Na música Lagoa do Abaeté, Dorival Caymmi cantava sobre as águas escuras e a areia branca do local, no bairro de Itapuã. Um dos cartões postais de Salvador, a lagoa está tomada por baronesas – plantas aquáticas. Nesta sexta, os membros da comunidade da região se uniram para retirar a vegetação que cobre a superfície local.

Os 30 voluntários começaram o trabalho no Abaeté às 8h. Ao fim da atividade, por volta das 13h, havia sido retirada cerca de meia tonelada da planta, segundo o empresário, Leandro Souza, 33, que compôs o grupo. “Foi um trabalho muito árduo, paramos por diversas vezes. A planta fica encharcada, o que complica a retirada”, contou.

Para tirar as plantas, os voluntários entravam na água com redes e garfos. As baronesas foram jogadas próximo à margem da lagoa, informou o empresário. De acordo com o diretor de recursos hídricos e monitoramento ambiental do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), Eduardo Topázio, a vegetação deve ser levada para longe da água para não ser transportada de volta para o local. Leandro disse que já foi solicitado um trator para ajudar na tarefa.

As plantas chamaram a atenção dos moradores porque a baronesa pode ser um indicativo de poluição da água. “Com tanta baronesa assim eu nunca vi. Elas tomaram quase o Abaeté todo. A gente mora aqui e quer preservar. A lagoa quase toda era de baronesa”, afirmou Jucilene Maria Santana, 43, que trabalha com aluguel de cama elástica.

Leandro fez parte do mutirão de retirada das plantas (Betto Jr./CORREIO)

Entretanto, a qualidade da água da lagoa está própria, de acordo com as últimas amostras coletadas pelo Inema, que datam do dia 2 de setembro. O diretor de recursos hídricos e monitoramento ambiental do instituto explicou que as baronesas precisam de nutrientes para se reproduzirem, mas que a fonte das substâncias não é, necessariamente, a poluição.

“As plantas aparecem quando há concentração de nutrientes e geralmente não tem circulação de água. A água parada permite que ela se fixe. Essa fonte pode ser esgoto, mas não parece que esse é o caso da lagoa. Se tivesse a concentração de esgoto, a água seria imprópria”, afirmou.

A existência de algumas plantas não é prejudicial à lagoa, mas o acúmulo destas é ruim para a vida aquática. Por isso, o trabalho de retirada das baronesas é importante para equilibrar o ecossistema local.

“Essas plantas são seres vivos e o ato de limpar é positivo. Quando as plantas morrem, elas se decompõem dentro da água, o que pode reduzir o oxigênio na água. As bactérias da decomposição sequestram o oxigênio e a vida no local se torna difícil”, pontuou Topázio.

Resgate do Abaeté
Além de ajudar a lagoa, o mutirão também desejava resgatar a beleza local e chamar a atenção do poder público. Para a presidente da Associação de Comerciantes, Ambulantes e Baianas de Acarajé, Neucy Pereira, existe um descaso dos governantes com o Parque Metropolitano do Abaeté, onde fica a lagoa.

“Os órgão públicos não tomaram providência para resolver. Aqui os comerciantes vendiam muito, o pessoal deixou de vir. Por isso, queremos resgatar o Abaete. O abaeté tinha várias festas e agora não tem mais. Os guias não trazem os turistas. Precisamos da ajuda, a gente luta pelo parque,  com a queda do movimento a comunidade ficou sem emprego”, afirmou.

Há cerca de cinco anos, Jucilene Maria Santana ganhava até R$ 300 por semana com o dinheiros que os pais pagavam para as crianças brincarem na cama elástica. Agora só R$ 20 consegue por semana. “Tá muito mais difícil. Tem que voltar a ser como era antes”, contou.

Neucy Pereira foi a responsável por juntar os voluntários, como já havia feito há dois anos. “Demorou dois anos para as baronesas voltarem.Tirando, demora um pouco para voltar. Vamos continuar, vai ter outra data”, disse. De acordo com Leandro Souza, um novo mutirão de trabalho deve acontecer na próxima segunda (9).

Voluntários retiraram apenas parte das baronesas (Betto Jr./CORREIO)

Nível da água
Os moradores também apontam que o nível da água baixou na Lagoa do Abaeté. O diretor de recursos hídricos e monitoramento ambiental do Inema explicou que as baronesas podem piorar a situação. “A planta faz secar a lagoa porque faz evapotranspiração. Ela tira a água da lagoa e joga para a atmosfera”, disse.

Ainda de acordo com ele, as construções próximas das dunas impedem que a água da chuva chegue a lagoa. “O entorno dela está todo ocupado. A ocupação e a impermeabilização do solo faz com que o nível da água reduza. Das dunas, a água da chuva vai para a lagoa. Agora, ela cai nas áreas impermeáveis” explicou.

A Lagoa do Abaeté fica dentro do parque Parque Metropolitano do Abaeté, que está situado dentro de uma Área de Proteção Ambiental (APA). No local, o Inema atua para proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. A área possui 12.870m2. O espaço do parque e a lagoa estão abertos ao público 24h por dia.

*Com orientação da Chefe de Reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio