Diz que aquilo não era paixão, mas não ousa dimensionar qual outro sentimento arrebatador o faria retardar, por 43 anos, o sonho de toda uma vida. Primeiro soteropolitano viúvo agraciado padre, Heldo Jorge dos Santos até iniciou os passos rumo ao sacerdócio. Fez catequese, concluiu a primeira comunhão e, até os 14, foi seminarista. Pouco depois, por destino ou acaso, no entanto, conheceu sua razão e realização: Lilia Maria de Araújo. Com ela casou e teve três filhos.

O segundo grau da Igreja só alcança hoje, quando recebe a Ordenação Presbiteral pelas mãos do arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger. Mas ser padre sempre foi um desejo ardente e persistente, descreve Heldo, aos 75. Como também a vontade de se aproximar de Lilia, àquela época, uma adolescente dois anos mais nova e filha de uma beata que o julgava comunista. 

“Porque eu era presidente do grêmio estudantil, minha sogra era contra nós dois juntos”, recorda, sobre os 16 anos e início do único relacionamento da vida. Que foi eterno enquanto durou, até 2006, quando a esposa morreu vítima de embolia pulmonar, aos 59 anos. Decidiu, então, pelo celibato. Havia prometido a Lilia, por mais de uma vez: “Se você morrer, eu vou para o convento”, diz. E lembra que a mulher era entusiasta da ideia.

Mas ainda que não fosse, era o que faria. Porque para Jorge, nem mesmo o berço da família genuinamente católica dá conta do que ele chama de vocação religiosa, ou chamado de Deus. Os pais, muito pobres, criaram os sete filhos, sendo Jorge o mais velho, sob os dogmas do catolicismo. 

“É como cresci. Mas sei que mesmo que meus familiares não tivessem qualquer relação com a Igreja, eu seria padre um dia, sempre soube”, declara ele, agraciado com a Ordenação Diaconal [primeiro grau da igreja] há cinco anos, com as bênçãos de Dom Murilo. A única exigência para esta, já atendia. Era a de ser casado.

Primeiro padre viúvo
O arcebispo da capital revelou ao CORREIO que há, na arquidiocese baiana, um outro padre viúvo, Roque Lé de Almeida – mas este é do Rio Grande do Sul e só depois foi transferido para Salvador, onde, segundo o arcebispo, “ajudou muito no Santuário da Bem-Aventurada Dulce dos Pobres”, no Largo de Roma. Hoje ele está afastado, com 93 anos. 

“Não basta alguém ser viúvo para poder ser sacerdote. Pesa muito na decisão de aceitá-lo ou não como candidato a sua atuação pastoral até ali, sua inserção em uma paróquia, seus estudos. Exige-se de um candidato o curso de Filosofia ou Teologia. É necessário que a pessoa tenha as qualidades físicas, espirituais e intelectuais adequadas, e há, finalmente, o chamado da Igreja”, salienta Krieger. 

Quanto à relação dos religiosos com padres que têm família constituída, e já tiveram esposa, o arcebispo esclarece que “quando se fala de vocação” é como se fosse “um chamado de Deus”, ou seja, um desejo que começa a ser insistente na vida da pessoa. Pode-se dizer que é um pouco da história de Heldo, que atualmente é administrador na Igreja de Santa Luzia do Pilar, no Comércio.

O título do inédito, aliás, é colocado à prova pelo próprio diácono, que se diz, enquanto advogado especialista em Direito do Trabalho, “um homem da ética”. “Dizem que sou o único daqui, mas não sei. Deixo que digam, mas eu precisaria pesquisar melhor isso para garantir, sem margem para erros”. 

Seja ou não o primeiro, o religioso atende aos critérios exigidos pela Igreja. Habituado aos sacramentos de primeiro grau – batismo, matrimônio e celebração da palavra – se diz ansioso para os próximos, os de padre. Unção dos enfermos, celebração eucarística e confissão. Aproveita para confessar que a ânsia maior é saber para qual paróquia será direcionado. “O bispo quem decide. Ele avalia a necessidade de todas elas, e determina qual”. 

Coincidência
Formado pela Universidade Católica do Salvador (Ucsal) em Teologia, Direito, Administração e Filosofia, Jorge diz que nunca se sentiu entre a cruz e a espada. É como se, no coração, a certeza de que um dia se entregaria totalmente ao sacerdócio fosse o consolo suficiente para atravessar o feliz casamento com Lilia, com quem dividiu – além de miudezas do dia a dia – até a data de nascimento, 8 de dezembro. Mesma data de casamento.

“É tanta coincidência. Nasci em casa, aparado por minha avó. Nessa mesma residência, dois anos depois, foi para onde minha mulher foi depois de nascer, em um hospital da cidade”.

Heldo recorda que o lugar em que sua mãe pariu, aos 16 anos, no bairro de Brotas, foi vendido para o pai da esposa quando a sogra já estava prestes a parir. 

