A imensidão em verde, onde estão concentrados pelo menos 61 mil espécimes de vegetais, não é de conhecimento de muitos baianos. Em cinco anos, de 2013 a 2017, as 18 mil pessoas que visitaram o Jardim Botânico de Salvador, que compreende uma área de 160 mil metros quadrados, encontraram um lugar deficiente em infraestrutura e paisagismo. 

Para o próximo ano, no entanto, a ideia é que o parque natural, localizado entre os bairros de São Marcos e São Rafael, na capital, para além da natureza, ofereça conforto, segurança, áreas abertas à visitação e espaço dedicado à pesquisa, cultivo e plantio de plantas consideradas sagradas por religiões de matriz africana. O passo foi iniciado nesta segunda-feira (16), quando o prefeito ACM Neto assinou a ordem que autoriza o início imediato das obras de requalificação, orçadas em R$ 8 milhões. 

Ao comentar sobre o “abandono” do local pela administração pública, até então, o prefeito tomou para si a responsabilidade de entregar, em 12 meses, o que chamou de novo patrimônio da cidade. O prefeito comparou a obra à realizada no Parque da Cidade, entregue em 2016.

 “É um espaço com muitos problemas de infraestrutura e que se tornará um destino para crianças, jovens, pesquisadores e acadêmicos que tenham interesse em conhecer nossas espécies preservadas. Daremos segurança a essas pessoas”.

O prefeito citou, ainda, o herbário – onde estão armazenadas mostras dos vegetais -, que será ampliado durante as intervenções, desenhadas no projeto da Fundação Mario Leal Ferreira (FMLF), sob a coordenação da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência (Secis). A intenção é de que a coleção se torne um centro de referência em pesquisas da Mata Atlântica, com capacidade para acomodar ainda mais espécies. 

Prefeito assinou ordem de serviuço nesta segunda-feira (Foto: Max Haack/Secom PMS)

Secretário de Infraestrutura e Obras Públicas, o vice-prefeito Bruno Reis acredita que “as pessoas de Salvador não sabem que o jardim existe” porque não há, no local, uma estrutura que alimente o desejo de conhecer a reserva, onde um prédio principal com auditório, mirante e energia solar, será construído em área de 2.219,45 m². 

“Além de estar em contato com a natureza, essas pessoas vão ter um lugar a mais de lazer e trabalho”, considera, ao destacar que ambulantes da região vão ser livres para comercializar produtos no espaço. Os mais entusiastas do verde têm, ainda, a possibilidade de conhecer as dezenas de espécies de vegetais, incluindo ameaçados de extinção, no percurso de 795 metros de extensão na área preservada.

Serão construídas edificações de caráter científico, voltadas ao estudo, manutenção e conservação da Mata Atlântica, conectados e acessados por uma trilha elevada em um percurso de 795 m de extensão pela mata.  O equipamento ganhará também um edifício principal com área total construída de 2.219,45 m², dividido em dois pavimentos, um subsolo e uma cobertura aberta a visitas.  

Convívio com as plantas
Dos banhos para tratamento espiritual, comuns nos tantos terreiros de candomblé da cidade, às moquecas preparadas e servidas nas mesas das famílias baianas, as folhas estão presentes. Da aroeira ao coentro, alguns vegetais dão a dimensão do conceito de etnobotânica, relação cotidiana que as pessoas têm com as plantas, especialmente na Bahia.

Do plantio à colheita, os cultos do candomblé dedicam cuidado às plantas, explica a coordenadora da Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau e Receptivo (Abam), Rita Santos, ao comentar a presença de vegetais sagrados, como a aroeira e o dendezeiro, presentes na mata do Jardim Botânico de Salvador. Membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra (CMCN), Rita defende que a requalificação do local representa, para ela, “o respeito” aos seus.

“Atualmente, nós, de terreiro, não temos um espaço bem cuidado onde a gente possa colher nossas plantas, então eu considero que vai ser uma grande conquista para todas as pessoas que, assim como nós, têm respeito e precisam das plantas para suas realizações”, destaca. 

Rita acrescenta, ainda, que os terreiros da cidade têm “cada vez menos espaços apropriados para o plantio”, o que aumenta a importância do novo parque. “As plantas estão na feira e a gente acaba tendo que comprar muitas por lá, mas são situações em que não sabemos as condições em que elas foram plantadas e colhidas, e isso importa muito na nossa religião, o tratamento é tudo”. 

Conceito
Cuidado este que, às várias espécies presentes na área verde preservada do novo jardim, é algo que vai se desenhar ao longo do tempo, explica o secretário de Sustentabilidade, André Fraga. 

Não se sabe, ao certo, quantas e quais são todos os 61 mil vegetais ali presentes, até pela falta de acompanhamento até o momento, reforça André, mas a ideia é que o herbário que já abriga àquelas, após a ampliação, tenha estrutura para manter e possibilitar que as pessoas acompanhem e participem de todo o processo.

“A culinária, os banhos, tudo isso é a etnobotânica. Ela está presente em nossas vidas, porque nada mais é do que essa relação com as folhas. Então, a nossa intenção é que, a partir de agora, todos tenham a oportunidade desse convívio maior, do entendimento desse contato com a natureza, a partir desse projeto”, comenta.

O secretário estima que, contando a parte final da execução das obras, que inclui também exposição museográfica no prédio principal, além de pontos da trilha em referência aos orixás, a começar pelos nomes: Xangô, Oxóssi, Oxalá, Exu e o próprio Ossain, representantes das folhas nos cultos do candomblé.

“Na parte de Iansã, por exemplo, a vegetação vai se movimentar. Oxóssi, um arco e flecha vai servir de representação, porque vamos unir elementos como a linguagem visual, além de atender à demanda dos terreiros”. O projeto prevê, ainda, artes em cimento, de autoria do baiano Bel Borba. 

Fonte: Correio