Um dos maiores festivais de cinema do estado, o Panorama Internacional Coisa de Cinema acontece entre os dias 30 de outubro e 6 de novembro, em Salvador e Cachoeira. No aniversário de 15 anos, o evento lembra importantes marcos no cinema local e nacional, a exemplo dos 30 anos de Superoutro, filme de estreia do baiano Edgard Navarro; 60 anos de Redenção, de Roberto Pires, primeiro longa-metragem feito na Bahia, e  que estreou no Cine Guarani, exatamente onde hoje funciona o Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha (que recebe a maior parte da programação do Panorama em Salvador); sem falar nos 80 anos do próprio Glauber Rocha (1939-1981) e da atriz e cineasta Helena Ignez, musa do cinema nacional que foi casada com Glauber, e também com o diretor Rogério Sganzerla.

Helena Ignez, em A Mulher da Luz Própria, documentário dirigido pela filha Sinai Sganzerla (Foto: Reprodução)

Segundo Cláudio Marques, idealizador do festival, a coincidência entre tantos marcos foi sendo percebida aos poucos. “Em março, eu fiz uma homenagem ao Glauber e exibi Terra em Transe no dia do aniversário dele. Em maio, veio os 80 anos de Helena Ignez. Conversando com Edgard Navarro, lembramos dos 30 anos de Superoutro e dos 50 de Meteorango Kid. Tem os 50 anos de Redenção também. Uma coincidência feliz, porque estes são nossos ícones, é a nossa representação, a nossa força”, diz.

Um resumo do espírito do próprio festival, que exibirá algumas dessas icônicas obras restauradas, e também apresentará longas e curtas inéditos nas mostras competitivas Nacional, Baiana e Internacional. Assim como no ano passado, Cachoeira também terá um mostra competitiva exclusiva, com curadoria independente feita pela cineasta Camila Gregório.

“A gente tem um cinema muito amplo e diverso atualmente. Não necessariamente todos os filmes têm uma ligação, mas o espírito do festival está norteado por isso, por essas figuras icônicas e por essas datas”, avalia Cláudio Marques.

A lista com os nomes das produções estrangeiras foi divulgada na semana passada, e hoje o CORREIO anuncia quais são os longas e curtas concorrentes na competitiva nacional (veja na página ao lado).

O país na tela
Diferente do que vinha acontecendo nos anos anteriores, na competitiva de longas não há nenhuma produção baiana. Mas dos oito filmes selecionados, dois estabelecem uma relação estreita com o estado, sobretudo com Glauber Rocha, o homenageado desse ano: A Mulher da Luz Própria, um documentário sobre Helena Ignez (que foi casada com Glauber) feito pela sua própria filha, Sinai Sganzerla; e Breve Miragem de Sol, ficção dirigida por Eryk Rocha (filho de Glauber) e protagonizada por Fabrício Boliveira.

Cena de Breve Miragem do Sol, filme de Eryk Rocha, protagonizado por Fabrício Boliveira e Bárbara Colen, atriz que está em cartaz no filme Bacurau (Foto: Divulgação)

“O Panorama tem uma curadoria muito singular, de muita personalidade, antenada e preocupada em dialogar com a diversidade estética e narrativa do cinema brasileiro”, destaca o já veterano Eryk Rocha, que começou a estreitar relações com o festival em 2003, durante sua segunda edição, quando exibiu o documentário Rocha que Voa, seu filme de estreia.

Aliás, outra missão do evento tem sido dar destaque aos longas de estreia dos realizadores. “É o caso do Fendas, que é de diretor do Rio Grande do Norte, e será exibido pela primeira vez durante o evento. Tem Rua Guaicurus e A Rainha Nzinga Chegou, ambos de Minas Gerais. Seja de veteranos ou de estreantes, temos uma produção criativa e autoral”, destaca Marília Hughes, curadora da Mostra Competitiva Nacional.

Rua Guaicurus mistura documentário e ficção, e conta história do maior complexo de prostituição de Belo Horizonte  (Foto: Divulgação)

Prova disso é o aclamado Pacarrete, filme de estreia do cearense Allan Deberton. Grande vencedor do 47º Festival de Gramado, o longa levou oito kikitos, incluindo Melhor Filme do júri oficial e do popular. A produção traz a atriz Marcélia Cartaxo em cena como uma bailarina tida como louca. 

