Ninguém podia imaginar o desfecho trágico da festa beneficente Fazer o Bem no domingo (29), no bairro periférico Morro Doce, na zona norte de São Paulo. Há oito anos, voluntários organizam evento para distribuir doces, cortes de cabelo, maquiagem e tratamento dentário para mais de mil crianças.

Naquele dia, Raíssa Eloá Capareli Dadona, 9, chegaria com a mãe, o irmão de cinco anos e o novo amigo, um garoto de 12 anos que havia se mudado poucas semanas antes para uma casa a cerca de cem metros da sua.

Os dois não se desgrudaram. Comeram algodão doce e estavam na fila do pula-pula.

Ele pegou uma ficha para cortar o cabelo, mas não ficou até chegar sua vez. Foi o tempo em que a mãe de Raíssa recebeu uma oração e colocou o nome numa lista para receber cestas básicas, foi pegar pipoca e a menina sumiu de vista.

Raíssa e o menino deixaram o local, próximo ao CEU (Centro de Educação Unificada) Anhanguera e andaram cerca de 3,5 km até o parque Anhanguera. Imagens de uma câmera de segurança mostraram os dois de mãos dadas na estrada de Perus.
Raíssa foi encontrada morta, amarrada pelo pescoço a uma árvore, com o rosto muito ferido. O menino confessou o crime e está internado provisoriamente na Fundação Casa.

“Ninguém sabe como eles se aproximaram tão rápido”, diz o vizinho, o pastor Agnaldo Alves da Silva, 55. Isso porque Raíssa, segundo ele, era “bem retraída, tinha medo das pessoas. Era bem arisca, por isso a mãe ficava o tempo todo com ela. Chegava a ser superprotetora.”

A vida da menina era entre a casa, a escola e a igreja. Ela é descrita por pessoas próximas como introspectiva, tímida, e até inocente para a idade. Autista, recebia os cuidados quase ininterruptos da mãe e não brincava na rua.

Às vezes saía à noite apenas para acompanhar a mãe, que levava folhetos para evangelizar moradores do bairro junto com os filhos.
A família mora ali desde 2017. Antes de ir pra escola, ela passava o dia na garagem da casa em frente, que fora transformada em barbearia por Pablo Klebson, 36. “Tio, tio, tio, tô indo estudar”, anunciava a menina antes de se embrenhar com Tininha, a cachorrinha minúscula que rodeia o lugar.

Raíssa estudava numa escola regular pela manhã e passava as tardes no Núcleo de Apoio à Inclusão Social para Pessoas com Deficiência, da prefeitura.

Fechada, “ela só interagia com quem se sentia confiante, aí ria, brincava. Se ela não conhecia, não interagia”, conta Klebson, que ganhou a pequena. “Ela me rodava na cadeira. E trouxe uma rosa de plástico pra Tininha, que eu guardei ali. Às vezes ouvia ela cantando louvor lá de dentro.”

Segundo o pastor, a família é muito pobre e recebia ajuda de parentes para pagar o aluguel e bancar as despesas. Na festa beneficente, a mãe de Raíssa chegou a pedir comida aos voluntários, aos quais disse que estavam passando fome. Foi quando entrou na lista para receber as cestas básicas.

Do menino, Klebson se lembra de ter oferecido um corte de cabelo, já que a família aparentemente não tinha condições financeiras. Ele chegara na rua havia poucas semanas e vivia com a mãe, duas irmãs e o padrasto. No pouco contato que deve, o barbeiro o define como “uma criança normal”.

Quem dividia muro com o garoto era a estudante Yasmim Carvalho, 14. Ela conta que ele não brincava muito com os vizinhos, porque das vezes em que ficou na rua com os outros, foi agressivo.
“Ele se irritava fácil, explodia, sabe? Então a gente não era muito próximo.” Mas ela “jamais imaginaria” que ele pudesse fazer algo do tipo.

“Como um menino de 12 anos pode matar uma de nove?”, se pergunta Yasmin e outros vizinhos, céticos sobre a capacidade do garoto de executar uma ação tão brutal.

O barbeiro Rafael Mota, 29, organizador da festa beneficente, afirma que o garoto “era revoltado”. Certa vez, teria partido para cima de outra menina com uma caneta, na tentativa de furar-lhe o olho. Mas não acertou, segundo seu relato. Também era arredio na escola e chegou a fazer ameaças de morte à “tia da perua”.

Os moradores especulam que o garoto talvez não tenha agido sozinho. Ele não teria a força ou a maldade para matar daquele jeito, deduzem, mesmo lembrando da agressividade demonstrada com os colegas.

Mota aposta em bruxaria, pela forma como a menina foi encontrada. A imagem do corpo ferido e amarrado circula pelo WhatsApp dos moradores. Ela não chegou a ser suspensa pela corda, ou seja, seus pés encostavam no chão. Raíssa vestia um conjuntinho rosa e estava descalça.

“Tiraram o olho. Deformaram só o rosto. Não tem outra explicação”, diz Mota. “Alguém agiu de má-fé e usou ele por saber desse comportamento”, supõe o barbeiro.

A polícia ainda não sabe o que motivou o crime e procura descobrir se há outros envolvidos. O garoto chegou a citar três versões em seus depoimentos. Na primeira, disse que apenas havia encontrado o corpo. Em outra, que um homem de bicicleta teria matado a menina. Depois, confessou que havia cometido o crime, sozinho.

 

Fonte: Agencia Brasil