O artigo científico que analisou experimento realizado em Jacobina com mosquitos Aedes Aegypti foi colocado em revisão pela revista científica Scientific Reports, da Nature, onde foi publicado. O artigo aponta que mosquitos transgênicos que deveriam ajudar a reduzir população do Aedes, criando insetos que morreriam antes de chegar à fase adulta, acabaram sobrevivendo. O aviso da revisão foi adicionado pela revista na publicação no dia 17 de setembro, sete dias depois da liberação do estudo.

Questionada pelo CORREIO, a revista informou que o artigo tem pontos que estão sendo discutidos.

“Preocupações foram levantadas em relação a este documento e estamos analisando-as cuidadosamente, seguindo um procedimento estabelecido. Enquanto esse processo está em andamento, adicionamos uma nota do editor ao artigo para alertar os leitores de que o estudo está sujeito a críticas que estão sendo consideradas pelos editores”, esclareceu, em nota, a revista norte-americana.

Apesar da revisão, a revista acrescentou que o estudo continua disponível para acesso do público e que é prematuro desconsiderá-lo por completo. “Garantir a precisão do registro científico é de fundamental importância para nós e atualizaremos a literatura quando apropriado. Estamos considerando as preocupações levantadas em relação a este artigo e, como as informações estão sendo reunidas e revisadas, seria prematuro fazer alterações no registro da publicação, além de notificar os leitores sobre a investigação em andamento. Depois que esses processos forem concluídos e tivermos as informações necessárias para tomar uma decisão, seguiremos com a resposta que for mais apropriada e que forneça clareza aos nossos leitores quanto ao resultado”, concluiu a revista.

A professora de jornalismo científico da Unicamp Simone Palone explica que existem diversos motivos que podem fazer com que um artigo dessa natureza seja revisado.”São diversos os fatores que podem fazer com que uma revisão desta precise acontecer. Isso não significa que todo o estudo esteja inválido ou que não se possa acessá-lo. Pode estar sendo questionado apenas um método ou técnica utilizada”, explica. 

(Foto: Divulgação)

Erro de interpretação
Diretora geral da Oxitec no Brasil – empresa responsável pelo experimento alvo do estudo -, Natalia Verza Ferreira acredita que os equívocos do trabalho estariam na interpretação de seus resultados.

“Recebemos esse artigo com surpresa. Não só a gente como a própria CTNBio. Rapidamente a comunidade científica se levantou pra rebater o trabalho. É um artigo bom, fez as perguntas corretas, coletou amostras, processou as informações e gerou resultados. Ele peca na hora de interpretar”, acredita.

A diretora explica, ainda, que o experimento realizado pela Oxitec foi completamente avaliado e tido como seguro pelo órgão regulador desse tipo de atividade no Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Um dos pontos apontados no artigo – a sobrevivência de mosquitos geneticamente modificados – foi um tópico avaliado pela CTNBio, que, segundo a empresa, considerou o experimento seguro. Em nota enviada ao CORREIO no início da semana, tanto o CNTBio quanto o Minstério da Saúde informaram que estão avaliando os resultados do estudo publicado pela revista científica.

“O que o artigo pinta como uma coisa perigosa e assustadora não é verdade. A taxa de sobrevivência dos mosquitos é baixa e foi considerada segura pela comissão”, alega a diretora geral da Oxitec. A taxa citada pela diretora é de 3% a 5% de mosquitos que conseguem sobreviver no ambiente. “É claro que o ideal seria matar 100% dos descendentes, mas acredito que matar 95% já é bastante satisfatório”, defende. 

Nathalia explica, também, que os sobreviventes são descendentes do cruzamento entre as fêmeas selvagens e os machos geneticamente modificados. De cada 100 descendentes desse cruzamento, que o experimento prometia que morreriam antes de chegar a fase adulta, 5 conseguiam sobreviver. A existência dos insetos no ambiente, contudo, não seria perigoso, já que o mosquito modificado não vive da mesma forma que o selvagem, defende.

“O tempo de vida de um mosquito com o gene modificado é bem menor, porque a capacidade de sobrevivência dele é diferente. Por isso também, ele gera bem menos descendentes que um mosquito selvagem, sem modificação”, explica Verza. O tempo de sobrevivência de um mosquito selvagem é de 20 a 25 dias, enquanto o geneticamente modificado vive de 7 a 8 dias, segundo a diretora da Oxitec. 

A porta-voz da empresa, que vem tratando o artigo científico como ‘fake news’, afirmou ainda que  a empresa foi procurada pela pesquisadora Margareth Capurro, uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo, que teria afirmado não ter aprovado a versão do trabalho que foi publicada e que ela e outros autores brasileiros estariam solicitando a retirada de seus nomes do trabalho. Procurada insistentemente pela reportagem do CORREIO, a pesquisadora não retornou o contato até o fechamento desta reportagem.

Moscamed 
Parte do grupo que teria solicitado a retirada de assinatura do trabalho científico, a Moscamed foi a empresa responsável pela operacionalização do experimento em Jacobina. A mesma Moscamed também assinou o estudo que aponta erros no experimento.

“Tínhamos um contrato com a Moscamed que acabou, mas que continha cláusula de confidencialidade. Além disso, qualquer publicação adicional ao experimento feita pela Moscamed teria que ser alinhada com a Oxitec, o que não ocorreu”, aponta a diretora. 

Nathalia diz ainda que tanto a Moscamed quanto a pesquisadora Margareth Capurro trabalham atualmente com uma tecnologia que compete com o trabalho realizado pela Oxitec. A diretora alega, no entanto, que não pode afirmar se a competição comercial tem qualquer relação com os erros no trabalho científico.  A Moscamed também foi  procurada diversas vezes pelo CORREIO, mas não respondeu às tentativas de contato.

*Com supervisão da editora Mariana Rios

Fonte: Correio