A falta de representatividade nos comerciais também afeta modelos de pele mais escura, que têm mais dificuldade de conseguir trabalho e recebem, na maioria casos, salários mais baixos, segundo Helder Dias, dono da HDA.

“As de tonalidade clara trabalham muito mais. Alguns clientes dizem para não mandar negras retintas. Pedem estilo Camila Pitanga ou Taís Araújo”, diz ele, cuja agência é especializada em modelos negros.

Segundo a representante interina da ONU Mulheres Brasil, Ana Carolina Querino, essa classificação dos negros de acordo com o tom de pele é mais uma das muitas formas de racismo. “Quanto mais próximo do fenótipo branco, com nariz e lábios mais finos, mais possibilidades a pessoa tem. Isso passa uma falsa sensação de que cresceu a diversidade.”

Priscila Sena, que tem a pele mais escura, também nota esse preconceito. Ela começou no ramo aos 15, foi modelo de passarela e de publicidade, e conta que costumava ser chamada apenas quando os produtos eram específicos para mulheres negras. 

“Uma empresa de cosméticos não vai me colocar em um comercial geral da marca. Com isso, o lugar que a gente ocupa fica super restrito.”

Sena diz que, enquanto suas amigas brancas fechavam um trabalho por semana, ela fazia um por mês. Ela ainda é modelo, mas começou um curso para ser aeromoça.

Essa desigualdade no mercado chamou atenção do MPT (Ministério Público do Trabalho). Recentemente, o órgão levantou dados sobre a participação de negros no meio publicitário, como parte de um projeto de promoção da diversidade no trabalho. 

“Fizemos esse mapeamento [nas agências] e existe uma subrepresentação. O segmento tem consciência disso”, diz a procuradora do trabalho Valdirene Assis, gerente do Projeto de Inclusão de Jovens Negras e Negros no Mercado de Trabalho do MPT. 

Em setembro, 15 agências assinaram em São Paulo um pacto com o MPT em que se comprometem a aumentar em 30% a contratação de negros e desenvolver uma política interna de equidade racial. Assis, que também é negra, diz que os números serão divulgados ao final do processo, que deve durar dois anos. 

Há profissionais do setor que também se preocupam com essa disparidade. Em 2017, um grupo criou o movimento PN (Publicitários Negros), que organiza mentorias, capacitações e tem uma espécie de banco de talentos. 

Com isso, esperam suprir uma das lacunas que dificultam a entrada de negros em agências: a falta de networking. A ausência do famoso “quem indica” é apontada como um dos entraves à inserção da mulher negra em empresas em geral, mas é especialmente problemática no meio publicitário, segundo Camila Novaes, que é negra e faz parte do conselho do PN.

“O mercado publicitário ainda é predominantemente masculino, branco e elitista”. 

Fonte: Agencia Brasil