A vida de Martín Rodríguez anda tão corrida que ele só teve tempo de conhecer as praias de Salvador no último final de semana, quando o Vitória deu ao elenco dois dias de folga. O goleiro chegou à Toca do Leão em 20 de junho, e logo tornou-se titular, resolvendo um problema crônico da posição, uma das mais carentes do time.

Nesta entrevista exclusiva ao CORREIO, o uruguaio fala do momento que vive e das expectativas que tem com a camisa do Leão – entre elas voltar à seleção de seu país.

A defesa havia sofrido 19 gols em oito jogos antes da sua chegada. Agora, são oito em 13 jogos. Você tem ajudado nesses números?

Quando cheguei sabia que o clube não estava muito bem nos números da defesa, então quis ajudar. Acho que o time todo melhorou. Na defesa, de fato, melhorou muito. Temos que seguir assim porque o objetivo do clube é o acesso à Série A. Como não somou muitos pontos antes da pausa (da Copa América), agora tem que recuperar.

Como o Leão chegou até você?

Por um empresário que falou com o presidente (Paulo Carneiro). Ele mostrou uns vídeos, gostaram e, quando fizeram a proposta, eu já tinha estudado o Vitória. Não tive muita dúvida. Era um desejo meu jogar no Brasl por ter um mercado muito bom e o Vitória é um clube com muita visibilidade. Sabia que estava numa situação complicada, mas vai melhorar.

É melhor jogar num clube de 2ª divisão daqui do que num de 1ª divisão do Uruguai?

Aqui, os jogos todos são televisionados, todo mundo te observa, é um mercado muito maior. O Vitória, se conseguir chegar à Série A, aí, sim, te digo com certeza que vai ser muito, muito melhor que a 1ª divisão do Uruguai.

Aqui, os jogos todos são televisionados, todo mundo te observa, é um mercado muito maior

Pretende refazer  o caminho de Gatito, que chegou aqui desconhecido e hoje está na seleção paraguaia?

É isso o que te dá o futebol brasileiro: poder ser mais observado. Quero ganhar meu espaço aqui, com ajuda de todo o time, e quero que sejamos reconhecidos por títulos, por acesso à Série A, copas internacionais… Esses são os objetivos que tenho aqui. Quero deixar uma marca.

Martín quer aproveitar visibilidade do futebol brasileiro (Foto: Marina Silva / CORREIO)

Antes de vir, sabia que a posição de goleiro era uma das mais carentes?

Obviamente que se um time busca um goleiro é porque tem alguma dificuldade. Acho que aqui tem bons goleiros, mas é uma posição muito difícil. Se a bola entra, somos o pior; e se a defendemos, somos o melhor. Todo o time estava em um momento ruim, não acho que tenha que cair tudo sobre o goleiro.

Sentiu pressão por isso?

Antes de tudo, senti muita alegria de estar aqui. Se você joga alegre, as coisas saem melhor, então pressão não senti porque aqui temos tudo para ganhar. 

Ninguém aqui te conhecia na época da contratação. Você percebeu isso?

Sim, mas é normal. O futebol uruguaio não é muito transmitido. Tive a sorte de jogar copas internacionais, pude ser mais visto aqui. Senão, só jogando lá, não tem possibilidade.

Sim, mas é normal (não ser conhecido no Brasil). O futebol uruguaio não é muito transmitido

Qual foi sua melhor partida na carreira?

Acho que os jogos pela Libertadores (2018) contra o Olimpia, principalmente o no Uruguai. Fiz um jogo espetacular contra um time poderoso da América, muitos jogadores deles ficaram surpreendidos e as pessoas ficaram muito curiosas de saber quem era o goleiro. Poderia dizer ainda alguns jogos do Mundial Sub-20, no Egito, ou do Sul-Americano (ambos em 2009).

Quem é Martín Rodríguez?

Martín é um homem que trabalha muito por ter muitos sonhos no futebol e que cuida muito da família. Sempre estou com elas, minha esposa (Lucía) e minha filha (Abril). Trabalho para que elas vivam bem. Sou uma pessoa humilde, sei do lugar de onde vim e onde estou. Sempre que me acontece algo de bom trato de olhar para trás, para tudo o que custou.

Goleiro formou-se pelo Montevideo Wanderers (Foto: Marina Silva / CORREIO)

Sua carreira iniciou no  Montevideo Wanderers. Era o seu clube de infância, do seu bairro, de sua família?

Fiz toda a minha base lá, dos 11 anos ao profissional, e por eles cheguei à seleção. Não é o clube do meu bairro, sou de Malvín Norte, um bairro longe do Prado, mas o Wanderers tem uma mística, uma cultura de revelar bons jogadores. Acho parecido com o Vitória nisso. De lá saíram muitos atletas para a seleção, como Fernando Muslera, Jorge Martínez, Lucas Torreira… (O treinador) Óscar Tabárez e todo o corpo técnico da seleção saíram de lá.

