Ágatha Vitória Sales Félix, 8, entrou na kombi no ponto inicial, quando voltava de um passeio com sua mãe. Algumas paradas antes de sua casa, na Fazendinha, dentro do Complexo do Alemão (zona norte do Rio), como de costume, o veículo encostou num cruzamento para que a penúltima família desembarcasse.

Era noite de sexta-feira (20); a rua estava movimentada, mas não havia sinais de confronto ou violência. Caso contrário, ele não teria estacionado ali.

O casal e duas crianças desceram, deram a volta e abriram o porta-malas para tirar suas bolsas e mochilas. Só restaram Ágatha e a mãe no banco traseiro. O motorista também desembarcou e, no mesmo momento, viu uma moto com dois homens sem camiseta passando em alta velocidade.

Foi quando ele avistou um dos quatro policiais militares que estavam no local -dois de cada lado da rua- disparando dois tiros seguidos: pá, pá. Pensou que o agente havia atirado para cima, para intimidar, mas percebeu que esse não era o caso quando olhou para dentro da kombi e a mãe de Ágatha começou a gritar.

Entrou de volta no veículo e arrancou direto para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) da região. Antes, porém, passou em frente aos policiais e gritou que haviam atirado na menina. Eles recuaram e não ajudaram a socorrê-la.

Já na UPA, recebeu informação de que não havia estrutura para atender a garota. Dois outros policiais, solícitos e aparentando desespero, a colocaram dentro da viatura e a levaram até o hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, também na zona norte carioca.

Foi lá que a menina morreu, depois de passar por uma cirurgia de horas e perder um rim. Deixou na kombi um saquinho de batatinhas fritas do McDonald’s.

Esse foi o depoimento que o motorista -cujo nome não foi divulgado por motivo de segurança- deu à polícia, segundo o advogado e membro da comissão de direitos humanos da OAB Rodrigo Mondego, que acompanhou o relato na Delegacia de Homicídios da capital fluminense na noite de sábado (21).

Muito abalado, o condutor chegou a passar mal nesta segunda (23). Diz que não quer mais dirigir e que está traumatizado, com muito medo. De acordo com ele, o tiro passou entre as outras duas crianças e o casal que estavam próximos ao porta-malas e, caso seja mesmo de fuzil, poderia tê-los atingido.

O motorista afirmou ainda, sempre segundo Mondego, que não saberia identificar o policial que disparou, mas que viu que foi apenas um. Ele não avistou armas nas mãos dos motociclistas em alta velocidade e frisou que, mesmo que os tiros tivessem atingido a dupla, seria “execução”, porque não houve confronto.

“Mataram inocente. Não teve tiroteio nenhum, foi dois disparos que ele deu. Falou que foi tiroteio de todos os lados, é mentira! Mentira!”, ele gritou emocionado diante das câmeras no último domingo (22), durante o enterro de Ágatha.

A versão da Polícia Militar é de que equipes da Unidade de Polícia Pacificadora Fazendinha, próximas às ruas Antônio Austragésilo e Nossa Senhora, foram atacadas de vários locais da comunidade de forma simultânea e que os policiais revidaram a agressão.

A kombi onde Ágatha foi baleada foi levada à delegacia na noite de sábado e passou por perícia também na manhã desta segunda. O dono do veículo, José Carlos Soares, 48, que não presenciou a ocorrência mas ajudou os peritos na análise, confirmou que não há marcas de tiro no porta-malas, porque ele estava aberto.

“No momento do disparo, tinha uma pessoa com o porta-malas aberto para pegar bagagem. Se estivesse fechado, a bala poderia ter desviado e ter tido outro rumo e, provavelmente, a criança não seria atingida”, disse ele à imprensa ao sair da delegacia.

A Polícia Civil também já ouviu o tio de Ágatha e outras testemunhas não divulgadas. O depoimento dos policiais militares que participaram da ação está marcado para esta segunda. A mãe ainda não foi à delegacia porque está muito abalada, e o motorista deve falar novamente nesta terça (24).

Segundo a corporação, as armas dos PMs serão recolhidas para realização de confronto balístico com o projétil e os fragmentos de projétil retirados do corpo da menina no hospital e no IML (Instituto Médico Legal). Uma reprodução simulada do caso deve ser marcada ainda nesta semana.

Fonte: Agencia Brasil