A peste suína clássica (PSC), que este ano já provocou o sacrifício de mais 6,5 mil animais em dois estados do Nordeste, está causando preocupações cada vez maiores nos setores ligados à criação de animais e à produção de alimentos. Em um wokshop realizado nesta terça-feira (24/09) na Federação de Agricultura e Pecuária da Bahia (FAEB), em Salvador, representantes de várias associações decidiram reforçar a biossegurança nas granjas, ampliando os cuidados dentro dos estabelecimentos.

“A biossegurança é essencial não apenas nas grandes granjas, mas também entre os pequenos criadores. Só com ações mais preventivas poderemos continuar mantendo as zonas livres sem a doença, e conter a expansão dos focos que já foram identificados nos outros estados”, afirma o suinocultor Júlio Farias, presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados da Bahia (Sincar).

Desde o início do ano representantes da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) e profissionais de medicina veterinária vêm percorrendo vários estados para reforçar a importância da prevenção contra a peste suína clássica (PSC), doença já presente no Brasil, e também contra a peste suína africana (PSA), doença ainda ausente no país.

“Nós não estamos mais discutindo se a PSA vai entrar no Brasil, mas estamos planejando o que fazer quando ela chegar aqui. Exatamente para mitigar os danos e conter os focos assim que eles forem detectados”, afirma a médica veterinária Charli Ludtke, diretora técnica da Associação Brasileira de Criadores de Suínos.

A preocupação tem um motivo que se agiganta a cada dia. De novembro para cá foram encontrados 64 focos de peste suína clássica na região Nordeste. A maioria, 48, no Ceará, e outros 16 no Piauí.

Já em relação à PSA, a associação brasileira considera o risco remoto de entrada no país, mas não descarta que outras doenças virais atinjam os rebanhos brasileiros, apesar de todas as ações preventivas implantadas até agora.

“O risco da PSA chegar no Brasil é pequeno. O risco é maior da PSC se alastrar, ainda que todos os focos identificados até agora já terem sido saneados. Existem muitos caminhões em trânsito entre os estados, eles precisam passar por lavagem e desinfecção para proteger a zona livre da não livre”, completa Ludtke.

Os especialistas defendem que apenas uma ação conjunta pode ajudar a evitar a entrada destas doenças na Bahia.

“A defesa agropecuária é compartilhamento e integração. Por isso este fortalecimento é essencial e importante para o desenvolvimento dos negócios”, afirma Paulo Emílio Torres, Superintendente do Ministério da Agricultura na Bahia.

As autoridades vão reforçar a fiscalização no trânsito de animais, nas passagens pelas barreiras sanitárias, nas rodovias, na comercialização da carne, e no acesso de outros animais às granjas, como os javalis, potenciais hospedeiros das doenças virais. Em países como a Bélgica, os criadores estão até instalando cercas duplas para evitar a entrada de animais intrusos nas áreas onde há suínos.

“O risco sempre existe porque são doenças transfronteiriças, ou seja, não respeitam fronteiras. Mas neste momento temos que agir preventivamente e todos os veterinários e criadores devem ter o mesmo entendimento e a mesma postura para compartilhar estas informações. O perigo sempre existe, mas as medidas de prevenção já estão sendo adotadas. Se por acaso as notificações acontecerem, todos precisam saber o que fazer para evitar a disseminação destas doenças”, afirma a médica veterinária, especialista em epidemiologia, Masaio Mizuno Ishizuka.

Desafio é manter rebanho saudável nos estados considerados zona livre da peste suína clássica como a Bahia. (Foto: Ministério da Agricultura MAPA)

ECONOMIA

No Ceará e no Piauí os prejuízos provocados pela PSC já passam de R$ 3 milhões. E os danos podem se tornar ainda maiores.

Um estudo da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) apontou que a perda econômica pode chegar a R$ 5,2 bilhões ao ano caso a peste suína clássica se alastre pelos outros estados. O impacto econômico para a suinocultura brasileira envolve o risco dos países compradores cancelarem as exportações caso apareçam novos registros da doença em áreas de zona livre. Atualmente o Brasil exporta carne e outros produtos de origem animal para 160 países.

