Do alto, a impressão que se tem é que sonhos de anos viraram um monte de papelão misturado ao barro molhado. “Foram 35 anos de duro trabalho, cada bloco, cada cimento, foram resultados do meu suor de domingo a domingo”, lamentou o porteiro Manoel Braga, 45 anos, diante de uma cratera com escombros. Era por volta das 23h quando o chão sacudiu duas vezes e em instantes cinco casas, inclusive a de Manoel, desabaram na noite chuvosa desta quinta-feira (3), na Fazenda Grande do Retiro.  

As cinco casas que vieram ao chão faziam parte dos 19 imóveis que foram interditados pela Defesa Civil no dia 19 de agosto deste ano na 1ª Avenida Candinho Fernandes. Todas apresentavam rachaduras nas paredes e nos pisos. Segundo a Prefeitura,  após a ruptura de parte da contenção da encosta na localidade, o que provocou o desmoronamento de cinco imóveis que já haviam sido evacuados.

Alguns imóveis permanecem erguidos, mas é só uma questão de tempo. Com o deslizamento, foi junto também parte da terra que sustentava algumas fundações, elevando para 30 o total de imóveis evacuados na 1ª Avenida Candinho Fernandes. Na manhã desta sexta-feira (4), a Defesa Civil isolou a área e a Guarda Municipal foi acionada para garantir que apenas os moradores tivessem acesso para retirar os móveis, além da permanência de pessoas autorizadas, como funcionários da prefeitura. 

A minha casa está na beiradinha, a qualquer momento pode descer, do jeito que está o terreno. Estava na casa de uma vizinha quando fui informada pelo WhatsApp do deslizamento. Estou tirando tudo o mais rápido que posso, contando com ajuda de um, de outro, e levando as coisas para a casa de minha irmã que fixa aqui perto”, lamentou a dona de casa Lucélia da Luz. 

Lucélia não foi a única pessoa que teve que providenciar às pressas um local para guardar as coisas. O porteiro Jaime Alves de Oliveira, 55, era o rosto da impotência. Emocionado, ele colocava todos móveis num caminhão de mudança. “A sensação é terrível e a gente não pode fazer nada, a não ser deixar para trás um sonho de anos, erguido num trabalho em conjunto com a minha mulher. Vamos deixar tudo na casa de um parente”, disse ele, enquanto enxugava as lágrimas. 

Morador há 40 anos da localidade, o zelador Jerônimo Correia Alves, 43, fazia um vai e vem constante entre a sua casa e uma picape à beira da rua. Ele, o filho adolescente e vizinhos carregavam a carroceria do carro com móveis. “A minha casa é uma das que já vinha sido interditada e ontem voltei a recolher algumas coisas que faltavam. Mas com esse deslizamento de agora, estou tentando retirar o que ainda falta”, contou ele.  

Novas moradias
O vice-prefeito e secretário municipal de Infraestrutura e Obras Públicas, Bruno Reis, esteve na comunidade pela manhã e garantiu que as famílias prejudicadas irão ganhar novas moradias no Conjunto Habitacional Barro Branco, que possui cerca de 120 apartamentos e está sendo construído pelo município no Alto do Peru. “Acreditamos que, em abril, essas famílias irão ter seus novos imóveis em um local definitivo e mais seguro. Até lá, a Prefeitura estará ajudando essas pessoas, como já tem feito aqui, com benefícios como o Aluguel Social e também o auxílio emergência, para quem teve perdas materiais”, declarou. 

Reis disse que as moradias do Conjunto Habitacional Barro Branco são casas construídas no padrão da Prefeitura, avaliadas em R$ 90 mil. “É o valor que a gente está construindo, R$ 90 mil, mas a pessoa tem a preferência de ir para lá ou pode optar pela indenização”, disse Reis.

Mas a cozinheira desempregada Ana Bacelar Bezerra questionou os valores oferecidos. “Meu imóvel vai cair a qualquer momento. Está por um triz. Uma casa de três pavimentos onde moram 11 pessoas, eu, meu marido, filhos e netos e a Prefeitura quer indenizar por R$ 30 mil? Como pode? Se a própria Prefeitura, através do IPTU, avaliou minha casa por R$ 250 mil? É injusto”, disse ela logo após a saída de Reis. 

Causas
Sobre as razões da ruptura da cortina da encosta e as rachaduras nas residências, Reis disse que, desde maio, a Prefeitura havia identificado o acúmulo de água no talude da encosta, provavelmente em função do vazamento de alguma adutora da Embasa. As investigações continuam para saber quem é o responsável: se a concessionária de água e esgoto ou a empresa que executou a obra de contenção – Consórcio Maf e GeoBahia.

“Desde maio a empresa acionou a Embasa para investigar esse acúmulo de água. Contratamos um técnico, que emitiu um laudo informando que o problema era o vazamento de água. Mas a concessionária não tomou providências. Vamos demolir algumas casas que estavam condenadas para continuar a investigação, para saber também se foi a obra da encosta que provocou o rompimento de alguma adutora ou não”, disse Reis. 

O CORREIO procurou a Embasa e vai atualizar essa reportagem assim que receber um posicionamento da empresa.

Crea
Diante da situação, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea-Ba) foi ao local para fazer uma avaliação. “É uma obra que requer todo o cuido ainda mais localizada numa situação dessa, imóveis construídos de maneira informal não tem toda a técnica de engenharia necessária. São obras de contenção que sempre foram feitas. Fatos excepcionais não puderam ser previsto com antecedência e com a chuva piorou tudo e veiou acontecer o deslizamento”, explicou o conselheiro do Crea, o engenheiro civil João Neto. 

Segundo ele, o Crea tem como obrigação a fiscalização do exército da profissão. “Não verifica se a estrutura está feita corretamente ou não. Mas e se houve algum indício de negligência ou imperícia, o Crea poderá abrir uma investigação para verificar os fatores”, declarou Neto. 

Trabalho permanente
Técnicos, gestores e trabalhadores de vários órgãos da Prefeitura, a exemplo da Defesa Civil, das secretarias de Infraestrutura e Obras Públicas (Seinfra), de Promoção Social e Combate à Pobreza (Sempre) e de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), além da Superintendência de Obras Públicas (Sucop) e da Limpurb, atuam na localidade executando diversas ações, a exemplo do estudo para demolição de imóveis condenados, remoção de escombros e auxílio a famílias. 

“Já havíamos identificado fissuras e rachaduras em vários imóveis aqui nesse trecho onde as casas desabaram na noite de ontem, há cerca de 30 dias, e isolamos a área, o que foi fundamental para que não tivéssemos vítimas e garantindo o bem maior de todos nós, que é a vida. Além disso, isolamos hoje uma nova área da comunidade, e estamos fazendo esse trabalho de identificação dos imóveis e das famílias, para que elas também possam receber auxílios sociais”, declarou o diretor-geral da Defesa Civil de Salvador, Sosthenes Macêdo. 

Segundo a Sempre, 41 famílias da comunidade já recebiam Aluguel Social. Uma equipe da pasta está no local fazendo o novo levantamento. 

Fonte: Correio