra de acordo com as exigências do novo Código Florestal, para que se torne uma propriedade sustentável do ponto de vista social e ambiental.

“É preciso respeitar as características do desastre nas propriedades rurais. Para cada uma, uma solução diferente. Entre Fundão e Santa Cruz do Escalvado, por exemplo, o olhar foi sistêmico, porque o produtor foi profundamente impactado. Mas é ele quem vai decidir o que fazer em sua propriedade. Ele é o protagonista do processo de reparação”, reforça Scarascia.

Entre as soluções estão o manejo racional de pastagens com a melhora na qualidade do alimento para a criação de gado, o uso e conservação do solo com a construção de “barraginhas” (para a captação de águas de chuvas) nas áreas de pastos, a adequação e melhoria de estruturas, além da instalação de sistemas para o tratamento do esgoto doméstico. Segundo a Renova, a adesão ao programa é de 80%.


Waldir Pollak, proprietário de fazenda-modelo de readequação ambiental e produtiva Foto: Pedro Gontijo/Fundação Renova

A propriedade rural de Waldir Pollak, de 73 anos, localizada no distrito de Paracatu de Baixo, em Mariana, foi escolhida como fazenda-modelo do programa. O local recebeu alojamento, galinheiro, chiqueiro e um curral. “A vida está recomeçando. O finado papai dizia: ‘O que foi ontem já passou’. (Recente reportagem de O TEMPO detalhou ações na região).

Qualificação

No processo de reparação foi criado também o serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) a retomada das atividades agropecuárias nos primeiros 100 km do desastre, entre Mariana e Santa Cruz do Escalvado, na Zona da Mata. A intenção é promover a conservação de recursos naturais, práticas de produções sustentáveis e apoio direto às famílias na gestão da propriedade e na venda dos produtos.

Já foram realizados cursos de assistência em Mariana, Barra Longa, Ponte Nova, Santa Cruz do Escalvado e Rio Doce, com destaque para temas como igualdade de gênero, permanência do jovem no campo e produção agroecológica.

Na região entre os municípios de Rio Doce e Linhares (ES), na foz do rio Doce, as propriedades rurais também serão atendidas com ações de Ater, manejo do sistema de irrigação e recuperação de solos.

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Fonte: Agencia Brasil