Malucos, malandros e espertalhões de todos os tipos habitam uma cidade do Recôncavo onde o prefeito quer transformar a Bahia em República e fazer do seu governador, ACM, o presidente. Tem mais: fanático e megalomaníaco, o tal prefeito que se autodenomina AMB criou até uma moeda especial, o aceeme. Quem quisesse um acarajé, por exemplo, o teria por singelos 5 aceemes, enquanto que o coco gelado seria desfrutado por 1 aceeme e 20 aceeminhos.

A história com personagens reais, outros nem tanto, faz parte do novo romance do escritor e jornalista baiano Fernando Vita, 70 anos, batizado de ‘República dos Mentecaptos – Uma hilariante história de mandriões, cortesãs, espertalhões e certos valdevinos de modo geral’ (Geração Editorial | 320 páginas | R$ 39,90). Com lançamento marcado para quinta-feira (12), às 18h, na Livraria Saraiva do Salvador Shopping, a ficção com traços reais traz, entre os personagens, o senador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), com quem Vita conviveu por 50 anos.

“Ele próprio, quando vivo, várias vezes me disse, diante de algum novo feito ou malfeito: ‘doutor Vita, eu sou um personagem de romance’”, conta Vita, em entrevista ao CORREIO. No papo, o escritor nascido em Santo Antônio de Jesus fala sobre essa ficção que é quase uma autobiografia; explica a despreocupação com o politicamente correto; lembra de quando era só um “repórter calça-curta”; e reflete sobre as loucuras que escreve. “O mundo, e não é de agora, é um imenso hospício”, diz. Confira.

Logo no início, você dedica República dos Mentecaptos a João Ubaldo. Pode contar um pouco mais sobre essa influência?
Ao nosso João Ubaldo – “quente, galante, feio e irresistível” –  no dizer de Fernandinha Torres, como está em uma das dedicatórias do República dos Mentecaptos, eu devo um dos empregos mais divertidos entre os tantos que já tive na vida. Nós já tínhamos trabalhado juntos na redação do finado Jornal da Bahia, ele escrevendo a fantástica Satyricon, a sua inimitável coluna  no jornal, e eu começando a bater pernas pelas ruas da Bahia como repórter calça-curta – aqui estamos a falar do final dos anos sessenta. Então João Ubaldo cria, com alguns amigos, uma incrível agência de propaganda, de nome Unigrafe, e me convida, com o aval de James Amado, irmão de Jorge, para trabalhar lá como redator.

Imagine que loucura – já que estamos de certa forma a tratar de malucos! – era trabalhar tendo João Ubaldo como patrão! Tanto que até hoje tiro onda: na minha primeira carteira do trabalho  não tenho pura e simplesmente assinaturas do empregador, e sim valiosos autógrafos. 

Além de João Ubaldo, você cita Fernando Sabino e o que o leitor encontra, nas páginas seguintes, é uma escrita quase sem ponto de continuação, de tirar o fôlego, tal qual fazia Saramago. O que dizer sobre essas referências?
O primeiro, de outro João, o Falcão, que escreveu, entre tantos livros, O Partido Comunista que eu conheci, com a autoridade de quem tinha sido motorista de Carlos Prestes, o grande líder comunista brasileiro; e o segundo, de João Ubaldo Ribeiro, nem preciso dizer porque, de sorte que a minha carteirinha profissional vale, por tais autógrafos, muito mais que vale o seu pobre portador…

Já Fernando Sabino, o primeiro romance que eu me recordo de ter lido, ainda menino, foi o seu Encontro marcado. De lá para cá não parei mais de ler esse cara, como o fiz com Ubaldo, desde a sua estreia como romancista, com o Setembro não faz sentido. De Saramago digo o mesmo, li tudo, e mais tivesse ele escrito e eu estaria a ler ainda agora. Se me influenciaram ou influenciam, dou-me por feliz, e que Deus os proteja e guarde em seu reino por essa imensa dádiva e por essa impagável dívida.

