Imagem: Reprodução/Instagram

A pergunta que não quer calar nas últimas semanas: você é baiano? Se não for, provavelmente vá silenciar sobre o descuido geográfico, mas caso seja, fará questão de ratificar o título honorífico. Diante desta demanda comum, que inclusive é umas das justificativas para essa coluna existir, um perfil de Instagram começou a dar oportunidade para qualquer baiano(a) — incluindo naturalizado(a) — provar seu conhecimento de causa.

Com o desafio de fazer a turma demonstrar o alto nível de conhecimentos gerais-locais através do domínio do dialeto, o perfil Baianês Oficial reuniu mais de 210 mil seguidores em menos de dois meses, virou tendência na publicidade, ganhou loja online de camisetas e passou a ser imitado, na cara dura, em outros estados.
 
Embora a pergunta quase sempre seja dirigida ao sexo masculino (“você é baiano?”), é uma baianíssima cheia de orgulho e sotaque quem comanda a página sozinha. Publicitária nascida e crescida na “comunidade” da Pituba, Roberta Magalhães, 27 anos, vive em São Paulo há três anos e meio, onde permanece com o mesmo jeito de falar e se expressar.

“Sempre tive sotaque muito forte. Inclusive em Salvador, minhas amigas, namorados, todos comentavam que eu tinha um sotaque muito forte, então, desde que me mudei eu falei ‘eu não quero perder minhas raízes, de jeito nenhum’”, e não perdeu. Pelo contrário: a distância reforçou seu sentimento de guarda imortal da Bahia, tornando possível que a nova baiana de Sampa passeasse e enfrentasse (não muito tranquila, é verdade) a garoa, o preconceito e a xenofobia.

“Eu já tinha muito orgulho de ser baiana, e quando você vai morar fora, rola mais ainda isso, porque tem o preconceito enraizado, principalmente no Sudeste. Eu escutava coisas como, por exemplo, ‘ai, que baianada’. E aí eu ficava retada e dizia ‘o quê? Não entendi’, ‘por que baianada?’ E aí a pessoa ficava mega sem graça e dizia que era modo de falar”, relata a afrontosa, que não arredava o pé na pisada. 

“‘Mas esse modo de falar quer dizer o que?’ Eu deixava a pessoa sem graça e ela dizia: ‘isso é verdade. Não vou usar mais esse termo’. Fechava a cara e dizia ‘acho bom mesmo, senão eu vou começar a falar que (algo ruim) é uma paulistada’”, relembra, aos risos.

A baiana Roberta Magalhães, 27 anos, gerencia sozinha a página Baianês Oficial (Foto: Divulgação)

Picanha das galáxias
Mas pra rir assim, mesmo diante de coisa ruim, sofreu bastante até se tornar uma profissional premiada, na base das ideias certas. A carreira na publicidade começou em Salvador mesmo, na agência Propeg. No desembarque em SP, também se arranjou em grandes agências, nas quais chegou a atender a conta da Disney e da Chevrolet na América do Sul. 

Profissional da área de atendimento, Roberta é responsável, atualmente, pela conta da Burger King no país. “Toda e qualquer publicidade que você veja no Brasil, da Burger King, ela passou por mim”, explica. 

O reconhecimento do sucesso no Sudeste também veio na forma convencional: prêmios. A publicitária é detentora de um Young Lion, que é uma das principais premiações mundiais para jovens publicitários, entregue em Cannes. Representando o Brasil, ganhou na categoria Criatividade em Atendimento e Negócios.

“A cada vitória na minha carreira, eu fazia questão de gritar mesmo: ‘sou mulher, sou nordestina e tô ganhando meu espaço’”, relembra.

Cheia de stories
Cumprida a longa caminhada ao olimpo da publicidade, Roberta se encontrou com duas amigas baianas num restaurante de comida baiana pra conversar sobre baianidades, há sete semanas. “Toda vez que eu encontro minhas amigas lá, dá pra usar as expressões sem precisar ficar explicando o tempo inteiro”.

Era um domingo de boresta, e no meio do menu de assuntos começaram a especular sobre a origem de algumas expressões da terra-mãe. “De onde foi que a gente tirou ‘quem vai é o coelho?’ E a gente começou a rir lembrando de várias coisas”, cita um dos comentários.

Saiu do almoço castelando e, muito ligada em redes sociais que é, decidiu postar no insta as expressões curiosas no formato de meme. Avisou no primeiro stories a sequência que estava por vir: “Fui almoçar com umas amigas baianas aqui e olha só no que deu”. Pronto, o bebê já estava pronto pra nascer. “Comecei a postar nesse formatinho colorido mesmo nos stories. Postei uma porrada: uns 30 a 40, e uma galera começou a comentar”.

No dia seguinte, as primeiras repercussões. “Um conhecido me mandou uma mensagem: ‘velho, recebi seus stories no grupo da minha família. Não entendi nada’. Aí eu falei ‘oxente, gente, que loucura é essa?’ Printei a mensagem e postei nos meus stories. Uma galera começou a dizer a mesma coisa: ‘recebi num grupo da escola de meu filho’… E aí uma galera também postou no Facebook, as pessoas me marcaram”, e já estava marcado o território.