Allan conta que se inspirou de Maria Araújo Lima, uma mulher que vivia na cidade de Russas, no interior do Ceará, e que ele conheceu quando era criança. No filme, Pacarrete decide fazer uma apresentação de dança como presente para a população, na véspera da festa de 200 anos da cidade. Mas parece que ninguém se importa.

Marcélia Cartaxo dá vida a Pacarrete, bailarina idosa tida como louca, que viveu no interior do Ceará; atuação rendeu um dos oito kikitos que o filme conquistou no Festival de Gramado (Foto: Divulgação)

“O filme tem conseguido conquistar uma boa recepção, e a gente vai sempre aos festivais com muita interesse nas pessoas, notando como o público reage, o que diz após a exibição. O filme dialoga com questões de agora, como o boicote à arte e a criminalização do artista, e a gente gosta muito de conversar sobre isso. Põe a gente num lugar criativo, revolucionário, oxigena nosso fazer“, comenta Allan, ao se dizer ansioso para sua estreia no Panorama. “Sabemos da importância e da qualidade do festival, e recebi a notícia da seleção com muita alegria e surpresa”, recorda.

O diretor conta ainda que a produção foi ainda mais especial por se parecer um pouco com a história de vida dele mesmo, já que, por diversas vezes, tentou fazer investidas culturais na cidade. “Era muito difícil, aí eu fiquei pensando em como deveria ter sido muito pior pra uma personagem folclórica da cidade que as pessoas apontavam como louca”, reflete.

Letícia Simões voltou para Salvador para documentar relação com a mãe (Foto: Divulgação)

Outro longa de estreia, e que estabelece uma relação mais explícita com Salvador, é Casa, da diretora baiana Letícia Simões. A trama acompanha o retorno de uma filha ausente (a própria Letícia) à cidade onde nasceu por medo de uma crise de sua mãe bipolar, o que serve de gatilho para uma reaproximação familiar e para a própria existência do filme, que elabora com sensibilidade uma árvore genealógica pautada pela relação entre elas (e também com a avó). O longa se permite cruzar histórias, formas de escrita de si – cartas, testemunhos, entrevistas – e arquivos imagéticos.

Na competitiva de curtas, disputam 16 obras, duas delas baianas: Rebento, de Vinicius Eliziario, e E o que a Gente Faz Agora?, de Marina Pontes; este último fruto do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), defendido em julho, na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e que  mostra a paixão de duas meninas. “Me parece ser uma tradição de temas de resistência, de corpos que sofrem algum tipo de opressão”, reflete Marina Pontes, 24, sobre o cinema feito na Bahia. 

Curta baiano E O Que A Gente Faz agora, de Marina Pontes (Foto: Divulgação)

Para este filme, ela contou com o auxílio de um trio de especialistas do PanLab 2017, realizado pelo Panorama Internacional Coisa de Cinema, para consultoria de roteiro. “Ter ele selecionado no laboratório foi uma conquista linda, prova de que havia potencial nele. Potencial que triplicou depois das consultorias, e das alterações que foram feitas a partir dali”, destaca.
E o que a Gente Faz Agora? estreou na mostra competitiva do Festival de Gramado, em agosto, e concorre ao III Festival Universitário de Cinema de Brasília (FestUni) este mês.

“Minha história com o Panorama nasceu em 2015. Eu tinha acabado de mudar para Cachoeira, pra fazer cinema, e o Panorama foi o promeiro festival de cinema a que tive acesso em toda minha vida. E, consequentemente, foi onde eu conheci de fato o cinema brasileiro e o formato curta-metragem. Antes disso, tinha assistido pouquíssimos filmes brasileiros, e nenhum curta. Então,
existem três marcos importantes na minha relação com o Panorama: esse lugar de espectadora, do primeiro contato com o cinema brasileiro, seguida da formação através do PanLab 2017. A consultoria de roteiro do Panorama foi uma experiência incrível para mim. Eu estava no terceiro, quarto semestre do curso, e esse curta foi o segundo roteiro que escrevi na faculdade. Ter ele selecionado no PanLab foi uma conquista linda, prova de que havia potencial nele. Potencial esse que triplicou depois das consultorias, e das alterações que foram feitas a partir dali. E agora vem esse terceiro momento que é o de ser realizadora dentro do festival. O filme é o terceiro de uma trilogia de curtas, e todos eles participaram de competitivas no Panorama”, explica Marina Pontes.