Você solta o verbo e não se preocupa com a escrita politicamente correta ao descrever Todavia, cidade para onde o protagonista “não volta nem fodendo”. Ela foi inspirada em sua cidade, Santo Antônio de Jesus?
Quisera a minha Santo Antônio de Jesus natal ter tantos loucos quanto a mítica Todavia, não, não os tem, muito embora há muito venha se esforçando para isso… Quanto à despreocupação da minha escrita com o politicamente correto, digo que é a mesma que tenho quando falo. Escrevo como falo, falo como escrevo e, vez por outra, me vejo entrando em conflito com o tal PC, sem maiores danos, contudo, para nenhuma das partes. Pelo menos, até agora…

O livro não é dividido em capítulos, mas em “hospícios” e “fados”. Que mundo “louco” é esse?
Pois é! O mundo, e não é de agora, é um imenso hospício, diante do qual a célebre Casa Verde de O Alienista de Machado de Assis, na Itaboraí dos tempos de dom corno, não passa de um hospiciozinho pequenininho, de merda, com uns poucos e pacíficos aluados e tantans… Quanto aos fados, são eles que regem as nossas vidas, nos mandam e aboiam, vezes poucas às portas do paraíso,  outras muitas no caminho do brejo, como vacas ceguetas a se foderem e a se magoarem com os fados.

Seu romance se passa em uma cidade fictícia, ao mesmo tempo em que faz referência a “esse tal de Fernando Vita” e até cita sua data de nascimento. O compromisso com a verdade, marca do jornalismo, influenciou a decisão de criar uma obra que é quase uma autobiografia ficcional?
Diria que sim, que é um romance de autoficção, palavra nova e muito na moda, o que me confere o direito de usar personagens reais, outros nem tanto, uns ainda vivos, outros muito vivos, e ainda uma tanta outra porção já desencarnada. Vezes os apresento com nomes, sobrenomes e DNAs, como é o caso de ACM, outras aparecem com graças que se assemelham às suas reais, outras ainda com nomes fictícios.

Como você disse, um dos personagens reais do livro é ACM, com quem você conviveu por quase 50 anos e sobre quem você conta histórias “reais e imaginadas”. Por que incluir ACM nessa obra?
Porque ele próprio, quando vivo, várias vezes me disse, diante de algum novo feito ou malfeito: ‘doutor Vita, eu sou um personagem de romance’. E eu, comigo mesmo, comentava: ‘a esperar por páginas de livro, porque se ACM não existisse, teria que ser inventado’. Cheguei algumas vezes a escrever isso, quando aqui e ali me pediam que falasse ou escrevesse sobre ele. Na verdade, no República dos Mentecaptos eu não conto histórias de ACM, ele as protagoniza, ao longo da trama, ele próprio em pessoa ou por meio de figuras interpostas, como o seu admirador e copiador  nato, o prefeito de Todavia, o Augusto Magalhães Braga, que mesmo sem ser seu parente, nem um simples aderente, tanto queria ser um ACM cagado e cuspido em sua província que até se autodenominava com sigla AMB, veja que sacana o alcaide…

Ele próprio, quando vivo, várias vezes me disse, diante de algum novo feito ou malfeito: ‘doutor Vita, eu sou um personagem de romance’. E eu, comigo mesmo, comentava: ‘a esperar por páginas de livro, porque se ACM não existisse, teria que ser inventado’.

É possível eleger uma dessas histórias como a mais marcante de seu contato com ACM?
O próprio Antonio Carlos a desova de viva voz, não com tantos detalhes, mas como exemplo das suas artes, nas páginas do República. E a repetia com muito gosto quando vivo. Tinha um deputado baiano – hoje já não entre nós, daí preservarmos o seu nome, que pilheriar com defunto não é boa prática em cristãos como eu – que era chegado a umas traquinagens nas artes das saliências, como se diz, tipo ter namoradas fora do casamento, montar casas para raparigas, apesar de ter uma esposa fiel e muito brava no combater esses quesitos, tanto que os quebras paus entre ambos eram frequentes, para alegria e divertimento dos vizinhos. 

