Nos anos 1940, Irmã Dulce (1914-1992) precisou fazer uma cirurgia na garganta que deixou sua voz quase resumida a um sussurro em grande parte da sua vida. A fragilidade de sua saúde era incompatível com sua força e vigor em ajudar ao próximo. Foi justamente essa força desproporcional da feira baiana de 1,47m e pouco mais de 45kg que tocou a mente do jornalista Graciliano Rocha, 42 anos, e o motivou nos últimos 8 anos, período em que se dedicou a escrever a biografia Irmã Dulce, a Santa dos Pobres (Editora Planeta – 2019). 

O livro, que será lançado nesta segunda-feira (23) em Salvador vinte dias antes de Dulce ser oficializada como santa pela Igreja Católica , começou a fazer parte da vida do jornalista nascido em São Paulo quando, em 2011, ele trabalhava na capital baiana como correspondente do jornal Folha de S. Paulo.

“Eu conhecia Irmã Dulce desde pequeno com o senso comum de saber que era uma freira importante na Bahia que ajudava as pessoas. Quando eu participei da cobertura da missa de beatificação dela, em 2011, pude perceber que era uma história fascinante. Comecei a apurar mais sobre a vida dela e me dei conta que não caberia nas páginas de um jornal. Por isso, decidi fazer o livro. Me encantei com o fato dela ter bom trânsito com as mais variadas religiões e forças políticas”, explica Rocha que para fazer o livro entrevistou mais de 100 pessoas e pesquisou documentos no Brasil, Itália e Estados Unidos. 

Leia mais sobre a história de Irmã Dulce 

Católico praticante participar da missa aos domingos desde a infância, Graciliano ressalta que sua religião não interveio no seu processo produtivo do livro que seguiu os seus rigores jornalísticos. “Pelo contrário. Eu fiz toda a investigação como eu sempre faço em reportagens. Investiguei a fundo os mais variados aspectos da vida de Irmã Dulce. Pensei que eu iria concluir o livro em um ano, mas acabei levando oito para apurar e escrever. Meu livro é sobre uma mulher incrível independente de qualquer religião. A figura dela transcende a religião católica e toda a todos independente da crença”, destaca. 

O jornalista traz nas 248 páginas do livro dezenas de histórias de pessoas que conviveram com Dulce. Ele revisita toda sua trajetória de vida e religiosa desde a infância, passando pelos 13 anos quando manifestou o desejo em ser freira até os dias atuais, quando sua obra ganhou dimensões monumentais e se tornou a maior rede de atendimento de saúde público do Brasil.  Para isso confrontou poderosos, inclusive, membros da Igreja, 

“Numa biografia a preocupação em não errar nenhum dado ou fato relevante é muito maior. Ela era uma humanista e tinha uma forma especial de conduzir sua vida. No processo de investigação da santificação dela no Vaticano reclamou-se de que ela, em alguns momentos, quebrou o voto de obediência feito à igreja. Mas, ficou reconhecido pelos atores políticos da época que Dulce estava certa pois ela tinha um objetivo maior que era continuar o trabalho identificado com Deus”, pontua Rocha que é formado em Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Ele Trabalhou no jornal Folha de S.Paulo, onde cobriu temas como a renúncia de Bento XVI, a guerra do Mali (África) e a operação Lava Jato. Atualmente, é editor do BuzzFeed News no Brasil.

O livro reúne, a cada capítulo, dados históricos, documentos e também histórias. É como se a cada grupo de páginas o leitor pudesse ver uma face de Dulce. Uma dessas fases teve um personagem famoso: o escritor Paulo Coelho, que em 1967 foi ajudado por Irmã Dulce em Salvador. A história havia sido revelada no livro O Mago, biografia de Paulo Coelho escrita pelo jornalista Fernando Morais, mas para Rocha, o escritor deu detalhes de como Dulce foi sua salvadora. 

Bilhete de Dulce para Coelho foi guardado pelo escritor
Reprodução: Livro O Mago

“Eu estava literalmente passando fome há dias, doente, perdido em Salvador. Tinha fugido de um sanatório psiquiátrico onde fora internado por meus pais. Vaguei sem rumo pelas ruas da cidade sem um centavo no bolso, até que alguém me disse que havia uma freira que poderia me ajudar. Fui a pé até a casa da freira. Juntei-me às muitas pessoas que estavam ali em busca de socorro, chegou minha vez, e de repente estava frente a frente com ela. Perguntou o que eu queria – e a resposta foi simples: “Não aguento mais, quero voltar para casa e não tenho como”. Ela não fez mais perguntas. Pegou um papel em sua mesa, escreveu “vale um bilhete de ônibus até o Rio”, assinou, e pediu que fosse à rodoviária com ele e mostrasse a qualquer motorista. Achei uma loucura, mas resolvi arriscar. O primeiro motorista que leu o que estava escrito no papel mandou que eu embarcasse. Isso era o poder daquela freira: uma autoridade moral que ninguém ousava desafiar”, afirmou Coelho, em trecho exclusivo para o livro ‘Irmã Dulce, a santa dos pobres’. 

Livro Irmã Dulce, a Santa dos Pobres
Autor: Graciliano Rocha
296 páginas
Preço sugerido: R$ 49,90
Lançamento em Salvador. 23 de setembro, às 19h, na livraria Saraiva do Salvador Shopping 

Fonte: Correio