A fé é uma das características que unem as comunidades de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira, povoados destruídos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, na região Central. As comunidades com origens centenárias herdaram a fé católica como um elemento que ultrapassa o valor religioso e representa também um elo cultural de reconhecimento. Em função disso, recuperar capelas e peças sacras que foram afetadas pela tragédia é um importante trabalho no processo de reconstrução da identidade dessas comunidades.

A Fundação Renova, entidade criada após o desastre para coordenar as ações de reparação e compensação, mantém uma reserva técnica onde 2.500 peças ou fragmentos recolhidos nas três comunidades estão sendo acondicionados de forma adequada, grande parte delas sendo restauradas para retornar aos novos distritos quando forem reconstruídos. O trabalho envolve arqueólogos, técnicos de restauração e moradores da própria comunidade.

O trabalho de recuperação das peças, algumas do século XVIII, fez uma busca não só pelos locais próximos de onde ficavam as capelas. Cerca de 15 arqueólogos percorreram quase 100 km na mancha de lama, fazendo escavações em busca desse patrimônio cultural. A limpeza seca das peças encontradas começava já no local. Em seguida, eram encaminhadas para a reserva técnica, onde passavam por uma avaliação, identificação e um isolamento em quarentena, nos casos em que havia contaminação por fungos. A partir de 2018, a Cantaria Conservação e Restauro passou a participar do processo, com o trabalho de pesquisa nas comunidades para identificar as peças e descobrir os valores simbólicos, religiosos e culturais que elas representam para os moradores.

Reserva Técnica, localizada em Mariana, mantém um acervo de 2.500 peças recolhidas após o desastre.
Foto: Gustavo Baxter/Nitro Imagens/Divulgação

O foco na recuperação foi no acervo de quatro capelas: Capela de São Bento e Capela de Nossa Senhora das Mercês, de Bento Rodrigues; Capela de Nossa Senhora da Conceição, de Gesteira e Capela de Santo Antônio, em Paracatu de Baixo. A arquiteta restauradora, arqueóloga e especialista do Programa de Memória Histórica, Cultural e Artística da Fundação Renova, Danielle Lima, explica que as peças passam por uma avaliação para saber da viabilidade de restauração, em seguida são elaborados projetos de intervenções nas peças que precisam ser aprovados pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG). “Nos trabalhos de restauração, a avaliação é se é possível recuperar uma peça, desde que esteja até 50% comprometida. Porém, nesse trabalho específico estamos considerando um percentual um pouco maior, justamente em função da importância dessas imagens para as comunidades. Se formos pensar em termo de material, essas peças são praticamente os únicos objetos que restaram das comunidades que foram destruídas”, afirma.

Essa autorização do Iepha-MG determina até onde a restauração pode intervir nas peças. Se a comunidade discordar do que foi proposto pelo órgão, um novo projeto tem de ser elaborado para atender os anseios dos moradores e passar por nova análise no instituto. “Um exemplo que nós temos é o da imagem de Nossa Senhora da Conceição, de Gesteira. Após a tragédia, os moradores recuperaram a imagem e a lavaram com água para retirar a lama. Isso tirou quase completamente a policromia original da peça, ou seja, a pintura. Os nossos técnicos acharam que era melhor mantê-la sem a pintura, até mesmo para marcar o processo pelo qual ela passou. Mas para a comunidade é muito importante que ela retome o aspecto que tinha anteriormente. Então nós estamos nesse processo de rediscussão com o Iepha”, detalha.

A imagem de Nossa Senhora da Conceição é a que tem um dos maiores valores históricos e artísticos do acervo. Esculpida em madeira no estilo barroco, ela provavelmente foi feita no século XVIII pelo Mestre Vieira Servas, contemporâneo de Aleijadinho. Estudos mais profundos tentam comprovar essa autoria. No acervo existem peças de estilo barroco, estátuas de roca, que são aquelas de tamanho natural e que geralmente são vestidas com tecidos e utilizadas em procissão, e peças mais modernas, em gesso. “Essas peças carregam também um valor imaterial. Algumas peças que têm valores artístico e histórico às vezes têm um valor devocional menor para a comunidade que as mais modernas e comuns”, destaca Danielle.

O que tem ajudado a equipe a entender esses significados é a inclusão dos próprios moradores das comunidades no trabalho de restauração. Hiata Meiriane Salgado e Valéria Aparecida de Souza, de Bento Rodrigues, e Vanessa Aparecida Isaias, de Paracatu de Baixo, atuam como auxiliares de Conservação e Restauração na reserva técnica. Elas participavam ativamente das atividades religiosas nas comunidades e, agora, ajudam a recuperar as imagens dos santos que são devotas. “Eu ajudava a cuidar das imagens, arrumar a disposição delas no altar. Vestir, colocá-las no andor”, ressalta Vanessa. Agora ela ajuda nos trabalhos para trazer as imagens de volta para sua comunidade. “Nós estamos aprendendo a forma de lidar com essas peças, o que é preciso fazer na restauração, mas também como é a forma de conservação para mantê-las em bom estado. Eu quero levar essa experiência para minha vida, fazer uma especialização na área para no dia de amanhã estar, quem sabe, trabalhando com isso”, diz.


Artefatos encontrados por equipes de campo e moradores passaram por processo de limpeza, avaliação e identificação.
Foto: Gustavo Baxter/Nitro Imagens/Divulgação

Hiata Salgado afirma que sua relação com as imagens ficou mais profunda após o trabalho na restauração. “Trabalhando aqui eu comecei a enxergar essas imagens de outra forma, não só no sentido devocional. Estamos conhecendo o valor artístico, histórico. Trabalhando com elas reforça nossa vontade de vê-las de volta no nosso lugar, no novo Bento, no novo Paracatu e lá a gente continuar cuidando dessas imagens”, afirma.

Nesse acervo de 2.500 objetos que estão na reserva técnica, grande parte são fragmentos de peças que impedem uma restauração. “Essas peças têm valores museográficos. Então a decisão do que fazer com elas será feita em um momento posterior, com envolvimento da comunidade, da arquidiocese e do Iepha. Elas guardam uma memória da tragédia e poderão ser utilizadas em um memorial, por exemplo. Mas tudo isso ainda será definido”, conclui a arquiteta restauradora e arqueóloga, Danielle Lima.

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Fonte: Agencia Brasil