Piquenique, ioga, tai chi chuan. Parecem atividades para se fazer num parque, certo? Mas a proposta é que em meados de 2021 sejam realizadas de frente pro mar, no trecho de orla que vai de Stella Maris até Ipitanga, em Salvador. É que todas estas possibilidades constam no projeto de requalificação do trecho de 4,7 quilômetros, cujo edital será lançado no final da próxima semana pela Prefeitura de Salvador. 

A área a ser reformada é de  400 mil m², um espaço equivalente a 100 Arenas Fonte Nova, e receberá investimento de R$ 41 milhões, do Programa do Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), por meio de empréstimo da Prefeitura junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult) estima que o processo licitatório seja concluído em cerca de 90 dias.

Já as obras devem começar em janeiro de 2020, com 18 meses de duração. Segundo a Prefeitura, este é o maior dos 20 trechos já requalificados até agora (veja lista abaixo). A execução vai seguir a ordem de localização: Stella Maris, Flamengo e, por último, Ipitanga. O secretário de Cultura e Turismo, Cláudio Tinoco, que classificou a revitalização como uma obra pensada para estreitar as relações entre os moradores e a praia.

“Essa intervenção vai transformar a região de Stella Maris, Flamengo e Ipitanga. Se, por um lado, vai melhorar a infraestrutura para quem mora por aqui, por outro vai fortalecer ainda mais o turismo dessa região, qualificando os espaços e facilitando os acessos para os visitantes”, pontua o prefeito ACM Neto.

(Divulgação/Secom PMS)

Mais verde
No local, estão previstas ciclovias, vias exclusivas de veículos motorizados, trilhas, passeios exclusivos para pedestres, além de quadra de futebol, vôlei, poliesportiva, pista de patins, espaços de convivência, pista de skate, espaço para ioga, parques infantis, centro de apoio ao surfista, sanitários públicos, quiosques, além de módulos de apoio aos salva-vidas.

No entanto, esse trecho tem um diferencial: uma orla com pouca pavimetação e destaque para áreas verdes – afinal de contas, Stella Maris e Ipitanga somam a maior área de preservação de vegetação de restinga da cidade. 

“Neste caso, vai haver a priorização na utilização das espécies nativas que já existem na área. Vamos aproveitar e fortalecer com essa composição, que é completamente diferente de outros trechos da orla de Salvador. É uma requalificação urbanística, mas que respeita os limites”, garante Tinoco.

Ele adiantou que há a possibilidade da construção de um horto que ajude a ampliar as espécies nativas e composição das matas. “Há um reconhecimento deles (moradores) de que boa parte ali é de verde. É uma obra que você vislumbra, olha, e enxerga que é diferente pelas características naturais”, afirma.

Por falar em praia, o local funciona como ponto de desova de tartarugas marinhas. Ou seja, a iluminação também será especial. “Além da preservação da vegetação de restinga, temos a desova, o que implica  áreas que não podem ser bem iluminadas”, pontua Tânia Scofield, presidente da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), responsável pelo projeto que foi feito com a participação de moradores.

(Divulgação/Secom PMS)

Espera
Há mais de 30 anos morando em Praia do Flamengo, o bancário aposentado Gedson Borges comenta a requalificação com a ânsia de quem acompanhou as “mil fases” da região. “É a primeira grande obra de benefícios para todos nós, com um grande investimento, e estamos todos mais do que ansiosos para que tudo aconteça”, conta Gedson.

Lá – o trecho de orla mais distante do Centro de Salvador -, já se viu com maus olhos a circulação de ônibus, tempo em que se resistia à urbanização. Hoje, muitos são entusiastas do crescimento.

“As mudanças são sempre mal recebidas, mas quem está atento às deficiências da nossa orla sabe que só teremos a ganhar com a mudança. Revitalização significa mais limpeza, ordenamento, segurança e saúde”, afirma. 

Mesmo ciente de que as obras têm muitos meses pela frente, o aposentado já tem em mente qual o primeiro investimento depois da inauguração: “Comprar uma bela bicicleta”, garante.

Faz 15 anos que a professora Elen Mabel Cerqueira, 37, mora no Condomínio Petromar, o maior e mais antigo conjunto de casas de Stella.

A par do cronograma de execução, ela acredita que as questões ambientais da localidade serão respeitadas e também ganharão ao final do processo: “Nós somos pelo menos 3 mil pessoas só no Petromar, todos nós estamos bastante ansiosos porque é uma obra que funciona como um retorno de nossos impostos, é o nosso dinheiro que retorna de forma satisfatória”.

(Divulgação/Secom PMS)

A obra
Cláudio Tinoco explica que a obra conta com três trechos de intervenções, dividido em três fases de execução (veja ao lado). O projeto de requalificação contempla urbanização, infraestrutura urbana, iluminação pública e equipamentos urbanos, além de requalificação ambiental e tratamento paisagístico.

Em alguns trechos, o acesso por veículos se dará até bolsões de estacionamento que serão otimizados e ampliados, com pavimentação em blocos intertravados.

A Secult estima que o trecho da orla de Stella, Flamengo e Ipitanga concentre 2.200 unidades habitacionais, hotéis e pousadas.

“Embora esteja localizada na borda da orla, a revitalização vai influenciar positivamente no comércio e turismo de toda área adjacente, como o bairro de Itapuã, além de valorizar os imóveis de toda a região”, diz Tinoco.

A rede hoteleira da região já comemora, afirma o presidente da Federação Baiana de Hospedagem e Alimentação (FeBHA), Silvio Pessoa: “Para o turista que vem para Salvador motivado pelo sol e pela praia, é muito importante ter uma orla requalificada com equipamentos próprios para o lazer e toda essa infraestrutura prevista no projeto”.

