Plantada sob o chão de terra dura da praça em frente à Igreja Matriz, uma árvore nativa da caatinga guarda uma lenda que mexe com o humor, a sexualidade e o orgulho dos moradores da cidade baiana de Riachão do Jacuípe, a 180 Km de Salvador. Conta-se, desde tempos antigos, que se uma folha se desprende do galho do Pé de Barriguda no momento em que alguém senta-se debaixo dele, pronto: troca de sexo na hora. 

A planta morreu de ‘causas naturais’ em 2017, constatou o poder público, após uma investigação com base no sentimento de revolta  de boa parte da população. Apesar de não existir mais, as memórias são vivas e isso ninguém pode podar. 

(Ilustração: Quintino Andrade/CORREIO)

O fato é que, entre o descaramento risonho e os notórios sintomas de homofobia por trás da lenda, é com base neste mito que frequentemente o município de cerca de 33 mil habitantes é apelidado de ‘Terra dos Viados’. 

Fincado no centro da cidade, o lendário Pé de Barriguda ficava em frente à uma construção católica de 1890, cartão-postal de Riachão, localização que pode ter influenciado na difusão desta pérola jacuipense. 

A história verdadeira
Considerado um guardião da memória de Riachão, o aposentado Amaurílio Soares, o Tio Lio, indigna-se com a falta de conhecimento sobre ‘a verdadeira história da árvore’, da espécie Ceiba Glaziovii, pertencente à família das paineiras e muito presente em áreas de caatinga. 

O nome Barriguda refere-se ao calombo que a planta apresenta no meio do tronco, fazendo parecer que a árvore está ‘grávida’. 

“O Pé de Barriguda produz um fruto muito nutritivo, que atraía o veado – com E, ele faz questão de frisar – e estes, por sua vez, atraíam caçadores para abatê-los. O pessoal então começou a sentar embaixo do pé e aí passaram a acrescentar que quem sentasse ali viraria viado – com I -, ou seja, homossexual”, distingue Lio. A partir daí surgia o mito de que rapaz que senta ali sai falando fino e moça sai falando grosso. 

A partir de registros documentais e fotografias encontradas pelo próprio Tio Lio, estimou-se que uma muda foi plantada no centro da cidade em meados de 1960. Com flores brancas e resistente à seca, a árvore de barriguinha saliente foi lá colocada com o objetivo de embelezar a praça.

Em 2015, uma nova reforma foi anunciada para a Praça da Matriz. Apesar de o projeto não prever a retirada da Barriguda, este boato premonitório espalhou-se e Tio Lio foi às ruas entrevistar moradores para saber se eram contra ou a favor. 

Num diálogo filmado com o senhor Antônio Alves de Souza,  Biriba, este pronuncia-se contra a derrubada do vegetal e argumenta:

Biriba: – Para mim, e para qualquer outro que é espada, isso aí não muda nada, não. 
Tio Lio: – O que é espada?
Biriba: – Espada, espada… Isso aí qualquer um entende
Tio Lio: Macho, homem?
Biriba: É, é

Terra dos Viados
Segundo Chico Manfredini, líder do Grupo Gay de Riachão do Jacuípe (GGRJ), o mito ganhou força porque personalidades gays da cidade sentavam embaixo da árvore para resenhar. “Naquela época, a brincadeira era mais comum com os homens, não focavam muito nas mulheres, mas a história foi tomando uma proporção grande”. 

Sobre o apelido de Terra dos Viados, ele acha a expressão um pouco pesada. “Tudo depende da forma como colocam as palavras, se vai soar de forma positiva ou negativa. São pessoas de fora da cidade que falam assim, não vejo nossos moradores se referirem dessa maneira”, comenta. 

Ainda na opinião de Chico, Riachão não é uma cidade preconceituosa. “Acho que os homossexuais têm uma boa liberdade lá, comparando com as violências a nível nacional. A lenda da Barriguda é uma brincadeira, todo mundo, inclusive o público gay, se diverte e não nos ofende”. 

Idealizador da Parada LGBTQI+ de Riachão, Chico conta que nas primeiras edições, o evento saía da frente da árvore, justamente pela simbologia. De um tempo para cá, a concentração foi transferida para a frente da Câmara de Vereadores como forma de solicitar políticas públicas de proteção à população homoafetiva.

O luto
Quando soube do óbito da Barriguda, a jornalista Alana Rocha diz ter ficado abatida. “Fiz muitas matérias no meu blog a respeito do Pé de Barriguda e acho que perdemos um bom pedaço da nossa história. Plantaram outro, mas nunca vai ser o mesmo”, lamenta a autora do site noticioso Hora da Verdade e tida como a primeira repórter transexual a atuar na televisão brasileira.

A morte da Barriguda ocorreu um tempo depois da reforma do largo. em 2015. Na ocasião, a administração mirava uma nova ornamentação da cidade, que havia sido uma das selecionadas para a passagem da tocha das Olimpíadas 2016. O equipamento público não ficou pronto e o principal símbolo do município ficou tímido atrás de tapumes.

Entre o final de 2016 e início de 2017, a paineira começou a apresentar sinais de senescência. O caule espinhoso estava ressecado, não desabrochavam mais as lindas flores brancas e da sua copa sobressaíam só galhos cinzas e pontudos. Os órgãos de manutenção tentavam ressuscitá-la com podas e adubos orgânicos, mas sem sucesso. Quando a morte foi decretada e a árvore removida, a comoção tomou conta das redes sociais.

“Achei uma falta de respeito, fiquei triste pela perda do patrimônio. De certa forma, dava visibilidade à cidade, deixava a gente conhecido. Nos festejos de São João, quem vinha de fora sempre queria conhecer e ir lá bater uma foto”, lamenta Chico.

Oito meses depois da morte, estudantes de uma escola pública se reuniram no Dia da Árvore para colocar uma nova muda de Barriguda no mesmo local ocupado pela antiga. Coincidentemente, fazia apenas dois meses do primeiro casamento gay de Riachão do Jacuípe, no qual Edilson Souza, 23, e Pedro Augusto, 26, disseram sim após uma resolução do Conselho Nacional de Justiça.

Inspiração
Antes de morrer, a Barriguda inspirou não só piadas, mas também poemas e canções como a do compositor Marcus Sena. Na letra, o artista critica a falta de atividades culturais na cidade e sacaneia o orgulho patriótico jacuipense, colocando a árvore como principal referencial:  “Fiz essa música em 2007 depois que a prefeitura interrompeu na metade um festival em que eu participava. Queria muito ganhar, mostrar minhas canções, mas não teve premiação, então fiz para tirar sarro mesmo”. Ouça abaixo.

Os inúmeros relatos ajudam a chegar à conclusão de que assim como ir a Paris e não visitar a Torre Eiffel é o mesmo que não ir a Paris, ir a Riachão do Jacuípe e não sentar embaixo do Pé de Barriguda é também o mesmo que não ter ido. E, ainda que a árvore originária não esteja mais lá, o folclore jacuipense está mais do que estabelecido e assiste ansioso o crescimento da nova muda.

Fonte: Correio