Rodando diversos festivais do país, o curta baiano Rebento, por sua vez, conta história de Zói, um garoto dentre os 5,5 milhões de crianças deste país que não tem o nome do pai no registro, que teve que lidar com essa ausência, e teve sua mãe como base pra viver. Em agosto, o filme, que contém críticas ao presidente, foi vetado na 3ª Mostra do Filme Marginal, que seria realizada no Centro Cultural da Justiça Federal. 

MARCOS IMPORTANTES LEMBRADOS NO XV PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA

80 anos de Glauber Rocha e Helena Ignez: Casados por cinco anos, cineastas lançaram em 1959 O Pátio, curta que inaugurou a carreira cinematográfica dos dois. Na foto ao lado, eles aparecem juntos durante filmagens. helena ignez é tema de um dos longas do competitiva, A Mulher da Luz Própria, dirigido por sua filha Sinai Sganzerla (Foto: Divulgação)

60 anos de Redenção, primeiro longa baiano: Dirigido por roberto pires, o filme estreou no Cine Guarani (atual espaço itaú glauber rocha), no dia 6 de março de 1959, em um evento de gala. Depois de ser dado como perdido em 1970, foi restaurado em 2009, após uma cópia ter sido encontrada (Foto: Divulgação)

30 anos de Superoutro, de Edgard Navarro: Recebeu os prêmios de melhor filme, melhor direção e melhor ator no Festival de Gramado de 89, além de ter sido selecionado para vários festivais internacionais. Segundo a Abraccine, é o 44º melhor filme brasileiro de todos os tempos (Foto: Reprodução)

LONGAS
A Mulher da Luz Própria, de Sinai Sganzerla. SP, 75′, Cor, Digital, 2019

Helena Ignez é uma das principais personalidades femininas do cinema brasileiro. Inaugurou um novo estilo de interpretação e hoje dirige filmes independentes. O documentário descreve parte da história do cinema, o contexto político e sua trajetória.

A Rainha Nzinga Chegou, de Júnia Torres e Isabel Casimira. MG, 74′, Cor, Digital, 2019
Três gerações de rainhas e uma travessia de volta aos domínios da mítica Nzinga, às terras dos reis do Congo, aos cantos de Angola, pelos descendentes da rainha da Guarda de Moçambique Treze de Maio, Isabel Cassimira, personagem central dessa história.

A Rosa Azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro. SP, 70′, Cor, Digital, 2019
Marcelo, um dândi de cerca de 40 anos, possui uma memória inigualável. Revive lembranças familiares em sua cabeça e tem recordações de suas vidas passadas. Em uma delas, foi Novalis, poeta alemão que perseguia uma rosa azul. E nessa vida atual, o que Marcelo persegue?

Breve Miragem de Sol, de Eryk Rocha. Brasil/França/Argentina, 98′, Cor, Digital, 2019
Paulo começa a dirigir um táxi para pagar suas contas e ajudar no sustento de seu filho. As histórias de seus passageiros se entrelaçam com a sua enquanto ele dirige pela noite no Rio de Janeiro – uma cidade caótica em constante reinvenção. Mesmo que cada passageiro tenha seu próprio destino, é Paulo que está ao volante, almejando por dias melhores em sua cidade caindo aos pedaços.

Casa, de Letícia Simões. PE, 94’, Cor, Digital, 2019
Vencedor do prêmio da crítica na 8ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, o filme é dirigido por uma  e marca o retorno de uma filha ausente (a própria diretora) à  Salvador, cidade ond nasceu, por medo de uma crise de sua mãe bipolar, é o gatilho para uma reaproximação familiar.

Fendas, de Carlos Segundo. SP, 80′, Cor, Digital, 2019
Um recorte da vida de Catarina, pesquisadora do campo da física quântica. O mergulho em sua pesquisa é, ao mesmo tempo, um mergulho em sua vida.

Pacarrete, de Allan Deberton. CE, 98′, Cor, Digital, 2019
Vencedor de oito prêmios no Festival de Gramado, o filme é o longa de estreia do cearense Allan Deberton, que se inspirou em uma história real. Pacarrete é uma bailarina idosa, considerada louca, que vive em Russas, uma cidade do interior. Na véspera da festa de 200 anos da cidade, ela decide fazer uma apresentação de dança, como presente, “para o povo”. Mas parece que ninguém se importa…

Rua Guaicurus, de João Borges. MG, 75’, Cor, Digital, 2019
A rua Guaicurus é uma das maiores zonas de prostituição do Brasil, localizada no centro da cidade de Belo Horizonte, desde os anos 50. Atualmente funcionam mais de 25 hotéis na região, com aproximadamente três mil trabalhadoras do sexo. O filme vai revelar este enorme complexo de prostituição por meio de situações que eclodem das relações entre suas personagens.

