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Como ser ninguém na cidade grande é tarefa das mais fáceis. Somos todos.

Difícil é escrever o conto que dá título ao mais recente livro do multitalentoso Luiz Roberto Guedes, contista, cronista, romancista, poeta e personagem de São Paulo, a cidade grande onde ele figura como alguém de imenso prestígio tanto no meio literário – fazendo parte de uma profícua geração de autores malditos e outros nem tanto – quanto entre leitores, que vão de crianças e adolescentes encantados com seus títulos para o público jovem a adultos que prezam por histórias com enredo consistente, trama engenhosa, personagens desenhados e tão bem construídos, e construídos com uma quantidade tão grande de detalhes e com rara precisão, clímax e epifania, enfim, toda aquela coisa que caiu de moda para dar lugar aos textos mais cacetes jamais escritos em nossa literatura, mormente contando a mesmíssima história, em autoficção, de um escritor em crise criativa que não consegue se afastar de seu umbigo, “narrando” suas supostas gestas, numa ode ao fracasso que, em verdade, esconde mal uma imensa vaidade por esses fracassos gourmetizados. Guedes está fora de moda. Como o escritor personagem de um de seus contos, João Vitorino Cruz. Ou ainda, como o genial e fundador Maupassant.

Mas para nostálgicos como eu, gente que não tolera finais abertos demais (nem Tchecov os suportaria, ouso afirmar), tampouco a egotrip de quem não sabe fabular, a mais recente coletânea de contos de Luiz Roberto Guedes, Como Ser Ninguém Na Cidade Grande, editada pela Penalux e lançada no final do ano passado, é uma perfeita saída de emergência – dessas de shopping que dão direto para a rua.

Escritos ao longo de vinte anos e publicados anteriormente em revistas, sites literários e em livros já esgotados, os contos de “Como Ser Ninguém” revelam o contista, mas sobretudo o cronista, sem rival, da cidade de São Paulo, herdeiro da coroa de Marcos Rey, de quem empresta o jeito de olhar (irônico e cúmplice a um só tempo) e o interesse pelos tipos urbanos, pelo lumpesinato, pelos desvalidos, pelas figuras noturnas e neuróticas de uma cidade que passou por uma industrialização quase súbita e violenta que pariu as mais excêntricas  e mesmo sequeladas criaturas de um século doente. Outra forte influência é a de mestre João Antônio, mestre (mais cronista do que qualquer outra coisa; quase não há um conto seu que não seja jornalístico) das ruas, observador arguto dos ninguéns da cidade grande, autor dedicado a Lima Barreto, dono de uma literatura-verdade que nos faz pensar no realismo do cinema russo de antanho, ficções no melhor estilo docudrama.

Mas os autores supracitados são apenas um décimo da evidente leitura vasta do autor que incorpora em seus textos trucagens de criação e de texto literário, pastiche, paródia, o uso do objet trouvé, visita a gêneros já estabelecidos (no conto “Tango com a Vênus perneta” lemos uma “sub-literatura” em verdade feita pela própria personagem da história, uma bela argentina viúva de um capitão, vítima de um acidente que lhe suprimira uma das pernas e que, “atualmente”, aluga quartos e escreve “novelitas de amor”, “libritos de bolso”, assinando com nomes do tipo “Madelyn Something, Emmanuelle Quelquechose (!), Johanna de Las Tantas” entre outras criações do sempre sarcasticamente inventivo criador da viúva novelista) e uma capacidade imaginativa espantosa – seus personagens têm nome, endereço e são desenhados, repito, tamanha a preocupação do autor, um miniaturista chinês, com detalhes; as situações são todas imprevisíveis e, por mais absurdas que sejam, o contista, com a destreza, com a perícia que só pode ser resultado de muito laboratório, faz que tudo se mantenha sob o jugo da mais absoluta verossimilhança – suspension of disbelief, diria Coleridge.

O conto que dá título à coletânea tem essa “imaginação concreta” muito característica do autor que, por mais criativo que seja, belo exemplar da espécie fabuladora de Nancy Huston, jamais se distancia um milímetro sequer da realidade, e de “sua” realidade, famoso flâneur do Centro Velho da maior cidade do Brasil.

O velho escritor João Vitorino Cruz decide visitar a editora que, há algum tempo publicou um livro seu, um romance. Mas a sagacidade de Guedes faz que o velho escritor palmilhe as primeiras linhas da história não como um escritor, mas como paciente médico de uma operação ultramoderna que tem como objetivo dizimar pedras nos rins. Vitorino é um ninguém em duas frentes: na condição de um homem sem muitos recursos, vindo do mato, e na pele do escritor de outra geração e de cidade pequena. Guedes descreve com mesma acurácia o engenho platinado das máquinas de última geração do hospital da cidade grande e o edifício onde funciona a moderna editora que publicara, há muito, alguns livros do paciente escritor – a paridade entre hospital e editora, ambos apresentados depois de uma repaginada futurística em suas fachadas, é um grande achado.