“Começaram a me dizer pra fazer uma página. Um dia eu cheguei do trabalho e bateu na cabeça: ‘vou fazer essa porra dessa página’. Fiz esse logotipo bem rápido, inclusive em baixa resolução. Fui dormir com zero seguidores, e mandei pra alguns amigos mais próximos. Quando acordei, tinham mil. Quando chegou perto da hora do almoço, 5.700. E aí eu fui almoçar com um amigo, e o celular não parava de enviar notificação. Vibrando o tempo todo, e eu sem entender nada. Tinham 10 mil seguidores”.

“Caralho, velho, que porra é essa? Puta que pariu!” Animada, fez uma postagem de agradecimento que perdeu a validade já à noite, pois terminou o dia com 30 mil seguidores. Arquivou o post.

Estratosférica
A página bombou de forma absurdamente rápida. “Com uma semana, a Ambev me procurou pra fazer um publipost sobre o Dia Internacional da Cerveja. Pra mim tava tudo sendo muito surreal. Na segunda semana, a 99 me convidou e outras marcas locais de Salvador me procuraram também”.

Daí já surgiram as parcerias para vender camisetas com posts estampados ou mensagens adaptadas. Todos os layouts são feitos pela própria Roberta, que decide os tecidos, cores, estampas, enfim, comando geral da produção.

“Eu queria trazer uma identidade mesmo pra cada coisa que eu fosse criar. Tanto que as pessoas quando me procuram pra fazer parceria, eu afirmo que acompanho o processo do início ao fim, porque eu quero criar a identidade do orgulho de ser baiano”, comenta a publicitária e agora micro-empresária, que fixou o preço de todas as camisas em R$ 69,90, mas tá com promoção de lançamento: R$ 49,90.

Foto: Divulgação

“Uma coisa muito massa é que a galera se identifica. (…) Recebo mensagens de pessoas que dizem que tavam tristes e depois que viram a página, deram uma melhorada no humor, ficaram felizes”, relata, sobre a fruição de quem curte os posts.

Imitões
O meme colorido com a pergunta e as mais variadas frases traduzidas para o baianês passou a ser usado pelos mais diversos perfis institucionais nas redes sociais: de academias a sorveterias, passando por Hemoba, TRE, Salvador Fest… Tudo dominado.

“Obviamente, eu fiquei mais feliz com a galera que marcou a gente. O pessoal que não marcou também, tudo bem, porque se copiou é porque a fórmula deu certo, né?”

E deu tão certo que já foi parar até em outros estados. “Já tem Goianês Oficial, que é um perfil idêntico ao meu. O Piauiês e o Mineirês Oficial, e todos estão dando certo. O meu é o pioneiro, mas os outros também estão crescendo, e eu vejo uma vida longa aí”, comenta a criadora do Baianês Oficial, que nos últimos dias também ganhou como páginas-irmãs os oficialatos Paulistês e Gauchês.

Se o surgimento e sucesso de perfis imitões provam que cada região do Brasil tem seu dialeto próprio, o pioneirismo do baianês no reforço dos regionalismos vem desde o livro ‘Dicionário de Baianês’, de Nivaldo Lariú, lançado lá no início da década de 1990, e que também inspirou obras nos outros estados. 

E pra rimar com esse pioneirismo, usei de oportunismo para consultar colegas de outras plagas que estão comigo, nesse final de semana, em Belém do Pará, capital nacional da égua (a interjeição, apenas, porque o bicho ainda não vi) para saber se a riqueza de expressões é uma característica comum de suas áreas de atuação.

Olhar estrangeiro
Juntei a turma e apresentei algumas frases traduzidas no Baianês Oficial e perguntei se em suas respectivas terrinhas também há outra forma de falar determinada coisa.

Descobri coisas curiosas, como no caso da “dor de facão”. No Rio, segundo o jornalista Stéfano Salles, do O Globo, já foi popularmente conhecida como “dor de viado”, e em Portugal, segundo Jorge Alegria, da revista lisboeta País Econômico, é conhecida como “dor do burro” ou “dor de atleta”.

Em São Paulo, segundo o jornalista Pedro Neves, do Uol, a expressão baiana “se não aguenta vara, peça cacetinho” pode ser traduzido ao paulistanês como “se não aguenta, bebe leite”. Lá ele!

Quanto ao nosso “frescão” (ônibus com ar-condicionado), havia em Brasília, onde vive a jornalista semi-baiana Ana Flávia Castro, do Correio Braziliense, a denominação “zebrinha”, que tinha a ver com a plotagem do minibuzu climatizado de outras épocas. Lá também tem o termo “amaruado” para definir algum cidadão que está “em água(s)” ou “com o cu cheio de cachaça”. Nas Minas Gerais, de Carlos Altman, jornalista do Estado de Minas, usam o “mamado”, também comum por nossos bares e ares.

Na Sampa de Fabrício Brasiliense, da revista Viagem & Turismo, e de Anna Aranha, da Azul Magazine, mandar alguém girar o volante para o lado contrário (ou seja, “desfaça”), tem outro imperativo: “esterça”.

Bom, fico aqui por Belém até esterça-feira que vem pra cobrir o VI Festival Internacional do Chocolate e Cacau – Chocolat Amazônia 2019 e fazer uma reportagem de turismo sobre a cidade, que tem muitas coisas em comum com Salvador. Conto essa resenha depois. Por ora, me despeço desafiando você a provar se é baiano(a) mesmo, no embalo das postagens do Baianês Oficial da pitubana exilada na pauliceia desvairada.

Fonte: Correio