O Wanderers tem uma mística, uma cultura de revelar bons jogadores. Acho parecido com o Vitória nisso

Como foi ser reserva durante muitos anos?

Fiquei na reserva de goleiros importantes como o próprio Muslera (atual titular do Uruguai) e Fabián Carini (antigo titular). Tenho uma relação de amizade forte com eles. Estive com Muslera na concentração do hotel aqui em Salvador na Copa América. Desde pequenos treinamos juntos. Com Carini, que jogou por anos na Europa, aprendi muito.

Você fez parte do ‘processo Tabárez’ e chegou até a seleção. Como foi?

É a melhor coisa que pode acontecer com o jogador. O uruguaio tem muito respeito pela seleção, você percebe pela maneira como jogamos, cada vez que entramos em campo deixamos a alma e algo mais, e é isso que nos caracteriza. Tabárez é uma pessoa muito especial. Foi quem organizou tudo, e o povo uruguaio o admira muito por ter exigido respeito e humildade dos atletas.

Chegar à seleção é a melhor coisa que pode acontecer com o jogador uruguaio

Por que Tabárez é tão admirado pelos atletas?

Vou te dizer uma coisa: Tabárez conhece desde Godín (capitão uruguaio) até o reserva do sub-15. Quando cheguei no sub-20, no meu primeiro dia, chegou Tabárez e me disse: “Martín, como vai?” E era Tabárez, que trabalhou no Milan, na seleção… Então te surpreende. Ele assim é com todo mundo, muito respeitoso. Acho que, a nível mundial, Tabárez é um dos maiores. Foi ele quem se lembrou de mim aqui (o Uruguai treinou no Barradão na Copa América). Eu estava na academia trabalhando e saí, e foi ele quem me viu e me chamou!

Tabárez conhece desde Godín (capitão uruguaio) até o reserva do sub-15. O povo uruguaio o admira muito

Essa característica de se entregar em campo é o que nós, brasileiros, mais vemos no jogador uruguaio.

É o que nos caracteriza. Me passou o mesmo quando lesionei o joelho: eu rasguei o joelho e, quando fui pular, vi que não tinha mais força. Tive que pensar no time e sair, mesmo sem querer. No jogo seguinte eu queria voltar, mas o médico não deixou. O uruguaio sempre quer estar em campo, não tem perna quebrada, nem machucado, não há nada.

Acha que ainda pode voltar à seleção?

Sonho tem que se sonhar sempre. Não se pode impor a você mesmo essa barreira. Penso que tenho uma carreira feita na seleção, então fazendo as coisas certas aqui e com o Vitória subindo para a Série A tudo pode acontecer, sim.

Martín disputou os Jogos Olímpicos com Cavani (Foto: Marina Silva / CORREIO)

O que disse a Cavani naquele encontro no Barradão?

Fomos companheiros nos Jogos Olímpicos (em Londres-2012) e ele havia perdido um pouco do rastro de onde eu estava. Ele disse: “tente aproveitar a oportunidade”. Cavani disse que era um clube muito bom pela estrutura que estava vendo, disse que sair do Uruguai é muito importante para melhorar como profissional.

Cavani me disse que o Vitória era um clube muito bom e que eu tinha que aproveitar essa oportunidade

Encontrou com eles no hotel da seleção?

Foi muito curioso: eram meus primeiros dias aqui e estava hospedado no mesmo hotel deles. Fiquei muito tempo com Muslera. Compartilhei muitas experiências com Lodeiro também, com Coates, com Martín Campaña. São da minha idade, jogamos juntos no Mundial sub-20. Jogador uruguaio é humilde desde pequeno, não tem essa de ‘sou Suárez, sou Cavani’, não vou falar com você. Pelo contrário, a gente se fala muito, compartilha o mate (risos).

Jogador uruguaio é humilde desde pequeno, não tem essa de ‘sou Suárez, sou Cavani’, não vou falar com você

O que acha do Brasil?

É um país muito grande (risos). É incrível como só Salvador tem quase a mesma população de todo o Uruguai. É tremendo! Mas meu país não o troco por nada (risos).

Gosta muito de parrilla?

Gosto muito, mas à lenha. Carvão, nunca! Ainda não encontrei nenhuma que preste em Salvador, eu mesmo que tenho que fazer em casa. Mas não desisti. Tenho o (Felipe) Gedoz para dividir essa comigo, ele é mais uruguaio que brasileiro, pois jogou muitos anos lá (cinco anos).

Ainda acredita no acesso?

Temos que manter a esperança e seguir trabalhando. Acho que com Amadeu melhoramos muito, o time está mais compacto, estamos jogando mais firmes e conseguindo os resultados. Acho que se o time ganhar duas, três, quatro seguidas pode ser um grande impulso para que, nos últimos jogos, tenhamos as chances de subir.

Se o time ganhar duas, três, quatro seguidas pode ser um grande impulso [para o acesso]

Fonte: Correio