Familiares e amigos do adolescente Felipe Cavalcanti Lora, de 12 anos, se reuniram na tarde desta terça-feira (24) para se despedir do garoto, no Cemitério Bosque da Paz. O jovem morreu após cair do 9º andar do Hotel Mercure Salvador Boulevard, no bairro do Caminho das Árvores, em Salvador, na manhã desta segunda-feira (23).

(Foto: Gabriel Amorim/CORREIO)

Muito emocionada e abalada, a família preferiu não falar com a imprensa. “Apenas pedimos que respeitem esse momento de dor”, disse uma amiga da família sem se identificar. Uma mulher, parente do adolescente, chegou a passar mal, precisou ser amparada e colocada em uma cadeira de rodas. 

Durante o velório, familiares e amigos prestaram homenagens ao garoto, que foi aplaudido diversas vezes. O corpo de Felipe foi sepultado por volta das 14h. A cerimônia contou com a presença de diversos adolescentes, que estudavam no Sartre, colégio onde o menino estudou.

Morte
Segundo as primeiras informações da família passadas para a polícia, Felipe era sonâmbulo, o que pode ter provocado o acidente. O corpo do adolescente caiu na área da piscina – onde foi analisado por peritos do Departamento de Polícia Técnica (DPT) na manhã desta segunda.

Apesar de a circunstância do acidente ainda não ter sido esclarecida, peritos disseram que o apartamento onde o garoto estava não tem rede de proteção. Agentes do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) também foram ao local. Não foram encontradas marcas de violência no local, o que reforça a possibilidade de acidente.

(Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

A Polícia Militar foi acionada por volta das 7h, horário em que, segundo funcionários, ocorreu o acidente. De acordo com as primeiras informações que chegaram à polícia, o adolescente estava hospedado no apartamento do tio, o que era um hábito, para aproveitar a área de lazer que há no local, e apenas os dois estavam em casa quando tudo ocorreu.

Após o episódio, uma unidade do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionada, mas um médico constatou a morte da vítima assim que chegou ao local. 

O hotel divulgou uma nota de pesar. “O Mercure Salvador Boulevard lamenta o ocorrido e informa que está prestando o suporte necessário à família e às autoridades. O hotel informa ainda que o edifício é um condo-hotel e o fato ocorreu em uma propriedade privada, não operada pelo hotel”.

Os parentes do menino chegaram a ir até o saguão do hotel, mas não quiseram falar sobre o assunto. 

Investigação
O diretor do DHPP, delegado José Bezerra, disse que, a princípio, o caso está sendo investigado como um acidente decorrente do estado de sonambulismo do garoto. “A família disse que Felipe já apresentou esse tipo de comportamento, o sonambulismo, outras vezes. Essa é a nossa principal hipótese”, declarou o delegado. 

Segundo ele, Felipe não fazia nenhum tipo de tratamento. “Apesar do problema do menino, a família disse que ele não fazia uso de nenhum tipo de medicamento”, disse Bezerra.  

O delegado falou ainda sobre o andamento da investigação. “O apartamento não tinha rede de proteção, mas todos os exames estão sendo realizados e também serão pedidos complementares. Agora é ouvir todas as pessoas. Já prestaram alguns esclarecimentos a família do menino, o proprietário do apartamento e o responsável pelo hotel. Iremos ouvir mais pessoas à tarde, inclusive funcionários”, declarou Bezerra. 

Ao CORREIO, alguns hóspedes falaram sobre o clima no hotel. “De repente, a gente vê um monte de policiais, a correria entre os funcionários e a gente pergunta o que está acontecendo e eles não dizem nada. Fiquei sabendo agora, pela imprensa, que um garoto morreu ao cair de um dos apartamentos”, declarou a cearence Veridiane Rabelo quando entrava num táxi junto com os dois filhos.

O turista de Belo Horizonte, Eduardo Alves, também não obteve resposta do hotel sobre o que estava acontecendo por volta das 8h. “A gente  tinha saído do café da manhã quando vimos os policiais no hall. Pedimos informação, mas ninguém passou nada”.

Confira a íntegra da nota da Polícia Militar
“Na manhã desta segunda-feira (23), por volta das 7h, policiais militares da 35ª CIPM (Iguatemi) foram acionados pelo Cicom após informações de que havia um corpo de uma criança, de 12 anos, caída ao solo em frente a um hotel localizado na Rua Ewerton Visco. Ao chegar à localidade, a guarnição da PM encontrou uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) que constatou o óbito. Em seguida, os PMs fizeram o isolamento da área e solicitaram os agentes do Departamento de Polícia Técnica (DPT) para remoção. Para mais informações contatar a Polícia Civil que investigará o fato”.  

Sonambulismo
Sonambulismo é um distúrbio que se manifesta durante o estágio mais profundo do sono. “A maioria dos casos acontece ainda na infância, na pré-escola, ou inicia na idade escolar, 4 a 6 anos, mas pode acontecer na adolescência. A maioria dos casos é de atividades mais simples, como falar durante o sono, se sentar e fingir que está falando ao telefone, mas que não tem uma gravidade associada a isso ”, explicou ao CORREIO o neurologista Saul Velloso Schnitman, integrante do Ambulatório de Distúrbios do Sono, do Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos (Hupes).

A grande parte dos casos acontece no primeiro terço do sono da pessoa. “É como se a área do cérebro destinada à vigília e percepção do ambiente estivesse desligada. Normalmente, o estado dura poucos minutos. O sonâmbulo faz tudo como se estivesse acordado, até dirigir, passar marcha, mas a percepção dele está comprometida e poderá bater o carro em um muro”, disse Schnitman. Por isso que, no seguinte, eles (sonâmbulos) não lembram, ou lembram muito pouco, o que aconteceu durante a noite (amnesia total ou parcial).

A maioria dos casos não precisa de tratamento. “Para a maior parte dos casos, só o controle ambiental: fechar as portas, utilizar grades ou redes nas janelas, não ter equipamentos que ofereçam riscos dentro do quarto. Em caos mais graves, os sonâmbulas podem se alimentar, fazendo uso de talhares e se acidentarem”, explicou Schnitman, que pontuou em seguida: “No caso do comportamento mais frequente, principalmente que passe a mexer em objetos ou aumentar o risco de queda, deve-se procurar um profissional. O tratamento é feito com medicamentos específicos que agem no sono, porém são controlados e só devem ser realizados sob orientação de um especialista”. 

A causa do sonambulismo ainda é desconhecida. O que se sabe é que ele se manifesta mais no sexo masculino e que alguns fatores podem aumentar o risco de desenvolver o transtorno, entre eles o fator genético. “O sonambulismo tem uma relação hereditária. Existe uma relação genética, mas não é uma predisposição para a pessoa ter”, disse o especialista. Constituem também fatores predisponentes para o sonambulismo: privação do sono (noites mal dormidas), distúrbios psiquiátricos (depressão e ansiedade), respiratórios (apneia do sono, asma), febre, consumo de álcool e outras drogas, medicamentos que interferem no mecanismo do sono, bexiga cheia, ruídos, temperatura desagradável, entre outros.

No passado, acreditava-se que sonâmbulos nunca deveriam ser despertados durante a crise, ou que, se alguém lhes pregasse um susto nessa hora, ficariam definitivamente curados. Nada disso é verdade. Sonâmbulos podem ser acordados. O inconveniente maior é que despertarão meio confusos, sem entender direito o que está acontecendo naquele momento. Assustá-los não trará o menor benefício para o controle do distúrbio. O melhor mesmo é levá-los com calma de volta para a cama a fim de que continuem dormindo.

Fonte: Correio