E o que aconteceu?
Queixas amargas foram levadas pelo namorador a ACM, dizia que não estava mais a aguentar os desaforos, que a sua esposa era uma fera, coisas e tais. ACM então o aconselhou a ter voz altiva, falar mais alto que ela, impor-se como macho, fazer como ele, ACM, usava fazer em tais circunstâncias. O deputado aqui sem nome resolveu acatar o conselho do seu velho líder político. Uma noite, o nobre parlamentar chegou em casa, altas horas, a cheirar a cheiro de mulher, a esposa esbravejou, ele tentou esbravejar, ainda mais bravo que ela, recebeu pelos cornos um vaso de louça de boa bitola e peso, levou pontos cirúrgicos na fachada, deu-se mal.

Queixou-se então ao seu conselheiro, ACM, de como se dera a porfia e como ele se estrepara, do primeiro ao quinto, por tentar fazer como seu mestre lhe ensinara. ACM riu por demais e sentenciou-lhe: ‘É, meu caro deputado, meu nobre amigo, coisas que dão certo com ACM, só com ACM, e mais ninguém, dão certo’.

De onde veio a inspiração para criar AMB, esse prefeito que tem o “plano maluco” de transformar a Bahia em República?
De uns tantos muitos prefeitos que cercavam ACM e viviam – na maioria das vezes por puro puxa-saquismo, outras não – a dizer-lhe que ele tinha que chegar um dia à Presidência da República, que ele seria o presidente que o Brasil precisava, coisas que tais. ACM, invariavelmente, e pacientemente, (coisa rara com os puxa-sacos!) lhes dizia: ‘Meus caros, chegar à Presidência da República não é desejo. É destino’. E desconversava.

Qual foi sua principal preocupação ao traçar esse retrato político da Bahia e do Brasil, no livro?
Distrair-me e tentar distrair os meus parcos leitores. Se consegui ou não, só esses minguados heróis poderão responder.

Há um leitor “abelhudo” que entra na história e conduz a narrativa com certo menosprezo por Todavia e por você: autor-protagonista cujos livros foram “devidamente ignorados pela crítica e encalhados em umas poucas livrarias do beco”, diz o tal leitor. Sente prazer em ridicularizar a si próprio?
Sim, claro! Muito prazer, lhe asseguro. Como eu poderia me levar a sério e não fazer o mesmo com os meus personagens? Seria um contra senso absoluto e imperdoável. Se já me não levo tanto a sério na vida real, por que o faria na minha ficção, autoficção, diria melhor?

O livro começa com reticências e você já avisou que não será o último a se passar em Todavia. O que te encanta nessa cidade que é “um miserê urbano e arquitetônico”, como você mesmo define?
Tudo em Todavia me encanta. Até o ‘miserê urbano e arquitetônico’. Tanto me encanta Todavia que eu tento encantá-la também. Tento, não sei se consigo, deveras!

Serviço
O quê: Lançamento do livro ‘República dos Mentecaptos – Uma hilariante história de mandriões, cortesãs, espertalhões e certos valdevinos de modo geral’ (Geração Editorial | 320 páginas | R$ 39,90)
Quando: Quinta-feira, às 18h
Onde: Livraria Saraiva do Salvador Shopping
Entrada gratuita

Leia trechos do livro

“Posso não ser um Antônio Carlos Magalhães, quem sou eu para o ser, mas como ando com ele na política desde o comecinho das nossas jornadas na vida pública, tento não tirar uma de professor e ser um mero aprendiz (…), até posso pensar em ser como ele, mas não o sou, quem me dera, mas se até ACM aprecia ter uns comunistas de estimação por perto, eu também quero ter os meus, deve ser bom (…)”.

(…)

“Delegou-me  o autor desta destrambelhada prosopopeia – como se já não me fora extremamente penoso chegar até onde cheguei na atenta leitura da sua desarrozada escritura – a missão de vir a Todavia para mais saber sobre – como se isso me despertasse qualquer interesse… – os quinze anos em que ele por estas bandas perambulou na função de meni- no aqui nascido, veja a que ponto chega o abuso do pedante que escreveu em desfavor do mal-avisado e desprevenido paciente que o lê. De pronto, asseguro que lhe assiste total razão no que ele espelha em seus livros – todos eles à graça de Deus devidamente ignorados pela crítica e encalhados em umas poucas livrarias de beco – sobre os defeitos e imperfeições de Todavia e de seu povo (…)”.

Fonte: Correio