O racismo e as perspectivas feministas negras são o tema do encontro entre Lilia Schwarcz e Djamila Ribeiro, nesta terça-feira (1), às 20h30, no Fronteiras do Pensamento, no Teatro Castro Alves. Lilia é professora titular no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), além de atuar como curadora adjunta para histórias e narrativas no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Vencedora do Prêmio Jabuti por livros como As Barbas do Imperador e O Sol do Brasil, ela é autora também, junto com Heloisa Murgel Starling, de Brasil: Uma Biografia. Lilia é fundadora da editora Companhia das Letras, pela qual lançou, em 2019, sua mais recente publicação, Sobre o Autoritarismo.

O debate encerra a edição deste ano do evento patrocinado pela Braskem e pelo Governo do Estado da Bahia, com apoio do Clube Correio e da Rede Bahia.

O racismo e as perspectivas feministas negras são o tema do encontro entre Lilia Schwarcz e Djamila Ribeiro, hoje, às 20h30, no Fronteiras do Pensamento, no Teatro Castro Alves.

Lilia, de 62 anos, é paulista,  professora titular no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e atua como curadora adjunta para histórias e narrativas no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Vencedora do Prêmio Jabuti pelos livros As Barbas do Imperador e O Sol do Brasil, ela é autora também, junto com Heloisa Murgel Starling, de Brasil: Uma Biografia.

Lilia é fundadora da editora Companhia das Letras, pela qual lançou, em 2019, sua mais recente publicação: Sobre o Autoritarismo Brasileiro.A escritora criou também, em 2018, um canal no Youtube, em que discute questões raciais e a história do Brasil.

Djamila é paulista, tem 39 anos e é filósofa e pesquisadora. Desde os 19 anos, é militante e é hoje uma das mulheres mais importantes do movimento negro no país.

Nascida em São Paulo, foi criada em Santos, no litoral paulista, onde iniciou sua militância, estimulada pelo pai, um estivador que era membro do Partido Comunista. “Meu pai era do partido comunista, mas fazia discussão racial de maneira muito política, por isso tenho nome africano, minha irmã tem nome africano”, revela a autora dos livros O Que é Lugar de Fala? e Quem Tem Medo do Feminismo Negro? Agora, ela se prepara para lançar, em novembro, seu terceiro livro, Pequeno Manual Antirracista.

O encontro entre Djamila e Lilia encerra a edição deste ano do Fronteiras do Pensamento,  patrocinado pela Braskem e  Governo do Estado, com apoio do Clube CORREIO e  Rede Bahia. Os outros conferencistas foram o jornalista e escritor cubano Leonardo Padura e o filósofo francês Pierre Lévy.

FRONTEIRAS DO PENSAMENTO

Local: Teatro Castro Alves

Data: Terça-feira (1º), às 20h30

Ingresso: R$ 50 | R$ 25

ENTREVISTA COM DJAMILA RIBEIRO

Você é hoje uma autora consagrada, mas começou a ganhar visibilidade na internet. As redes sociais têm um papel importante no combate ao racismo?

As redes sociais, sobretudo, deram visibilidade para algumas pautas, já que éramos ignorados e, de certa maneira, ainda somos, pela mídia hegemônica. A gente entendeu que as redes sociais eram um espaço, mesmo com todos os limites, já que metade da população brasileira não tem acesso à internet. Mas, mesmo entendendo todos esses limites, eu penso que sim, ao mesmo tempo que dá visibilidade pra um lado que sempre esteve aí, conservador e tudo mais, mas eu acho que, sobretudo as feministas negras, souberam utilizar a internet para visibilizar os nossos trabalhos. Acho que nos últimos anos muitos ativistas têm tido mais alcance porque tiveram estratégias e souberam utilizar as redes a seu favor.

Seu pai foi militante. Qual a importância de sua família na sua formação política?

