O estouro do fusível de alta tensão em um dos trens do Subúrbio Ferroviário de Salvador tem custado caro para os usuários do transporte. Com o dano causado, o equipamento precisou ter seu funcionamento suspenso, o que impactou no dia a dia de quem precisa dele para se locomover.

O aviso aparece estampado logo no guichê da compra de passagem, para não pegar ninguém de surpresa: “Só tem um trem funcionando”. Com isso, o tempo de espera subiu consideravelmente. Antes, os passageiros esperavam cerca de 40 minutos, mas agora esse tempo de espera é de 1h20. 

Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO

Uma das passageiras que se sentiu prejudicada foi Luciana Carvalho, de 32 anos. Desempregada há 3 anos, a moradora do Alto do Cabrito desceu do trem na Estação Calçada e saiu correndo em direção à rua. Literalmente. Mas dessa vez não teve nada a ver com uma falha mecânica ou algo assim, era pressa.

Ela tinha uma entrevista de emprego marcada para as 12h e pretendia pegar o transporte das 10h40, mas ao chegar na estação descobriu que o próximo trem só passaria às 11h20. E o pior: antes do encontro ela ainda tinha pendências para resolver na rua.

“Eu vim de casa, mas ia passar na casa da minha mãe antes. A demora do trem chegar atrasou todo meu dia. Tive que sair correndo do vagão para poder chegar em tempo, antes mesmo do horário”, contou Luciana, que trabalha com serviços gerais.

Luciana correu para chegar em tempo para entrevista de emprego. (Foto: Mauro Akin Nassor)

Luciana poderia ter optado por embarcar em um ônibus, mas, segundo ela, a espera no ponto a atrasaria ainda mais. 

“Com todos os defeitos, eu ainda prefiro vir de trem. O ônibus demora de passar e para muito nos pontos. O fato de eu ter desistido de vir resolver coisas na rua ontem (quarta-feira, 4) foi um livramento de Deus. Eu ia pegar aquele trem, naquele horário. Quando fiquei sabendo do que aconteceu me deu até dor de barriga”, lembrou ela, ao falar da explosão no trem, que gerou pânico nos passageiros.  

Por meio de nota, a Companhia de Transportes da Bahia (CTB/Sedur) informou que sempre que há mudança nos horários dos trens, os usuários do transporte ferroviário são avisados na entrada dos terminais ou por funcionários da CTB no momento da compra do bilhete.  

Assim como Luciana, a marisqueira e moradora de São Tomé de Paripe, Railda Barbosa Sena, 55, utiliza o sistema de transporte de trens para poder chegar ao Centro da cidade com mais agilidade. Além disso, é uma opção bem mais barata do que os ônibus, já que custa R$ 0,50, contra os R$ 4 dos coletivos.

Na manhã de quarta (4), ela tinha combinado de ir com a filha em uma feira, no bairro da Calçada, para comprar temperos para o almoço. A jovem foi na frente e, pouco depois, contou à mãe do ocorrido através de uma mensagem pelo celular. “Na mesma hora eu desisti de ir na feira, preferi ficar em casa e deixar para hoje”, contou.

Railda aguardava o trem das 11h20 para ir para casa. (Foto: Mauro Akin Nassor)

Hoje ela finalmente conseguiu fazer as compras que precisava, mas voltou a se sentir prejudicada pelo sistema ferroviário, com o maior tempo de espera dos trens. “Acho que deveriam mudar os trens e colocar veículos mais novos. Ficamos viajando nesses trens velhos e agora, com um trem só, o transtorno só aumenta”, reclamou.

Vai de buzu
Diferente de Luciana e Railda, teve quem preferiu utilizar os ônibus para fugir do longo tempo de espera na estação. Foi o caso do aposentado Almir Astério Reis, 74, que decidiu sair de Alto de Coutos e ir de ônibus até a Calçada logo cedo, enquanto não tinha trânsito intenso na Cidade Baixa.  

“É uma situação difícil, os trens são velhos e isso que aconteceu ontem é frequente. Mesmo assim, eu ainda prefiro pegar o trem para evitar o engarrafamento dos ônibus da Avenida Suburbana. Não é pelo valor, é pelo tempo dentro do transporte”, lamentou.

O estudante David Brito, 19, pensa da mesma forma. Ele é adepto dos trens justamente porque divide seu tempo entre o trabalho de ambulante, vendendo frutas no Lobato, onde mora, e os estudos à noite. 

David utiliza o trem para chegar mais rápido ao seu destino e evitar engarrafamentos. (Foto: Mauro Akin Nassor)

“O trem é bom porque evito o engarrafamento, mas, o estado de conservação deixa a desejar. Deveria ter um transporte do mesmo modelo do metrô, com ar-condicionado e tudo mais. Já me acostumei em andar de trem, sempre venho com a minha mãe fazer alguma coisa na rua, é mais rápido”, revelou o estudante.

Apesar das críticas dos usuários, a CTB informou que realiza cotidianamente a limpeza e manutenção do Sistema Ferroviário do Subúrbio de Salvador e que, atualmente, o sistema conta com 4 trens em operação, em sistema de rodízio, com dois por vez em operação.

Informou ainda que essa rotina foi alterada porque, além do incidente desta quarta (4), que danificou um dos equipamentos, outros dois trens reservas ainda estão em manutenção, com a realização de testes. Por isso, há apenas um trem à disposição.

“O Sistema Ferroviário do Subúrbio é antigo e todos os trens possuem fabricação superior a 50 anos. As peças de reposição não são mais encontradas no mercado, tornando difícil o processo de manutenção do material rodante (trens). Ainda assim, a CTB promove a manutenção sistemática dos trens com equipe própria e com empresa especializada contratada mesmo com toda escassez de disponibilidades de peças, o que torna o sistema atual oneroso”, completa o documento.

VLT
Ainda por meio de nota, a CTB destacou que o atual sistema será substituído em breve, com a futura entrada em operação pelo Veículo Leve de Transporte (VLT), que já teve o seu projeto entregue ao Governo do Estado, seguindo o cronograma de implantação do sistema, desenvolvido pelo Consórcio Skyrail Bahia.

O novo modal terá 20 km e 22 estações, ligando o bairro do Comércio, em Salvador, até a Ilha de São João, em Simões Filho. As obras estão previstas para começar ainda em 2019 e devem ficar pronta sem dois anos.

Vistoria
Através de sua assessoria de comunicação, o Corpo de Bombeiros informou que realiza atividades de fiscalização apenas nas edificações e áreas de risco. E que, assim como estações de metrô e ônibus, as estações de trens não são áreas de risco e possuem Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), que é um documento que atesta a vistoria realizada no local em relação à conformidade com as regras de segurança e prevenção de incêndios.

Esse auto de vistoria é um dos principais documentos que devem ser providenciados pelas empresas e estabelecimentos em geral para que seja possível solicitar e manter a regularização do alvará de funcionamento.

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio