Numa terra onde eventos religiosos, como a Lavagem do Bonfim, muitas vezes acabam virando farra, uma das melhores maneiras de arrecadar dinheiro para as obras sociais de uma igreja acaba sendo fazer uma festa. Foi justamente com este pensamento que o padre Ronaldo, responsável pela Igreja de Santo Antônio Além do Carmo criou a ‘Feijoada do Padre’, que em sua 15ª edição, realizada neste domingo (8), reuniu mais de duas mil pessoas na área de eventos da paróquia.

Nem o bucho cheio de feijoada foi capaz de impedir público pular e dançar ao som do cantor Márcio Victor e das Bandas Samba Trator, Negros de Fé e Samba e Suor. Até o temporal, que levava tudo menos a animação e a fé do público, parece que caiu apenas para formar o cenário perfeito para a performance do vocalista do Psirico no hit ‘Chuá Chuá’.

Uma das mais empolgadas era Maria de Lourdes de Jesus Lima, 65, que há mais 10 anos frequenta, religiosamente, a Feijoada do Padre. Devota de Santo Antônio e fiel à curtição, a professora aposentada defende que o segredo para ter uma vida plena é se jogar nas festas e dançar como se não houvesse amanhã.

(Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

“Se as pessoas soubessem o quão bom é dançar e curtir, todos fariam como eu e não perderiam uma festa. Ainda mais essa festa aqui da igreja que eu frequento, aí a alegria é em dobro. Eu sou tão apaixonada por essa feijoada que o povo me chama de ‘ronaldete’, por se jogar em todos os eventos do padre Ronaldo”, revela a festeira, que chegou a subir no palco para mostrar sua malemolência ao público.

Tal qual sua maior fã, o pároco Ronaldo vive em eterno relacionamento sério com a farra. Conhecido entre os amigos como o padre mais festeiro da Bahia e definindo-se como um “apaixonado pela noite”, ele se orgulha do título e garante que dá para trafegar entre o sagrado e o profano – apesar de sua ocupação. Entretanto, o pároco ressalta, acima de tudo, o caráter social do evento.

“Nós aqui da paróquia tínhamos muitas ideias de projetos, mas poucos recursos para realizá-los. Por conta desta dificuldade surgiu esta festa que nos possibilitou angariar recursos e poder manter as pastorais sociais, da criança e da família, além de serviços como dentista e psicólogo. Por aqui não há segredo, apenas a vontade de realizar nossos sonhos”, revela o padre.

Mistura
Além de uma afeição natural ao ato de farrear, outra característica marcante do povo baiano é o sincretismo. E a festa também mostrou isso, pois, apesar de católica, a feijoada misturou não apenas arroz com feijão, mas várias religiões. Prova disso é que a atração principal do evento, o cantor Márcio Victor, é um adepto do Candomblé. 

“A melhor parte desta festa é que não é apenas a comunidade da paróquia que vem, mas toda a comunidade. Todos de bom coração e que desejam ajudar o próximo são bem-vindos. Se Márcio Victor se colocou à disposição, não vai ser a sua religiosidade que impedirá que ele participe do nosso evento. Eu sou totalmente a favor desta mistura. Às vezes o povo busca criar uma rivalidade entre as crenças, mas, em minha opinião, isso é algo que enfraquece as próprias religiões”, defende o padre.

“Existem coisas que independem de religião, como o amor ao próximo. E eu, apesar de não ser católica, acho belíssimo o trabalho que a Igreja de Santo Antônio Além do Carmo promove e para mim é um prazer vir aqui ajudar a obra e, além disso, poder comer, beber e dançar porque ninguém é de ferro”, conta a evangélica Rosângela Silva, 43.

E o próprio Márcio Victor se mostrou muito feliz em fazer parte do projeto. Ele conta que no mês de seu aniversário, setembro, ele sempre busca fazer um show de caráter mais social. O cantor também se mostrou um devoto de Santo Antônio e revelou que pretende lançar um CD em homenagem ao santo.

Feijoada
A única coisa que conseguia dividir a atenção do público era a feijoada, que contava com o tempero – e a benção – do padre Ronaldo. Liderando uma equipe de 15 pessoas, o religioso fez 200kg da feijoada a partir de sua própria receita, que, assim como a festa, busca atender o paladar e a saúde de todos.

“Às vezes as pessoas vêm e dizem que não vão comer porque são hipertensas ou diabéticas e, geralmente, feijoadas têm muita gordura ou sal. Mas a minha tem praticamente zero de ambas as coisas. Tão importante quanto fazer algo gostoso é dar à todos a oportunidade de experimentar, e essa é uma das nossas grandes preocupações”, conta o padre.

*Com orientação do sub-editor João Gabriel Galdea

Fonte: Correio