Região tem maior reserva de vegetação de restinga; área verde será preservada
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-BA) e hoteleira da região, Renata Proserpio defende que a requalificação aproximará moradores da orla, que irão passar a usufruir dos equipamentos dispostos pela prefeitura. “Com a ciclovia, passeio de pedestres e outros equipamentos, a área será retomada por moradores, famílias, pessoas que fazem exercícios físicos, grupos de corrida, crianças e também os turistas que frequentam a região, que tem uma das praias mais lindas de Salvador”, afirmou. 
 
Morador de Stella Maris, o administrador Lander Salgado, 43, argumenta que “toda obra prevê melhorias”. “Quando você requalifica e leva as pessoas à rua, a expectativa é de que seja melhorada.  A gente já teve situações bem críticas, e quando se fala em segurança, a gente precisa estar o tempo todo em melhoria, o que não é possível de alcançar sem mudanças”, diz.

Moradores ajudaram na concepção
O plano de requalificação da orla de Stella Maris até Ipitanga foi elaborado pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), órgão ligado à Prefeitura, em setembro de 2016, com o acompanhamento dos moradores que, por meio de associações, participaram de pelo menos três reuniões para discutir e pontuar as prioridades que deveriam constar no projeto.

A presidente da FMLF, Tânia Scofield, explicou que o espaço de três anos – entre a finalização do projeto e lançamento do edital -, envolveu um “processo demorado” de justificativas e fase de análises, idas e vindas de documentos de Salvador para Brasília (DF) e Washington, nos Estados Unidos, sede do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cujo empréstimo à prefeitura vai possibilitar a intervenção no trecho de orla.

(Divulgação/Secom PMS)

Presidente do Conselho de Segurança de Stella Maris e Praia do Flamengo, Melissa Serbake, 45 anos, considera que a maioria das pessoas não só é favorável, como também “aguarda há muito tempo” pelas intervenções. “Acredito que sejamos cerca de 20 mil famílias. Muitas pessoas que converso, todos esperam por isso há muito tempo. Nós temos a ciência de que toda a adjacência vai ganhar com isso”, afirma.

Melissa explica que o posicionamento em favor das obras parte do pensamento de que, “se vai haver ordenamento, vai haver maior circulação de pessoas e, consequentemente, segurança e mais valorização”.

Conforme a moradora, houve um grupo de outros moradores que se posicionou contrário à execução das obras. O argumento era de que o meio-ambiente seria prejudicado com as intervenções previstas.

“Isso não faz o menor sentido, nós acompanhamos tudo, todas as reuniões com a Secult e FMLF, todas as licenças foram respeitadas e não há o que de ruim possa acontecer com a realização das obras”, garante ela, ao mencionar equipamentos e ações previstos no projeto, como a modificação de pontos específicos de estacionamento e pavimentação de determinadas ruas.

Outras intervenções
Entre as 20 áreas já requalificadas, em Salvador, estão: São Tomé de Paripe, Tubarão, Rua Almeida Brandão, Ribeira (três trechos), Barra (três trechos), Rio Vermelho (três trechos), Boca do Rio (dois trechos), Jardim de Alah, Piatã, Itapuã (dois trechos), Praça Wilson Lins (Pituba) e Ponta de Humaitá. Ao todo, de acordo com a Secult, são 646.990 metros² de obra realizada e 20,55 km de orla requalificados.
 
Além do trecho de Stella Maris à Ipitanga, outros intervalos da orla também receberão intervenções no futuro. O trecho que engloba Amaralina à Pituba, de 3,3 km, está em licitação pela prefeitura, além da área de Periperi à Praia Grande, que corresponde a 2,6 km, que aguarda definição do traçado do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) para início do projeto. Boa Viagem, na Cidade Baixa, também está em fase de produção. O entorno do Farol de Itapuã, 800 m, e o Parque dos ventos (ao lado do Aeroclube), de 600 metros, estão em execução da obra.
 

  • Trecho 1 – Stella Maris (Extensão de 1.130 metros)

– Ciclovia
– Quadra De Saibro – Futebol
– Quadra De Areia – Voleibol
– Espaços De Convivência
– Decks
– Trilha
– Pista De Skate Infantil
– Espaço para Ioga E Tai Chi Chuan
– Espaço De Expressão Cultural
– Espaço De Piquenique
– Centro de apoio ao surfista
– 4 Unid. Postos salva-vidas
– Módulo de apoio aos salva-vidas
– Banheiros
– Quiosques
1 Unid. Coco (10 m²)
1 Unid. Acarajé (10 m²)
3 Unid. de 30 m² (Concessão)
 

  •  Trecho 2 – Flamengo (Extensão de 2.085 metros)

– Quadra De Areia – Vôlei (Requalificação Do Existente)
– Quadra De Futebol – Futebol (Requalificação Do Existente)
– Espaços De Convivência
– Espaço Multiuso
– Trilha
– Arquibancada
– Parques Infantis
– Pista De Patins
– Pista De Bicicross
– Arena
– 5 Unid. Postos Salva-vidas
– Módulo de apoio aos salva-vidas
– Banheiros
– Quiosques
6 Unid. Coco (10 m²)
6 Unid. Acarajé (10 m²)
5 Unid. de 30 m² (Concessão)
  

  • Trecho 3 – Ipitanga (Extensão de 1.600 metros)

– Espaços De Convivência
– Pista De Skate
– Quadra De Vôlei
– Quadra Poliesportiva
– 4 Unid. Postos Salva-vidas
– Módulo de apoio aos salva-vidas
– Banheiros
– Quiosques
2 unid. de 30 m² (Concessão)
1 unid. de 50 m² (Concessão)
 

Fonte: Correio