Salvador é uma cidade de encantos, ladeiras, becos e vielas, cercada de casarões antigos. Além de sons de berimbaus, batuques dos tambores e o sorriso largo e acolhedor que só o baiano tem, há um dado interessante sobre a primeira capital do país: sua população e majoritariamente composta por mulheres.

A “cidade das mulheres”, contudo, tem outro dado que merece muita atenção: ocupamos o terceiro lugar em habitantes com algum tipo de deficiência, em especial a auditiva. Trazer à tona este tema requer certos cuidados, visto que a sociedade ainda não percebeu o tamanho do significado dos sons no silêncio, mesmo com os diversos avanços que foram alcançados após a aprovação da Lei Brasileira de Inclusão, em 2015.

Ainda estamos longe de perceber que a comunidade surda tem a necessidade de preparação e capacitação das profissionais de atendimento de serviços públicos como forma de interagir essas pessoas com a sociedade. Por outro lado, a Prefeitura de Salvador, desde o ano passado, vem se dedicando em aperfeiçoar o atendimento público e aproximar-se da comunidade surda, através do curso de Libras para servidores oferecido pela Unidade de Políticas para Pessoas com Deficiência, uma diretoria da Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza. Já formamos 34 servidores e outros 51 estão em treinamento atualmente.

A voz do surdo se dá com as mãos através da LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, reconhecida como a segunda língua oficial do Brasil conforme lei Nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Nesta ordem, para representar a luta da comunidade surda brasileira, o dia 26 de setembro foi escolhido por ser a data da criação da primeira escola de surdos no Brasil.

Para conhecer as especificidades de cada pessoa surda é preciso destacar que existem oito tipos de surdez: perda auditiva relacionada à idade; perda auditiva induzida por ruídos; perda auditiva causada por infecções; perda auditiva causada por alterações na tireoide; perda auditiva relacionada a medicamentos; perda auditiva causada por perfuração de tímpano; surdez congênita e perda auditiva transitória.

As mulheres com deficiência auditiva representam parte de um grupo social muito extenso e complexo, para além de nossa imaginação. Se voltarmos nosso olhar para a  mulher negra, pobre e surda, que já vive em um contexto de exclusão social e passa por diversos processos de segregação, os problemas são ainda maiores.

Mais da metade da população surda mundial é formada por mulheres, segundo dados da Federação Mundial de Surdos. Exatamente por isso é necessário reforçar a necessidade de políticas públicas inclusivas, buscando, caso seja possível, erradicar as descriminações e criar uma cultura baseada em quebra de barreiras atitudinais, que estereotipam as mulheres negras com deficiência como incapazes.

Propor  uma discussão  sobre Desafios, Direitos, Avanços e Protagonismo das Mulheres Surdas é abrir uma janela ao empoderamento na política afirmativa,  aproximando  a academia para  produções dos estudos, com uma perspectiva de estruturação  à acessibilidade em todas as áreas do conhecimento, para que mais mulheres surdas alcancem  diversas profissões e possibilitem a ascensão, tirando do imaginário e do senso comum que elas não têm capacidade de trabalhar, de se relacionar emocionalmente e de viver uma  vida cheia de realizações, como as pessoas comuns.

Monica Kalile é advogada e assessora especial da Prefeitura de Salvador

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Fonte: Correio