Por quase dois meses, o jornal CORREIO percorreu seis bairros de Salvador em busca de jovens de 14 a 24 anos que quisessem participar no seu principal projeto de moda, o Afro Fashion Day (AFD). Foram 998 inscritos para as seletivas do Olodum (Pelourinho), Filhos de Gandhy (Mercado Iaô – Ribeira), Malê Debalê (Itapuã), Ilê Aiyê (Curuzu), Muzenza (Plataforma) e Cortejo Afro, realizada nesta quinta-feira (26) em sua sede, em Pirajá.

A última chamada foi também a mais concorrida de toda a história do Afro, com 222 jovens inscritos, que buscam uma vaga no desfile. O evento será realizado em novembro, mês da Consciência Negra, mais uma vez celebrando o talento dos modelos negros e a criatividade de estilistas e designers baianos.

O presidente do Cortejo Afro, Alberto Pitta, comemorou o sucesso da seletiva (Foto: Betto Jr.)

“Fiquei feliz em saber que aqui no Cortejo houve esse interesse, ao meu ver natural porque temos essa questão da estética muito presente em nosso discurso e na forma de fazer as coisas”, comemora o presidente do Cortejo Afro, o artista plástico Alberto Pitta, que elegeu para estar no júri o sombrinheiro do bloco, Veko Araújo. “Me vejo hoje incluído na moda, que é uma expressão divertida e diferente, e acho que o Afro é uma iniciativa que traz a diversidade dessa nossa cidade-nação”, diz.

Sheila Ferreira vê no Afro mais que um desfile de moda tradicional: “temos que ocupar os espaços” (Foto: Gabriela Cruz)

Para o curador do desfile, Fagner Bispo, o sucesso das seletivas, que teve quase o dobro de inscritos do ano passado, comprova a força do AFD após cinco anos de sua criação. “O evento se tornou sinônimo de democratização. Finalizamos as seletivas de bairros com a responsabilidade de selecionar as pessoas que irão representar na passarela o sonho de tantas outras”, afirma o criativo, que tem a missão de reunir as notas dos jurados e fazer a lista quem vai para a semifinal.

Candidatos como Sheila Ferreira, 19 anos, que vê no Afro mais que um desfile de moda tradicional. “Temos que ocupar todos os espaços e mostrar à sociedade que ser gorda, preta e com cabelo crespo é bonito. Que podemos ser quem somos, inclusive em uma passarela”.  Para a modelo Ana Flávia, 23, participar do desfile é conquistar um espaço de afirmação de identidade, “que já foi negada por muito tempo”, diz. “O evento é um espaço para poder exibir a beleza negra, nos tirando da categoria de exóticos e reafirmando nossa presença como essencial”, defende.

Para a modelo Ana Flávia, participar do desfile é conquistar um espaço de afirmação de identidade (Foto: Gabriela Cruz)

Abrangente
Mas não é só para os modelos baianos – agenciados ou não – que o Afro Fashion Day valoriza. O fotógrafo Raí Silva, hoje também à frente de sua agência, participa do desfile há quatro edições e percebe nele um espaço para diversos profissionais da moda. “O é uma oportunidade de crescimento profissional para modelos, estilistas, agências. Abre portas para todas as áreas, inclusive para fotógrafos, que começam a buscar esses rostos para poder produzir seus trabalhos, é um projeto abrangente”, avalia Raí, que integrou o júri nesta seletiva e deu nota para jovens como Adilson Santos, 17, que para realizar o sonho de ser modelo, fez de tudo, até treinar em casa. “A gente tem que se preparar. Quem quer, corre atrás e eu quero muito”.

“A gente tem que se preparar. Quem quer, corre atrás e eu quero muito”: Adilson Santos (Foto: Betto Jr.)

O estilista Silverino Ojú, que também teve a difícil missão de avalia os candidatos, usou como um dos critérios a atitude dos modelos. “A roupa precisa do corpo. Um corpo com atitude que empresta à roupa o seu brilho, o seu axé para que ela aconteça e atitude tem de sobra aqui”, avalia. Para o criativo, levar às seletivas para vários locais de Salvador, como Pirajá, foi importante para o sucesso do projeto. “Sair do Centro e circular inclui, visibiliza pessoas e as coloca onde elas têm que estar, que é em uma passarela, no mercado de trabalho, isso não tem preço”, conclui.

Júri teve a difícil missão de selecionar os candidatos (Foto: Betto Jr.) 

O Afro
Em novembro, em data e local a serem confirmados, o Afro Fashion Day vai reunir um time de modelos, entre agenciados e eleitos na final da seletivas, para desfilar as criações de 52 marcas baianas. Foi proposto aos estilistas e designers de acessórios que desenvolvessem peças que dialogassem com a estética dos seis blocos afro homenageados. Para saber mais, acesse: correio24horas.com.br/afrofashionday/.

Fonte: Correio