Com roupa de garçom, um homem negro faz um churrasco em cima de um simulacro de laje. Roupas penduradas em um varal e até fios enrolados junto a um poste representando uma ligação ilegal de energia completam a paisagem.

O cenário fez parte da decoração de uma festa dos médicos cooperados da Unimed em São José do Rio Preto (438 km de São Paulo). A confraternização, que aconteceu na noite desta sexta-feira (6), teve como tema “No país das Maravilhas” e teve diferentes cenários.

Vídeos da festa foram publicados em redes sociais e geraram reações críticas de pessoas que viram no cenário preconceito ou insensibilidade com os moradores de comunidades pobres.

Uma das pessoas que compartilhou o vídeo, a deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL) classificou a decoração da festa da Unimed como um “deboche à vida nas favelas e nas periferias”.

“É revoltante que as pessoas não tenham o mínimo de bom senso e empatia ao fazer da vida da maioria da população motivo para chacota”, disse a deputada.

As imagens do evento foram recebidas com críticas também por outros internautas. “Atender na favela tem muito médico que não quer, mas fazer stories achando a representação cênica da favela exótica eles adoram! Esse povo me embrulha o estômago”, escreveu um deles, Jairo Gonçalves.

Em um dos vídeos, publicado no Instagram por uma assessora da Unimed, o espaço caracterizado como favela é classificado por ela como “o mais criativo da festa”. “Olha, tem até um varal”, diz a assessora durante o vídeo, sendo em seguida complementada pelo profissional que projetou o espaço: “E churrasquinho na laje, mostra lá”.

No vídeo, é possível ver uma mulher negra com roupa de baiana de acarajé manuseando um tacho em frente a um cenário de botequim de periferia.

Dentro de um cenário descrito na legenda do vídeo como “casa de favela”, uma garrafa de refrigerante vazia repousa sobra a pia. Junto ao varal, há um isopor em que está escrito “juju”, suco de fruta congelado também chamado de geladinho ou sacolé.

Em nota, a Unimed São José do Rio Preto informou que o tema da festa, “No país das maravilhas”, teve como objetivo estabelecer um paralelo entre o livro do escritor britânico Charles Lutwidge Dodgson – conhecido por seu pseudônimo, Lewis Carroll – e a realidade brasileira. E que procurou demonstrar a pluralidade do Brasil.

“A cenografia do evento usou recursos lúdicos com a intenção de despertar entre os convidados uma reflexão crítica a partir da representação de um mundo aparentemente sem sentido, como é o mundo de Alice. Assim, o evento destacou as maravilhas brasileiras sem abrir mão de fazer contundentes críticas sociais”, informou.

A Unimed ainda informou ser uma empresa inclusiva, plural e comprometida em promover a diversidade em todos os seus projetos. “Infelizmente, pessoas que não participaram da festa deturparam, a partir de fotos e vídeos publicados em redes sociais, a interpretação do propósito do evento com citações errôneas”, afirmou a nota.

A obra de Carroll, publicada em 1865, trata de uma menina, Alice, que, atrás de um coelho, se embrenha por um mundo fantástico de animais e objetos falantes governado por uma rainha tirânica, com alusões alegóricas à Inglaterra vitoriana e provocações a respeito da lógica convencional.

Fonte: Agencia Brasil