CURTAS

A Mulher Que Sou, de Nathalia Tereza. PE, 16′ Cor, Digital, 2019
Marta quer se dar a chance de viver uma nova vida, em uma nova cidade.

A Profundidade da Areia, de Hugo Reis. ES, 17′, Cor, Digital, 2019
Num tempo impreciso, uma caminhada contínua e uma ameaça invisível. Pouco a pouco surgem os vestígios de um passado que eles parecem desconhecer, mas não totalmente.

Antes de Ontem, de Caio Franco. SP, 7′, Cor, Digital, 2019
Algumas pessoas ainda não sabem quem são.

Aqui e Agora, de Diogo Martins. SP, 19′, Cor, Digital, 2019
Cercados por ferragens, Haitiano e Brasileira tem uma noite de namoro para não se esquecerem.

Babi & Elvis, de Mariana Borges. MG, 19′, Cor, Digital, 2019
Babi vai se casar com Elvis no Bar do Fernando.

Em Reforma, de Diana Coelho. RN, 20′, Cor, Digital, 2019
Ao receber a notícia de que a filha vem passar uns dias em sua companhia, Bianca decide retomar a obra inacabada na laje de sua pequena casa. Os planos, contudo, não saem como o esperado.

E o que a Gente Faz Agora?, de Marina Pontes. BA, 17′, Cor, Digital, 2019
“E não há, de onde vejo, nenhuma diferença entre escrever um poema maravilhoso e me mexer na luz do sol junto ao corpo de uma mulher que amo.” Audre Lorde

Eu, Minha Mãe e Wallace, de Marcos e Eduardo Carvalho. RJ, 23′, Cor, Digital, 2018
A história de uma fotografia: Uma mãe solteira, um pai ausente e uma criança.

Ilhas de Calor, de Ulisses Arthur. AL, 20′, Cor, Digital, 2019
Na escola, Fabrício está apaixonado por Anderson e guarda esse segredo só para si.

Quantos Eram Pra Tá?, de Vinícius Silva. SP, 30′, Cor, Digital, 2018
Cotidiano de três jovens negros estudantes da USP. Dandara, aluna de Ciências Sociais, Luiz, de Teatro, e Vinícius, de Cinema, representam uma geração de jovens negros e negras que acessaram universidades públicas nos últimos anos e, com suas diferenças, encontram um ao outro como refúgio e compartilham vivências neste ambiente.

Rã, de Ana Flávia Cavalcanti e Julia Zakia. SP 16′, Cor, Digital, 2019
Diadema, 1988. A história da primeira vez que Aninha, sua família e vizinhos próximos comeram carne de rã.

Rebento, de Vinicius Eliziario. BA, 18′, Cor, Digital, 2019
Zói, ao saber da gravidez de sua namorada, desata em si, sentimentos suspensos. Pedro, só queria terminar o desenho de sua família.

Ronda, de Mauricio Battistuci e Francisco Miguez. SP, 25′, Cor, Digital, 2019
Segurança desempregado, Hélio cai em uma espiral de encontros em São Paulo. Enquanto faz promessas de ascensão para sua companheira que ainda não veio para a capital, passa a rondar a cidade, sem rumo, por sua função.

Rosário, de Igor Travassos e Juliana Soares. PE, 18′, Cor, Digital, 2019
Rosário mora no morro e trabalha numa feira de bairro. Desde que sofreu uma grande perda, ela tem o hábito de ouvir o programa policial toda manhã e rezar pelas vítimas e suspeitos dos crimes da madrugada, até que um dia ela vira personagem de uma dessas histórias.

Sem Asas, de Renata Martins. SP, 20′, Cor, Digital, 2019
Zu é um garoto negro de doze anos. Ele vai à mercearia comprar farinha de trigo para a sua mãe e, na volta pra casa, descobre que pode voar.

NEGRUM3, de Diego Paulino. SP, 22′, Cor, Digital, 2018
Entre melanina e planetas longínquos, NEGRUM3 propõe um mergulho na caminhada de jovens negros da cidade de São Paulo. Um ensaio sobre negritude, viadagem e aspirações espaciais dos filhos da diáspora.

Fonte: Correio