A minha família tem papel primordial, meu pai era militante do movimento negro e ele foi um dos fundadores do partido comunista em Santos no litoral de São Paulo. Eu nasci em São Paulo por um acaso, sou a mais nova de quatro irmãos, todos nasceram em Santos, eu nasci em São Paulo porque minha mãe estava de férias na casa da minha tia. Nasci no Hospital das Clínicas, fui registrada e dali já fui pra Santos, então só nasci em São Paulo. Minha vida toda foi em Santos, estudei a vida toda no Colégio Moderno dos Estivadores. Meu pai era estivador e o colégio era pra filhos e netos de estivadores. Era um colégio que tinha ensino de qualidade, mesmo sendo de uma categoria de trabalhadores. Foi a última geração de filhos de estivadores antes da privatização do porto. Então, a gente pegou uma educação de qualidade, tinha o hospital dos estivadores que a gente utilizava por ser filhas de estivadores.

Então, meu pai foi muito consciente, desde muito cedo ele fez com que meus irmãos e eu entendêssemos nossa realidade, então a gente ia a manifestações

A gente participava de reuniões no partido, a gente participou muito de cursos que a União Cultural Brasil União Soviética dava em Santos na época para os filhos dos comunistas, então isso foi algo que guiou muito das minhas visões políticas e muito aliado à questão racial. Meu pai era do partido comunista, mas fazia discussão racial de maneira muito política, por isso tenho nome africano, minha irmã tem nome africano. Sou filha de trabalhador tendo acesso a coisas, a uma educação de qualidade, uma consciência crítica que acho que mudou muito minha trajetória.

O conceito de lugar de fala parece ter sido distorcido, especialmente nas redes sociais. Às vezes, vemos alguém falar algo como “você não tem lugar de fala, portanto, não deve opinar nesta discussão”. Afinal, o lugar de fala prega isso?

De forma alguma! Não prega isso até porque é um conceito, pensar sobretudo quem foram os sujeitos sempre autorizados a falar a partir dos lugares sociais desses sujeitos, tem muita distorção de fato, tanto de quem está criticando que não leu e não entendeu e tanto de quem tá defendendo e também distorce. Então, a questão não é não ter um lugar de fala porque todos têm lugar de fala porque está localizado socialmente, então todo mundo fala. É a partir de onde se fala e não se pode ou não pode falar, então acho que há uma confusão entre lugar de fala e representatividade muitas vezes. Provavelmente uma travesti negra não vai se sentir representada por uma pessoa não travesti branca falando sobre ela, mas essa pessoa branca pode falar sobre essa questão a partir do lugar dela. Então, o lugar de fala também é uma postura de como pessoas brancas se comprometem com a luta antirracista, entendem seu lugar social, entendem que é um lugar de construção de poderes e privilégios e como elas podem contribui para a luta antirracista, então não é quem pode ou não falar, mas é de onde a gente fala. Às vezes acontecem essas confusões de achar “ah, eu sou branco, então não posso falar de racismo”. Não: deve falar, deveria falar, mas sobretudo a partir do que é ser branco, branquitude, que as pessoas acham que discutir questão racial é discutir a questão da negritude e não entende que estamos em relações raciais, então devemos discutir também o que é esse lugar da branquitude. A mesma coisa é a questão de gênero: o que é a questão da masculinidade, então às vezes a gente tem essas interpretações equivocadas, mas o lugar de fala é sobretudo a gente pensar que nós, como mulheres negras, por exemplo, compartilhamos experiências ainda que são muito marcadas por violências e que os sujeitos brancos, o homem branco que parte de um lugar de quem sempre foi autorizado a falar, do lugar da produção do saber, da produção do conhecimento, não gosta de ser questionado porque não entende que esse lugar foi construído, não é um lugar natural, então acho que incomoda muito porque esse homem branco também não quer se botar em confronto com outras visões de mundo, com outros saberes, com outros lugares porque ele acha que o lugar dele é que determina todos os outros lugares.

Você foi secretária adjunta de direitos humanos e cidadania de São Paulo, na gestão de Fernando Haddad como prefeito. Como acha que o poder público enfrenta as questões de racismo no Brasil?

Depende… em âmbito federal hoje, a gente vive um momento de retrocesso, de cortes, de muitos direitos e fim de políticas importantes para grupos historicamente discriminados. penso que em alguns estados existem políticas que são importantes, que estão sendo mantidas em alguns municípios, depende muito da visão política de cada lugar.

