Por sobrevivência, as cerca de 200 famílias que moravam em Bento Rodrigues, em Mariana, abandonaram simultaneamente e às pressas o lugar onde viviam e conviviam. Cerca de meia hora após o rompimento da barragem de Fundão, a onda de lama atingiu o povoado e fez com que as pessoas abandonassem suas casas para garantir as suas vidas. Agora, quase quatro anos depois da tragédia, elas se preparam para ocupar a nova Bento Rodrigues também juntos.

É que a comunidade decidiu esperar que todas as casas estejam prontas, o que deve ocorrer até o fim do ano que vem, se tudo ocorrer como o planejado, para se mudar para o local onde vão retomar o cotidiano. Aí é seguir a vida da forma como escolheram. “A gente vivia no paraíso. Nós íamos para o rio pescar, nós íamos para a cachoeira nadar. A gente quer que esse paraíso volte e, se Deus quiser, de forma breve”, desabafa o morador José do Nascimento de Jesus, conhecido o Zezinho do Bento, 63.

As casas de Bento Rodrigues começaram a ser erguidas, após longo processo de deliberação e trâmites burocráticos que precisaram ser superados. Das mais de 200 casas que vão ocupar o local, 17 estão com o alvará de construção concedido pela Prefeitura de Mariana e há outros 80 projetos protocolados, esperando a aprovação. O primeiro passo para se chegar no status atual onde ruas abertas moldam o contorno do distrito e paredes levantadas são avistadas foi a escolha do terreno.

Em 2016, a comunidade escolheu pela área conhecida como Lavoura. O que pesou para a escolha foi a localização. Ela fica mais próxima de Mariana, mas está no meio do caminho até Bento, portanto, mantém a proximidade de outras comunidades que faziam parte do cotidiano das famílias. Além disso, o solo adequado para plantio e criação de animais também foi uma qualidade que influenciou na decisão. O local tem uma área de 66 hectares e fica a 8 km de distância da sede de Mariana. Bento Rodrigues original tinha 54 hectares e estava a 23,5 km da cidade.

O projeto arquitetônico de Bento Rodrigues teve aprovação de 99,4% da comunidade, em fevereiro de 2018. Das 180 famílias que votaram, 179 concordaram com a proposta, praticamente uma unanimidade. Mas para chegar lá foi preciso passar de um modelo mais representativo, onde as decisões estavam concentradas na Comissão de Atingidos, com integrantes eleitos pelos moradores, para um mais participativo, com a atuação de quase todos os moradores na elaboração do projeto, por meio de oficinas. Guardadas as particularidades de cada terreno, o novo distrito tenta manter a disposição de casas, vizinhança e equipamentos públicos que existiam na original. O novo terreno é mais acidentado, enquanto Bento era praticamente todo plano. As ruas terão o mesmo nome, com a via de acesso principal à localidade se transformando na principal avenida, denominada de São Bento, assim como era no distrito que foi destruído.

Construção das casas avança de forma simultânea com as obras de infraestrutura. Foto: Guilherme Guedes

Para além do projeto geral, as casas de cada um dos atingidos recebem um desenho específico que tenta representar com o máximo de semelhança o imóvel que tinham, porém com melhorias. “Fizemos um preparo com os arquitetos porque procuramos garantir os direitos de todas as famílias. O programa de cada casa, cada quintal produtivo, cada benfeitoria, tudo isso é pensado individualmente. Mas, mais do que somente representar a casa que tinham, também há melhorias. Até porque o distrito que foi destruído teve uma urbanização ao longo do tempo sem um planejamento específico. Alguns modelos de casas não podem mais ser reconstruídos. Então esses imóveis foram planejados de acordo com as novas regras formais que hoje vigoram na cidade de Mariana”, explica o especialista em Projetos e Obras da Fundação Renova, Alfredo Zanon.

Os lotes mínimos no terreno da Lavoura devem ser de 250 m² para imóveis urbanos e três hectares para imóveis rurais. A largura da frente de cada lote deve ser de pelo menos 12 metros e a área total construída de no mínimo 75 m². “A gente tem tudo na cabeça de como eram nossas casas, e no papel os projetos estão melhor do que a gente tinha. A gente não queria sair de lá, mas como fomos obrigados a sair, que seja para melhor”, afirma Zezinho.

Alfredo Zanon explica que como cada projeto de casa precisa de um alvará independente, esse trâmite burocrático é mais demorado. “É diferente de um conjunto habitacional em que o alvará sai ao mesmo tempo para a localidade inteira. Aqui cada projeto precisa ser aprovado na prefeitura e, só aí, começam as obras.”

A construção das casas está sendo realizada de forma simultânea com as obras de infraestrutura que já estão avançadas. A escola que irá atender Bento Rodrigues também já está sendo construída e o projeto foi elaborado de forma colaborativa entre moradores e prefeitura. “Envolver a prefeitura nessa discussão, desde o início, foi um aprendizado que tivemos e que poderia ter agilizado o processo. Porque não adianta a comunidade fazer as demandas dos bens públicos, mas a prefeitura não conseguir arcar com as prestações desses serviços”, destaca Zanon. A escola contará com toda infraestrutura, playgrounds e amplos espaços de convivência para os alunos. O distrito também contará com um posto de saúde e reconstrução das capelas que estão em discussão com a Arquidiocese.


Construção do posto de saúde de Bento Rodrigues; etapa de concretagem para contenção está concluída. Foto: Guilherme Guedes

As ruas que estão sendo abertas serão pavimentadas e com largura padronizada. Todas terão duas pistas e calçadas. A estrada de acesso que tem pouco mais de 2 km está sendo construída de acordo com as regras previstas no Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DEER-MG). Além disso, a comunidade contará com uma nova rede de coleta e distribuição de água e esgoto e também de estação de tratamento de esgoto. A rede elétrica está sendo montada, assim como a rede de drenagem. Toda essa estrutura será entregue ao poder público para a manutenção. “Nesse terreno nós não temos mais riscos de inundação, não teremos risco de deslizamento de terra, nós não temos nenhuma barragem perto. O processo demorou, mas hoje a gente vive mais tranquilo porque a gente tá vendo o início da obra e está vendo o processo andando”, afirma Zezinho.

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Fonte: Agencia Brasil