(Foto: Bruno Wendel/CORREIO)

Bolo de ovos, café com leite, chá de erva cidreira, pão integral e a manteiga sobre uma mesa de plástico forradas com uma toalha estampada. Um modesto café-da-manhã e o sorriso largo de Alice Ferreira Silva, 58 anos, amanheceram na entrada 1ª Avenida Candinho Fernandes em Fazenda Grande do Retiro, em Salvador. Ela não teve a casa demolida, tampouco interditada, mas solidária e solitária tentou minimizar o sofrimento de quem viu o trabalho de anos virar entulhos em segundos nesta quinta-feira, quando cinco casas desabaram no bairro. 

“Eu não perdi nada, mas as pessoas perderam o pouco que tinham. Alguns levaram a vida inteira para construir uma moradia que hoje é pó. São pais, mães, filhos, netos, avós, são pessoas que estão desesperadas. Sei que alguns estão de favor na casa de algumas pessoas. Eu não tenho como ajudar dinheiro, então vim dividir o pouco tem tenho. Havia combinado com outras pessoas para dar esse café, mas não apareceram. Então resolvi fazer a minha parte”, desabafou Alice emocionada.  

Alice mora numa rua próxima ao local do desabamento. Na manhã deste domingo, guardas municipais estavam presentes para evitar saques nos imóveis desocupados, evitar acesso de pessoas não autorizadas à área de isolamento e garantir a segurança de funcionários da prefeitura. 

William e a mãe Cleide tomaram o café da manhã feito por Alice (Foto: Bruno Wednel/CORREIO)

Coração
O dia nem tinha raiado e Alice estava de pé num domingo que costuma acordar mais tarde. Ainda na madrugada, ela batia os ovos, botava o pó na cafeteira e fervia o café. Às 7h, já estava tudo pronto e montou a banca no canto esquerdo da entrada da avenida. William, 4 anos, dormiu com a mãe Cleide Correia Maia, 43, na casa de uma vinha e haviam acordado cedo para tomar café num outro lugar quando se depararam com mesa. “Venham, venham, comam um pedaço de bolo, bebam um café, se alimentem e não precisam pagar nada. É de coração”, disse Alice. 

O pequeno William não se fez de rogado e disparou: ”quero bolo”. A mãe comentou logo em seguida. “Ele quer se espalhar. Mas já, já junto ele. Um bolo só viu, William”, disse ela rindo. “Chega me arrepiei toda com essa atitude. Que Deus lhe abençoe”, completou a mãe do menino.

Da janela de uma vizinha, Rosana Correia, 40, fumava um cigarro e disse: “Também tive a minha casa condenada, mas há dois dias que não como nada. Ando muito nervosa, tensa e por isso não consigo me alimentar”. Prontamente, Alice serve a ela um chá. “Beba. Eu que fiz e é de cidreira. Todos nós estávamos à flor da pele, mas precisamos nos acalmar de alguma forma. Esse chá é de erva cidreira. Vai ajudar”, argumentou Alice, convencendo Rosana. 
 

Fonte: Correio