A sordidez dos afagos

“Dois mais um”, o novo romance de Rogério Menezes, traça  de modo epistolar a trajetória tortuosa da menina-mulher Manoela, duplo de si. Lançada como jato em vida, sem vida (“Aqui quem fala é uma morta”, clara alusão a Toda Nudez será castigada, de Nelson Rodrigues), ela expõe a sua conturbada relação com o psicanalista Sâmeq, algoz e candidato à (i)mortalidade fracassada de escritor. Seria mesmo esse o fio da meada? Ou trata-se da história das ratazanas Caddy e Benjy? Ou da sordidez dos afagos?

Numa “história” com tantos fios e personagensenredados, difícil  resumi-la. E a história talvez seja o que menos importe no romance do autor. Aqui ele se reinventa e trava um tenso e agudo diálogo com a linguagem e a literatura, denunciando-as seguidamente como meios fracassados de expressão. Não sem antes afiar a lâmina da navalha para liquidar as promessas da psicanálise, e outras instituições que se comprimem na vertigem doabismo da civilização.

Por isso mesmo, o livro tem muitas portas de entrada, o que o faz ser lido (e sorvido) de modo variegado pelo leitor. Ali se encontra  o autor em sua próspera multiplicidade: cronista do imaginário, memorialista que duvida do que lembra,  crítico cultural que não acredita na literatura – embora persista em escrever -, o homem que põe a si, a natureza e o devir em questão, quando  resta quase nada. E o melhor: reafirma-se como um frasistaácido e incorrigível: “A vida adulta é uma fraude. O nosso apogeu é a infância”.

“Resta pouco a dizer”, diria Beckett. E é nesse pouco que Rogério se estorce, se contorce e se expande, ao avesso do que afirmam suas personagens, a fim de promover um respiro de lucidez  e criação em tempos tão cruéis para quem ousa viver e imaginar.  
*diretor teatral

Fonte: Correio