As borracharias são comumente associadas a uma estética da vulgaridade, composta de fumaça de escapamento, graxa e pôsteres de mulheres nuas. O jovem borracheiro Gabriel Souza, 17, não poderia estar mais distante desse clichê.

Morador de Cabreúva, no interior de São Paulo (a 89 km da capital), ele trabalha com seu pai, José Mendes, na borracharia da família em Jundiaí, no bairro Eloy Chaves. Há aproximadamente três anos ele passou a se alimentar afobadamente na hora do almoço para ter um tempinho para praticar a fotografia, pela qual pegou gosto.

Gabriel prefere as cores vivas ao preto dos pneus e o metálico dos motores, e elas ganham primazia nos registros de flores, plantas e animais que ocupam suas redes sociais (no Instagram, seu usuário é o @souza_dk). Seu domínio do metiê tem evoluído, e após ter começado a fotografar com seu celular, ele adquiriu há cerca de um ano uma câmera profissional.

Em uma de suas primeiras saídas com o equipamento novo, no entanto, ele se tornou alvo de grupos de moradores do bairro Eloy Chaves.

Na segunda-feira, 30 de setembro, comeu rapidinho e correu para treinar fotografia em uma praça próxima à borracharia. “É bastante arborizada, rende muitos cliques”, diz Gabriel à reportagem.

No dia seguinte, saiu para comprar um refrigerante nas redondezas da loja do pai e sentiu que estava recebendo olhares de reprovação. Imaginou que fossem por causa da roupa suja de graxa e de óleo e deixou para lá.

De volta à borracharia, encontrou-se com um cliente que mostrava uma lista de mensagens do grupo de seu condomínio. Nele, estavam fotos em que aparecia Gabriel fotografando, acompanhadas de mensagens em que ele era tratado como alguém com “comportamento suspeito”.

“Quem encontrar esse rapaz por favor ligar para o 153 (Guarda Municipal), esse indivíduo está tirando foto das casas”, dizia uma delas.

Um áudio atribuído ao vereador Antonio Carlos Albino (PSB) reforçava o coro: “Se vocês virem esse indivíduo pela rua, já liguem para o 153 porque a viatura da guarda já está tentando achá-lo pelo bairro. É um suspeito de estar filmando e tirando foto das casas aí.”

Publicadas posteriormente, as fotos de Gabriel revelam que em sua mira não estavam as moradias dessas pessoas, mas a casa de um joão-de-barro na árvore.

Gabriel começou a perceber movimentação incomum na vizinhança. Segundo ele, viaturas da guarda passavam e olhavam para dentro da borracharia, como se o estivessem procurando. Moradores miravam de soslaio. Um deles chegou a postar no grupo que havia visto “o suspeito” no ponto de ônibus.

Preocupado, ele foi a duas delegacias na companhia do pai e de seu professor de fotografia, Anderson Kagawa, 32. Em nenhuma delas conseguiu registrar um boletim de ocorrência.

“Eles disseram que não havia crime e se negaram a tomar providências. Em uma delas, sugeriram que eu tirasse uma foto com uma folha de papel sulfite com o meu nome escrito por extenso, para evitar problemas no futuro. Queriam me fichar”, diz.

“Em outra delegacia, disseram que eu deveria ficar uma semana sem fotografar. Depois disso, deveria andar com um certificado de algum curso de fotógrafo, um crachá, nota fiscal da câmera, e andar acompanhado”, afirma Gabriel.

“Tem preconceito envolvido, sim, na minha visão. O Eloy Chaves é um bairro que tem muitos fotógrafos, conheço vários deles, estão sempre pela rua, e isso nunca tinha acontecido, e eles são brancos.”

Na visão de Kagawa, eles foram às delegacias para fazer o boletim de ocorrência de um crime e foram “tratados como bandidos.”

Formado em administração de empresas e de mudança para o Japão para investir no mercado de cafés especiais, Kagawa diz que sabia, claro, que existe racismo no Brasil, mas nunca tinha visto nada do tipo de maneira tão próxima.

Foi ele quem vendeu a câmera profissional a Gabriel, há cerca de um ano. “Meu pneu furou e fui até a borracharia do pai dele. O José me disse que o filho dele gostava de tirar fotos. Rolou uma empatia muito grande, e empatia é tudo nessa vida. É uma família muito boa, honesta, são inteligentes”, diz.

Ele então vendeu a câmera a um preço camarada para o garoto e colocou no pacote um tripé e outros complementos. Passou uma semana ensinando as manhas da atividade para Gabriel.

“Agora que eu estava empolgado, porque veria cada vez mais o resultado do que fizemos juntos, eu tive que ir para a delegacia com ele. Tive medo que aparecesse um justiceiro e fosse lá resolver com as próprias mãos na borracharia. Ou que ele fosse preso e enfiado em um camburão e eu estivesse já no Japão sem ter como explicar que ele tinha comprado a câmera de mim”, explica Kagawa.

Nesta quarta-feira (9), Gabriel viajou para a capital para conversar com advogados e pensar em que providências tomar. Ele e seus familiares ainda estão decidindo o que fazer judicialmente nesse caso.

Procurado pela reportagem, o vereador Albino diz que a recorrência recente de crimes no bairro Eloy Chaves fez com que as pessoas ficassem assustadas e agissem assim. Segundo ele, não houve racismo.

“Ninguém fala em momento algum da cor dele. Ninguém diz que ele é branco, azul, rosa, verde ou qualquer outra coisa”, afirma. De acordo com ele, imputar racismo a essas ações é obra de um adversário político seu na região que tenta “desconstruir” suas obras devido à proximidade das eleições de 2020. Ele diz que tomará as providências cabíveis na Justiça contra quem o acusar de racismo.

Segundo Albino, o garoto era um “desconhecido” que não mora no bairro e que, por tirar fotos das casas das pessoas, estava gerando temor. Sobre sua mensagem de áudio, ele diz não ter acionado a guarda, mas apenas sugerido que uma das moradoras, que estava muito assustada, fizesse isso.

Fonte: Agencia Brasil