Os prejuízos podem ser incalculáveis caso a versão mais agressiva da doença, a PSA, chegue ao país. Na Ásia, onde estão os principais focos, a peste suína africana já provocou a morte de quase 50% do rebanho suíno chinês.

Para a Federação de Agricultura e Pecuária da Bahia o momento atual exige união entre todos os setores da agropecuária do estado.

“A suinicultura é uma atividade crescente no estado. Somos um grande produtor de grãos, temos um clima muito propício para a produção de carne suína e temos que transformar estes grãos em proteína animal. Mas isso passa por fatores fundamentais, um deles é a organização social e do produtor para termos competitividade. O outro é o conhecimento da tecnologia que exige uma profissionalização mais eficiente e eficaz da atividade”, defende Humberto Miranda, presidente da entidade.

No Brasil, com parte da produção sendo agora direcionada para as exportações, o preço da carne suína já está até 100% mais cara em muitos estados. Em São Paulo, o quilo do animal vivo, que custava R$ 2,50 em novembro do ano passado, agora já chega a R$ 5,50. A Bahia não exporta carne suína, mas boa parte do mercado interno é atendido por criadores do sul e sudeste. No estado, o quilo vivo está custando em média R$ 3,90.

“Nós precisamos cuidar das fronteiras porque isso afeta a produção de todo o Brasil. Dentro das nossas granjas vamos tentar conscientizar todos de que o risco é iminente e envolve não apenas as criações maiores, mas aquelas não tecnificadas”, aponta Alber Ferreira Rezende, presidente da Associação de Criadores de Suínos da Bahia.

A cadeia produtiva da suinocultura é ampla e envolve não apenas a criação de animais, mas vários elos econômicos, entre eles o mercado de grãos, que produz alimentos para estes animais. Entre os criadores de suínos os gastos com ração correspondem a até 70% dos custos de produção.

“A preocupação é de todo o setor. Se houver sanção, e o Brasil deixar de exportar, toda a cadeia produtiva vai sentir, inclusive nós do setor de suprimentos, de ração, de milho, ou farelo de soja. Nós queremos sensibilizar os governos, tanto o federal quanto o estadual, na preparação dos técnicos para que eles estejam prontos para a ocorrência de qualquer emergência sanitária”, afirma Marcelo Plácido, presidente do Sindicato das Industrias de Nutrição Animal da Bahia (Sindinutri).

Criadores e especialistas discutiram a adoção de medidas de mitigação dos fatores de risco de doenças nos suínos. (Foto: Ascom FAEB SENAR)

AS DOENÇAS

Também conhecida como febre suína, ou cólera dos porcos, a peste suína clássica não é uma zoonose, ou seja, não poder ser transmitida para os seres humanos. Causada por um vírus, ela provoca danos irreversíveis nos animais, como hemorragias nas extremidades do corpo, falta de apetite, febre de até 42 graus, abortos, perda de peso e aumento da frequência respiratória. A taxa de mortandade chega a 100%, e os sobreviventes se tornam portadores do vírus para outros animais, daí a necessidade de sacrificar os infectados.

A Bahia sempre foi zona livre da doença. Erradicar a PSC em todo o Nordeste é um projeto considerado prioritário pelo governo federal, que incluiu um conjunto de ações no Plano de Defesa Agropecuária válido por cinco anos, entre 2015 e 2020.

A Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB) está intensificando a campanha junto aos pequenos criadores sobre a importância da notificação.

“O trabalho nas barreiras de fiscalização já vem sendo feito e reforçado há muito tempo. O que pedimos é que os produtores rurais fiquem atentos, principalmente dentro das fazendas, para os sinais de doenças. E que notifiquem imediatamente em caso de suspeita. As notificações devem ser feitas o mais rápido possível, e teremos 12 horas para atender e enviar um técnico para verificar”, afirma Rui Leal, Diretor de Defesa Sanitária Animal da ADAB.

Já a Peste Suína Africana, ausente no Brasil, é ainda mais agressiva. Além dos mesmos sintomas da PSC, também pode provocar diarreia, vômito e dificuldade de ficar em pé. Nos últimos meses, a doença já atingiu mais de 5,92 milhões de animais em vários países da Ásia.

Fonte: Correio