Os pais deles eram funcionários de um banco, no Comércio. “Lembro que vi Lilia a primeira vez na escola. A gente ficou perto e, assim, aquilo não era paixão, mas era uma vontade de ficar perto, ficar perto, mas a mãe dela não gostava de mim”, revela, aos risos. Ri, porquê até hoje não entende bem a relação que a sogra encontrava entre o comunismo e a presidência do grêmio estudantil do Colégio Manoel Devoto, no bairro do Rio Vermelho. 

Aos 16 anos, Heldo Jorge já tinha como maior atribuição chefiar uma família muito, muito pobre, destaca o diácono. Filho de merendeira, só tinha 14 anos quando o pai foi embora e, naquele momento, não restou muita alternativa senão buscar emprego. Coincidiu com o tempo em que se afastou do Seminário Central da Bahia, na Federação, por uma combinação de motivos que envolvem dinheiro e outras questões pessoais. “Foi uma época de muito conhecimento. Eu aprendi do grego ao latim, foi grandioso, muito conhecimento”.

Igreja presente
Os olhos azuis demonstram o orgulho, ainda hoje, de ser o melhor entre os candidatos em um concurso da Petrobras, em 1959. E lamenta “muito” a saída da empresa da Bahia. Se aposentou por lá, onde atuou por 35 anos em “algumas áreas”. Pouco antes, foi office boy por nove meses, na extinta companhia de aviação Varig. 

A mesma função, desenvolveu na agência de viagens Frank. O dono virou padrasto. “E eu ganhei outros dois irmãos”. Todos, entre filhos, netos e irmãos, estão realizados com o sacerdócio, garante. Heldo e Lilia eram um casal católico realizado, conta o sacerdote. Se aproveitaram sem filhos por cinco anos. 

Se divertiam nos Encontros de Casais em Cristo com os conhecidos, palestraram de cursos preparatórios para o matrimônio e, por 18 anos, integraram a Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres, em Nazaré. Moraram na Baixa do Bonfim, na Cidade Baixa, em Brotas, e até em Villas do Atlântico, na Região Metropolitana. 

Quando os três rebentos, hoje com 54, 52 e 51 anos, já eram uma realidade, a vida seguiu em harmonia. Os “meninos saíram todos homens”, para a felicidade de Heldo. “Ela queria muito uma menina, tanto que babava muito a netinha”, comenta, em referência à mais nova, dos quatro netos – que moram no Rio de Janeiro com os pais. 

O ápice da vida a dois, contudo, pode destacar. Uma viagem para o Havaí, onde foram para comemorar os 25 anos de casados. “Nossa, ela estava tão feliz. Foi uma viagem incrível. Quem casar e puder, que vá para aquelas ilhas porque vale muito a pena”. Onde quer que fosse, a Igreja sempre esteve presente. “Sempre tive a certeza que só foi possível superar as crises conjugais pela presença de Deus em nossas vidas”.

Padre
Heldo acorda cedo todos os dias e leva uma vida normal. Ouve Chico Caetano. Além dos trabalhos que ainda faz como advogado, deu aulas nos cursos de Direito e Administração na Ucsal por 28 anos, até 2018. Garante que ainda não sente falta das salas de aula, preenche o tempo, em geral, com atividades voltadas para a igreja.

O diácono mora sozinho em um apartamento no Horto Florestal e diz que não tem apego nenhum a bens materiais. “Nunca tive”, exclama. Defende que os bens que construiu, a custo de “muito trabalho”, foi pensando no futuro dos filhos que, embora casados e em outro estado, têm uma relação próxima com o pai – a quem vão assistir, pessoalmente, virar padre.

Se a escolha de um homem viúvo que tem filhos e netos for a de passar a viver em função da Igreja, Dom Murilo defende que as “escolhas de Jesus, que chama quem quer, quando quer, onde quer”, são respeitadas. Os bens de Heldo continuam sendo dele, completa. “Ele tem liberdade de destiná-los agora ou mais tarde para quem desejar”. 

O religioso diz que, embora haja registros das circunstâncias, se sabe que ao menos o apóstolo Pedro havia sido casado. “O que não se sabe é se quando Jesus o chamou ele deixou a esposa, ou se ela já havia morrido”, diz, ao completar que o celibato, naquela época, não era obrigatório.

À reportagem, Krieger disse que “Deus não chama alguém antes de tudo para exercer um trabalho, mas para ser dele”. Heldo Jorge, por sua vez, garante a consciência de que o sacerdócio “não é um privilégio, mas o participar de uma vida a serviço do povo de Deus”. Como em uma relação matrimonial, o diácono jurou à Igreja a mesma fidelidade que garante ter cumprido à Lilia, a quem atribui o título de única mulher pela qual sentiu atração.

Fonte: Correio