Mas de maneira geral de fato a gente vive no Brasil um momento muito preocupante, sobretudo em relação a populações negras e indígenas, teve um aumento exponencial de feminicídio, assassinato de jovens negros, sobretudo no Rio de Janeiro

Então essa discussão da segurança pública é uma discussão que mesmo em governos de esquerda foi uma discussão falha em que não houve políticas que pensassem outra segurança pública que não fosse pautada na repressão, então de fato, de maneira geral, a gente tá vivendo um momento muito preocupante no Brasil, de corte de políticas que estavam incidindo positivamente na vida de certos grupos.

Muitos dizem que no Brasil o racismo é velado. Concorda com isso?

Não acho que seja velado. A gente tem uma ideia de que racismo aconteceu onde houve apartheid legal, com Estados Unidos e África do Sul. No Brasil, a gente tem um apartheid institucional muito forte. O que tem aqui é uma cegueira em relação ao que é racismo, por conta do mito da democracia racial, que é um mito fundante da sociedade brasileira, de que aqui não tinha racismo, de que as pessoas convivem harmoniosamente e tal, o Brasil negou durante um tempo a existência do racismo, mas basta a gente olhar: aqui em Salvador, vá a Universidade Federal e veja quantas professores negros têm lá. Ou a gente chegar em determinados espaços, mesmo estando numa capital negra como Salvador e não vê pessoas negras se esse lugar é um lugar privilegiado. Então, as pessoas no Brasil têm uma ideia de que o racismo é só individual, quando uma pessoa ofende a outra ou quando uma atriz é xingada na internet. Ele não entende que racismo é chegar na Universidade de São Paulo e ver que todos os professores de filosofia são homens brancos. E que todas as mulheres que estão limpando os banheiros são negras. O brasileiro médio tem dificuldade de entender que racismo é um sistema de opressão que nega oportunidade a populações negras e que vem historicamente construindo abismos sociais entre populações negras e indígenas e a população branca no Brasil. Então, o racismo não é velado; é só uma questão de a gente não enxergar de fato ou não entender a profundidade do que é racismo como estrutura das relações sociais porque a gente tem essa falsa ideia de que o racismo é só no âmbito individual.

Você vai participar do Fronteiras do Pensamento junto com Lilia Schwarcz. Já participou de algum debate público com ela? Qual a importância da obra dela?

Lilia é uma grande referência de estudos sobre relações raciais no Brasil. É uma referência para mim, uma referência nos meus estudos há muito tempo. É a primeira vez que a gente participa de um debates junto, mas já conversamos informalmente. Já nos encontramos em alguns eventos, mas não na mesma mesa.

Ela tem contribuído de maneira muito importante para esse debate no Brasil, quando traz a biografia de tanta gente importante, como traz um trabalho sobre a questão da escravidão porque aqui as pessoas tem a ideia de que a escravidão é uma coisa muito do passado e que não interfere na construção da nossa sociedade

A biografia dela, por exemplo, de Lima Barreto, que foi um homem tão importante, mas ao mesmo tempo tão esquecido, ela tem feito trabalhos importante para visibilizar pessoas tão importantes da luta negra do Brasil é essencial.

Sobre o que será o seu próximo livro, Pequeno Manual Antirracista?

O livro desenvolve tópicos sobre o racismo em vários âmbitos, como “racismo e cultura”, “racismo e desejo”, então tentando esmiuçar de uma maneira muito didática que é muito da meus estilo sobre essas questões no Brasil de como as pessoas precisam se pensar como antirracistas. Não só falar da questão racial de maneira que hoje no Brasil , o Brasil tem muito isso: todo mundo é racista, mas ninguém assume que é racista. Então, as pessoas têm medo de serem colocadas como racistas. Mas elas muitas vezes não se preocupam em tomar atitudes de fato antirracistas na prática, então no livro trago uma discussão a partir de autoras como Neuza Santos, a própria Lilia Schwarcz, Abdias do Nascimento e tantos outros pra que as pessoas entendam o histórico do Brasil, mas ao mesmo tempo em alguns tópicos como na cultura, na mídia, a questão da violência… como essas questões se dão nesses âmbitos e como que a gente pode pensar saídas emancipatórias para essas questões.

Leia a entrevista com Lilia Schwarcz

Fonte: Correio