Todo dia 6 de janeiro os moradores de Paracatu de Baixo, em Mariana, na região Central, preparavam suas casas para a visita da Folia de Reis, uma das festividades mais famosas da região. Participar novamente dessa festa, interrompida após o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, é um dos principais desejos de Ednaldo José, 36, representante de uma das cerca de 100 famílias da comunidade que serão reassentadas. A Folia de Reis é uma das lembranças que mantém viva a esperança de voltar a ter uma casa com quintal para os animais e a tranquilidade de estar em uma área rural. “Agora as coisas estão dando certo. A gente quer voltar para o nosso cantinho. Depois de muita espera começamos a sentir que isso vai acontecer”, diz.

Os reassentamentos de Paracatu de Baixo e Gesteira, que pertence ao município de Barra Longa, têm características diferentes de Bento Rodrigues. Essas duas comunidades tinham aspectos mais rurais. Em Paracatu, um dos desafios no planejamento foi justamente esse aspecto híbrido, uma comunidade que contava com um pequeno centro urbano, mas que também tem entre os atingidos sitiantes com áreas maiores e criações de animais de grande porte. Apesar disso, a experiência de deliberação para escolha de projetos de Bento facilitou o desenvolvimento de modelos parecidos para esses distritos. Em Paracatu de Baixo, as obras de terraplanagem já estão em andamento após o projeto arquitetônico ser aprovado por 97% da comunidade, em setembro de 2018. Foram 95 votos favoráveis e apenas três contrários. O terreno escolhido onde ocorrem as obras fica bem próximo do povoado original. A distância é de apenas 2,5 km.

“Temos conseguido dar um avanço bem maior pelo aprendizado dos arquitetos com a experiência de Bento. Agora eles captam melhor e de forma mais rápida a expectativa das famílias. Mas tivemos também uma diferença na forma de encarar o reassentamento pelas próprias famílias. Elas atingiram um grau de maturidade em relação às primeiras de uma maneira surpreendente. Os moradores estão se educando para definir seus próprios projetos”, explica Alfredo Zanon, especialista de projetos e obras da Fundação Renova.

Isso foi possível por causa das oficinas realizadas junto às comunidades para preparação dos moradores para participarem no processo de deliberação para escolha dos projetos. O modelo de oficinas utilizado em Paracatu foi inspirado pelo trabalho realizado em Bento Rodrigues. Essa experiência possibilitou uma facilidade maior no processo. Se em Bento foram necessários mais de 70 esboços, em Paracatu esse número foi maior. “Em Paracatu tivemos mais oficinas do que Bento. As famílias faziam visitas aos lotes. Faziam eles próprios as marcações no terreno montado com a maquete. E isso fez com o que os moradores se envolvessem mais, o que gerou uma comemoração grande quando o projeto foi aprovado”, completa Zanon.

Assim como ocorre com Bento Rodrigues, as relações de vizinhança em Paracatu de Baixo também serão mantidas.
Foto: Paulo Vitor Machado Nunes/Divulgação

O especialista da Renova destaca que em Bento Rodrigues a comunidade tinha um perfil mais urbano e de ligação com empregos formais em indústria e comércio. Já em Paracatu e Gesteira há uma economia mais ligada à subsistência. “Isso reflete na hora da elaboração dos projetos. As casas têm perfis diferentes. Preferem casas com aspectos mais rurais, com fogão a lenha, um espaço maior de quintal. Gesteira caminha no mesmo sentido de Paracatu com lotes maiores para plantios.” Isso também influenciou na escolha dos terrenos. Enquanto Bento vai ficar mais próximo da sede de Mariana, em Paracatu e Gesteira os terrenos escolhidos são vizinhos aos povoados originais.

Essa ligação mais rural faz com que a mudança para um ambiente urbano, como a cidade de Mariana, seja uma transformação ainda mais profunda no cotidiano vivido por eles. “Lá era uma tranquilidade, eu tinha minhas galinhas, meu terreiro. Essa tranquilidade eu não tenho aqui em Mariana. O que eu mais quero é voltar para o modo de vida que vivia antes da tragédia”, destaca Ednaldo José, morador de Paracatu.

Em Paracatu, com a terraplanagem em andamento, assim como ocorre com Bento Rodrigues, as ruas serão construídas de forma semelhante ao que eram no distrito original, mantendo os mesmos nomes. As relações de vizinhança também serão mantidas. O terreno de Paracatu vai ocupar uma de Área de Diretriz Especial de aproximadamente 96 hectares. Por causa do perfil da comunidade, para fins burocráticos, o local será considerado como um híbrido de rural e urbano o que irá permitir, por exemplo, que os moradores tenham acesso a financiamentos rurais e benefícios agrícolas. Com o projeto arquitetônico da comunidade aprovado, agora estão sendo realizadas as conversas com os moradores para elaboração específica de cada casa.


Ponte de acesso ao terreno de reassentamento de Gesteira; o novo distrito será construído em uma área de 40 hectares.
Foto: Arquivo Fundação Renova

Gesteira

Em Gesteira, o processo de reassentamento está em uma fase mais inicial. As oficinas que já haviam sido iniciadas pela Fundação Renova foram interrompidas e essa mediação passou a ser realizada pelo Ministério Público Federal, em parceria com a ONG Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (Aedas). Ao contrário de Bento e Paracatu, que buscaram o resgate das tradições e a reconstrução o mais semelhante possível do povoado original, em Gesteira, eles optaram pela construção de uma comunidade completamente nova. Lá, serão reassentadas aproximadamente 30 famílias. Houve um atraso na escolha do terreno porque, inicialmente, seriam reassentadas apenas 20 famílias. Com a inclusão de mais 17 lotes a serem reconstruídos, foi necessária a compra de uma área maior. O novo distrito será construído em uma área de 40 hectares. Nesse momento está sendo realizada a deliberação sobre os tamanhos mínimos de cada reassentamento, que deve ter um caráter predominante rural com áreas voltadas para a agricultura familiar.

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Fonte: Agencia Brasil