No outro dia, o velho escritor se acha disposto a visitar, originais de seu novo romance debaixo do braço, a HB editorial, “sua” editora. O novo “look” do editor não passa despercebido por João Vitorino, descrito por Guedes como “um velhote de crespos cabelos brancos, a cabeça parecendo grande demais para o tronco franzino, o jaquetão que já devia ser peça de museu, a gravata borboleta que, pelo aspecto, vinha passando de pai para filho havia gerações”. Mas vamos ao “look” de Heraldo Brasão, o editor com mania de usar termos e expressões em inglês (sua mente sequelada pelas drogas sintéticas, as obras que têm lido ultimamente, se acha voltada para a prosódia dos best-sellers): “cabeça raspada, queixo duplo, um discreto brinco de brilhante no lóbulo da orelha esquerda. Mais pós-moderno do que doze anos antes”. E logo adiante o autor nos sai com uma bela imagem: “por trás dele, além da parede de vidro, o horizonte denteado de edifícios reluzentes, aço e vidro refletindo nuvens”.

Pois bem, é claro que esse “novo” editor não vai aceitar publicar os originais de um homem velho do Brasil Central – pensei nos falecidos Gilvan Lemos e Hélio Pólvora, grandes prosadores sem a menor chance no mercado dos jovens autores de Facebook –, e o que se dá é algo digno de um mestre da imaginação e da paródia, com destaque para a capacidade invulgar de observação da realidade e de transmutação e expressão desse olhar, expressão em linguagem escrita, uma expressão precisa: HB sugere a João Vitorino a leitura (dá um exemplar de presente) de alguns livros mudernos, como A Mulher Dentro de Mim, “uma espécie de diário do escritor trans Fiona Fox-Jones, que já foi prostituto” e Como Ser Ninguém Na Cidade Grande, de Mel Feldman, provavelmente um “very nice guy” também.

Ora, o que Guedes faz é revelar, sem filtros, um editor abduzido pela indústria norte-americana que tenta ensinar um Zé-ninguém a ser um Zé-ninguém alienado, e esse Zé-ninguém é um escritor (do Mato Grosso), oras. Quem mais? Revela ainda o contista a tendência em voga no mercado editorial de todo o mundo: investimento pesado em autores, não em obras exatamente (e que se dane o close reading), e em autores historicamente excluídos do mercado, um mercado que se tornou sociológico e pouco literário. Detalhe: o leitor só tem acesso às falas do editor, e deduz a interlocução do escritor, afinal de contas, que voz pode ter um homem pobre, escritor, do Mato Grosso, e recém operado? – outra manobra de mestre de LRG que, aliás, é publicitário, o que explica, em parte, sua facilidade em se comunicar com o leitor por meio de textos claros, objetivos e sem penduricalhos (sua escrita pode parecer naïf, e talvez o seja, como a escrita do já citado Marcos Rey, mas porque o autor não parece interessado em criar um estilo afetado que soe como “alta literatura”: o interesse de Guedes reside no compartilhamento de sua prodigiosa imaginação para o maior número de pessoas, com a mais variada formação intelectual, da forma mais honesta possível). A publicidade explica ainda a profusão de boas ideias que o autor usa em apenas um conto, quando a partir delas seria possível escrever romances.

 “Como Ser Ninguém” é a melhor porta de entrada para a obra de um autor substantivo da literatura brasileira e paulista, uma vez que o livro é um apanhado de contos com as principais características do principal cronista de São Paulo da atualidade: as já citadas tramas engenhosas, personagens consistentes, absoluto domínio da redação literária – totalmente despida de divagações –, pastiche, humor, erotismo. Aliás, poucos autores brasileiros hoje conseguem descrever ou criar uma situação erótica com tamanha perícia quanto LRG – um dos registros de tal qualidade pode ser encontrado no conto da bela e desprezada viúva argentina, conto que me fez pensar no talento de João Ubaldo Ribeiro, que era publicitário também, como criador de cenas eficientes de erotismo, lidas, por exemplo, no já clássico “A casa dos budas ditosos”.

Sorte nossa o Luiz Roberto Guedes não ter voltado à sala de Heraldo Brasão.

*Texto gentilmente cedido pelo escritor e crítico literário ao CORREIO.

Fonte: Correio