Escritores, editores e organizadores da Bienal do Livro lançaram dois manifestos nesse domingo (8), após a tentativa do prefeito carioca Marcelo Crivella (PRB) de censurar títulos com a temática LGBT. Um deles é um vídeo entoando a letra de “Apesar de Você”, composição de Chico Buarque que virou símbolo contra a ditadura militar.

Quem organizou a iniciativa foi a jornalista e escritora Thalita Rebouças, autora de “Confissões de um Garoto Tímido, Nerd e (Ligeiramente) Apaixonado”, que está entre os 14 mil exemplares distribuídos a leitores na feira pelo youtuber Felipe Neto neste sábado (7).

O comediante também é um dos que interpretam trechos da canção, assim como Laurentino Gomes, Miriam Leitão, Fabrício Carpinejar e Pedro Bandeira. “Hoje você é quem manda; Falou, tá falado; Não tem discussão, não; A minha gente hoje anda; Falando de lado e olhando pro chão”, diz a música.

Veja o vídeo:

 
 
 
 
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Nosso manifesto. “Apesar de você”, música do sempre genial @chicobuarque, infelizmente tão atual, nos representa. #naovaitercensura Mais de 20 autores. Todos contra a censura. Produção: @ana_lima_f @lulytrigo @laurentino.gomes2018 @felipeneto @barbaraescreve @fernandania @fabriciocarpinejar @matheusrocha @vitormrtns @raphael_montes @lulytrigo @gabsbarreira @irisfigueiredo @viniciusgrossos @lucasdlrocha @claraalvesg Otávio Junior @solmirandadefato Igor Pires @babidewet Miriam Leitão @felcastilho @carinarissi @felipecabralrj Pedro Bandeira

Uma publicação compartilhada por thalitareboucas (@thalitareboucas) em 8 de Set, 2019 às 5:20 PDT

 

Um segundo manifesto foi lido por Thalita Rebouças neste domingo ao final de uma entrevista coletiva para divulgar o balanço do evento. Ele foi assinado simbolicamente por ao menos 75 escritores, só entre os que participaram do Café Literário, um dos espaços de debate da feira.

“Nos últimos dias, a Bienal se tornou um abrigo democrático, ao lado de 600 mil pessoas que prestigiaram o evento, contra as insistentes tentativas de censura”, diz o texto.

“Se engana quem pensa que o alvo é a Bienal Internacional do Livro. O alvo somos todos nós, cidadãos brasileiros, pois não precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro não precisa de tutor. Precisa de educação para que cada um possa fazer suas escolhas com consciência e liberdade.”

E continua: “Foi com alívio e muito orgulho que recebemos as duas decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) neste domingo […] Do contrário, se criaria uma jurisprudência que colocaria todos os eventos culturais, autores, editoras e livrarias do Brasil à mercê do entendimento do que é próprio ou impróprio a partir da ótica de cada um dos 5.470 prefeitos do país” (leia a íntegra abaixo).

O texto se refere às decisões dos ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes que derrubaram a medida do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro autorizando a prefeitura a recolher obras, em resposta a pedidos da Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, e da empresa que organiza o evento. O município afirmou que iria recorrer.

Entre os escritores que assinaram esse segundo manifesto estão também Luiz Ruffato, Heloisa Buarque de Hollanda, Ana Maria Machado, Mary Del Priore, Sérgio Rodrigues, Lilia Schwarcz e Raquel Landim.

Leia o manifesto na íntegra:
“A Bienal Internacional do Livro Rio é a oportunidade que temos, a cada dois anos, de nos reunirmos, encontrar nossos públicos, nos inspirar e debater livremente sobre todo e qualquer tema, sem restrições e com empatia. Um evento de conteúdo qualificado e diverso, reconhecido nacional e internacionalmente como o maior festival cultural do Brasil.

Nos últimos dias, a Bienal se tornou um abrigo democrático, ao lado de 600 mil pessoas que prestigiaram o evento, contra as insistentes tentativas de censura.

Se engana quem pensa que o alvo é a Bienal Internacional do Livro. O alvo somos todos nós, cidadãos brasileiros, pois não precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro não precisa de tutor. Precisa de educação para que cada um possa fazer suas escolhas com consciência e liberdade.

Foi com alívio e muito orgulho que recebemos as duas decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) neste domingo (8/9), impedindo que a Bienal Internacional do Livro continuasse sofrendo assédio à literatura e aos seus leitores.

Do contrário, se criaria uma jurisprudência que colocaria todos os eventos culturais, autores, editoras e livrarias do Brasil à mercê do entendimento do que é próprio ou impróprio a partir da ótica de cada um dos 5.470 prefeitos do país.

Encerramos essa edição histórica da Bienal Internacional do Livro Rio com o coração cheio de orgulho e determinação. A Bienal não acaba hoje. Ela seguirá em cada um de nós todos os dias. O festival foi memorável. Deu voz e ouvidos a todos os públicos. Reuniu e celebrou a cultura junto com autores, artistas, pensadores, líderes sociais, religiosos, jornalistas, acadêmicos, ativistas, e muitos outros.

Viva a Bienal do Livro Rio! Viva a cultura! Viva a liberdade e a democracia!!”

Fonte: Agencia Brasil